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UM OU MUITOS DEUSES? Um ensaio sobre a teologia védica (Parte 1)

Várias pessoas me pediram que eu falasse a respeito questão da unidade e/ou pluralidade do divino na tradição hindu. Eu poderia, para isso, simplesmente citar autoridades ortodoxas contemporâneas das distintas linhagens que se pronunciam sobre este tema em termos inequívocos e diretos, mas isso não seria suficiente para aqueles que tratam com desconfiança a posição das autoridades contemporâneas, como se a posição deles fosse em algum sentido influenciada por formas de pensamento que não lhes são nativas. Por essa razão, resolvi tratar essa questão a partir de fontes mais antigas.

O plano desta série de postagens é que eu inicie falando a partir das porções anteriores do Veda (c. XV – IX a.C.) e de tratados antigos como o Nirukta de Yāska (c. VI a.C.), o Bṛhaddevatā e o R̥gvidhāna de Śaunaka (c. IV a.C.); depois, a partir do paradigma vedantino baseado na porção posterior do Veda (c. VIII – III a.C.) e formatado no Brahma-Sūtras (c. V d.C.), seguindo as tradições comentatoriais Advaita de Śaṅkara (VIII d.C.) e Dvaita de Madhva (XIII d.C.); e então adentre as esferas dos Purāṇas e Tantras, incluindo perspectivas como as do Śaivāḍvaitin Appayya Dīkṣita (XVII d.C.) e do Śaktācārya Bhāskararāya Makhin (XVIII d.C.).

Uma referência importante que estou seguindo na articulação de todas essas fontes é o volume dois da série R̥gveda Darśana, chamado “Interpretations”, de autoria do Prof. S. K. Ramachandra Rao (de agora em diante RAO). Esta série é publicada pela Kalpatharu Research Academy Publication, uma instituição de pesquisa afiliada ao Śṛṅgeri Śāradā Pīṭham, um dos mais ortodoxos e respeitados monastérios e centro de erudição tradicional da Índia.

Por fim, vale observar que ao longo deste texto podem ocorrer referências a certos termos da metafísica védica que já foram apresentados numa postagem anterior, que pode ser acessada aqui.

Sobre a interpretação dos Mantras védicos

Na primeira postagem deste blog eu falei a respeito das distintas camadas do corpus védico, a primeira das quais é uma coletânea de hinos litúrgicos, entendidos como mantras revelados. A sua importância jaz no fato de que são o loco por excelência da revelação das divindades na tradição védica.

Ora, é notável para aquele que lê esses hinos, de uma antiguidade muito remota, que seus modos de pensamento e expressão são bastante arcaicos, o que desafia o intérprete contemporâneo. Nos meios da Academia ocidental minha intérprete favorita é uma polonesa chamada Joanna Jurewicz. Ela adota uma metodologia derivada da linguística cognitiva, que parte do pressuposto que a linguagem humana se desenvolve através de processos em que termos que são ordinariamente usados a objetos de experiência concreta gradualmente adquirem sentidos mais amplos e abstratos através de processos de metonímia conceitual, metáfora conceitual e combinações de conceitos. Isso é o caso principalmente do pensamento imagético ou poético, que pensa uma coisa em termos de outra. Neste sentido, o universo da experiência concreta e suas categorias serve de “domínio fonte” para a expressão de um pensamento cujo sentido pertence a um “domínio alvo” distinto. Um exemplo seria dizer que “eu captei” ou “apreendi” o que me foi dito: ambos os termos têm por “domínio fonte” o ato concreto de capturar ou apreender algo com as mãos; mas são aqui utilizados de modo que tenham por sentido um “domínio alvo” que é a cognição ou entendimento de algo.

Ora, os hinos litúrgicos védicos são, precisamente, poesia. À luz de trabalhos como esse de Jurewicz, é possível compreender como uma certa cosmovisão antiga acerca do mundo natural é utilizada como “domínio fonte” para dizer coisas que pertencem a um “domínio alvo” que não são da esfera natural, e que se desenvolvem no corpus védico numa metafísica.

[Esta é uma nota importante a se fazer para que o texto não seja tomado por leitores desavisados como naturalismo. Ninguém acusa Jesus de ser naturalista quando instrui aos seus seguidores que orem ao “Pai que está nos céus”: o “céu” aqui é, para os cristãos, um termo que parte de um “domínio fonte” natural como indicador de um “domínio alvo” que significa transcendência, e não o céu atmosférico literal. É uma transposição linguística. Ainda que seja de fato possível provar historicamente que este uso linguístico se baseia em alguma compreensão antiga que tomava o céu literalmente como sendo o Pai divino, como se vê em certas tradições arcaicas.]

E isso nos permite vislumbrar a continuidade entre o conteúdo dos hinos com aquelas camadas posteriores do cânone védico em que esse pensamento já está expresso em formas que para nós são mais conceitualmente inteligíveis. Esta continuidade, por sua vez, termina por ser também um percurso contemplativo para nós que buscamos entender esse material antigo, sendo gradualmente conduzidos a partir de uma contemplação do divino no mundo até uma contemplação do divino em sua transcendência. E esse é de fato o percurso interno ao próprio corpus védico, como é explicitamente articulado pela tradição hermenêutica. Comenta Svāmī Gambhirānanda (“Upanishadic Upāsanās“, em “The Cultural Heritage of India”), acerca da via contemplativa védica e upanishádica:

“Várias contemplações (upāsanās) de diferentes níveis de sutileza eram prescritas às pessoas nos vários estágios da vida. ‘Do familiar ao não-familiar’ era o seu lema, assim como ‘do concreto ao abstrato’. […] Comumente, partiam das coisas mais familiares – os estudantes das letras, as pessoas ordinárias das ações, os pensadores dos conceitos, e os meditadores de meditações inferiores. Todo o processo almejava uma grande síntese em que o grosseiro e o sutil, e o microcosmo e o macrocosmo, perdiam sua existência separada. Assim, a todo momento, nós somos lembrados da identidade do adhibhūta, do adhidaiva e do adhyātma – o natural, o supernatural, e o pessoal. De fato, as upāsanās tinham por intenção não apenas a apreensão intelectual, mas também a identificação espiritual em que todo o vestígio da existência inferior cessava. […] Upāsanā, assim, consiste em ‘cobrir tudo isso com Deus, como a Īśa Upaniṣad o põe, através de estágios progressivos.”

Tratei do método da linguística cognitiva, como uma abordagem acadêmica contemporânea interessante. Vejamos agora como é entendida a interpretação dos mantras no contexto tradicional hindu segundo o Nirukta de Yāska, tal qual explicado e sintetizado por RAO (pp. 94-96, 105, 101-103, 128-129, 132-133, 137, 142, 144-145, 147-150, 157, 161-164, 170, 173-174, 187-188, 190-191).

É compreendido que os r̥ṣis, os videntes dos mantras védicos, tinham a percepção direta da verdade divina em seu interior, e deram a essa percepção a forma vocal do mantra. Além disso, para transmitir o mantra a seus discípulos, eles acrescentavam também instruções ou explicações (upadeśa). Elas são também parte da revelação, porque a palavra sagrada contém a forma e o conteúdo, a palavra e o seu sentido, em mútua adequação ou identidade. No rito, a palavra é mais importante; na contemplação, o seu sentido.  Essa instrução, tendo os próprios videntes como fonte, marcam a origem da linha tradicional de interpretação, que gerações posteriores buscaram preservar.

Enquanto a percepção da divindade é direta no caso do r̥ṣi, para o não sábio ela é indireta, de modo que ele precisa recorrer às palavras do mantra e determinar seu sentido através dos cânones tradicionais. Esse entendimento da divindade inclui também a atitude de total devoção e anseio. Isso envolve esforço na forma do exercício intelectual e também da vida ascética, pois a ascese, trazendo a pureza da mente, é indispensável para entender corretamente os textos escriturais. Esse esforço ascético e contemplativo é o melhor substituto para a visão direta que caracteriza o r̥ṣi. Para tal, yoga, a concentração contemplativa, é prescrita: devemos cultivar os poderes da concentração da mente, a perfeita disciplina sobre si mesmo, o emprego da inteligência afiada, se tornar conhecedor dos vários ramos do conhecimento, praticar austeridades e se submeter às injunções e prescrições dos textos tradicionais e mestres.

Neste contexto, os Vedāṅgas (ciências auxiliares ao Veda) se tornam fundamentais, pois são esses que oferecem as ferramentas para analisar e compreender a linguagem, que é o meio pelo qual se desvela o sentido dos textos sagrados e seus mantras. Segundo Yāska, todas as modificações envolvendo substância, atributos ou ações são expressas pelos quatro componentes da linguagem (substantivos, verbos, preposições e partículas). Inclusive o “Ser” ou “Ser em si mesmo” (bhāva śabdaṃ bhavateh, svapadārthe bhavanam bhāvaḥ), indica de fato um estado de equilíbrio dinâmico, um estado de permanência, livre de toda modificação, e fundamento sob o qual são projetadas e dissolvidas todas modificações; mas sendo expresso como o é por um verbo, é definido pela ação de preservação no estado de ser. Esses quatro componentes da linguagem existem independentemente da sua articulação pelos órgãos sensoriais, de modo que o som é por natureza todo-permeante e efetivo, além das limitações do tempo e do espaço, pois de outra forma a estrutura da linguagem não teria validade, aplicabilidade, relevância ou significado universal e duradouro. Palavras faladas em segmentos distintos do tempo seriam incoerentes, e a comunicação entre as pessoas careceriam de sentido ou relevância. Esse som possui dois aspectos: o pensamento na mente, que é o conteúdo da fala, e a articulação sonora que pode ser dita e ouvida. O som enquanto tal é eterno e permeante, mas sob as formas de pensamento e fala é sujeito a modificações. Deste modo, a partir da distinção entre os aspectos eterno e cambiante do som, é proposta uma distinção entre a fala comum (bhāṣā/vyavahārārtham loke) e a fala sagrada (anvadhyāya).

Pois os textos sagrados formam uma combinação destes dois tipos de linguagem, de tal modo que seja fala comum em sua superfície, mas fala sagrada em sua “essência”. Assim, a aplicação rigorosa da ciência da gramática (vyākaraṇa) é indispensável para que o texto sagrado seja compreendido corretamente no seu aspecto “superficial”, enquanto ‘fala comum’. Mas para que se penetre as aparências e se compreenda sua essência enquanto ‘fala sagrada’, ou seu propósito escritural, é preciso lançar mão dos raciocínios ensinados pela ciência hermenêutica (mīmāṁsā). No contexto da teologia ou discurso sobre o divino, para a compreensão da natureza das divindades reveladas nos mantras é necessário ainda recorrer à ciência da etimologia (nirūkta).

Para se qualificar ao estudo desta última, é preciso antes ter adquirido conhecimento da gramática, e para além disso possuir uma orientação interiorizada capaz de ver além das formas externas – pois, enquanto a gramática permite entender a articulação das palavras, a etimologia permite entender sua eloquência. De fato, a etimologia é um raciocínio (tarka) que tem a filiação tradicional com a comunicação dos próprios r̥ṣis, mas além disso é um exercício intuitivo, imaginativo, contemplativo. Por essa razão penetra na essência dos mantras e nos permite entrever a sua divindade. Pois ainda que se entenda o sentido gramatical de todas as palavras de um mantra, seu sentido escritural permanece oculto até que a devatā do mantra se revele e faça do intérprete um r̥ṣi. E o exercício contemplativo da etimologia é parte da busca por essa revelação, pois é entendido que essa intensa reflexão sobre o sentido do texto sagrado resulta numa imaginação criativa inspirada, numa visão revelada pela divindade do mantra. O objeto de entendimento ao qual se dedica a etimologia é o nome de uma divindade (devatā), que é essencial para a compreensão do mantra uma vez que é do nome que se desdobra tudo o que o mantra contém ou sugere.

Os mantras louvam a divindade ao dizer seu nome, forma, ações e a relação que possui com o vidente. Onde a divindade (devatā) é diretamente referida (em segunda pessoa), o mantra tem um sentido ritual (adhiyajña); quando é louvado em terceira pessoa, tem um sentido ‘teológico’ (adhidaivatā). E aqueles mantras em que o vidente se identifica com o devatā, constituindo um louvor em primeira pessoa, o sentido é adhyātmika, isto é, tendo como referência o ātman, o espírito ou o Si-mesmo da divindade, a realidade que é o fundamento em que todas os  devatās ocorrem e têm o seu ser. Esses três sentidos que os mantras podem possuir são esposados e desenvolvidos pelos yājñikas (ritualistas), nairuktas (etimológos) e ātmavādins (“espiritualistas”), e são ordenados e arranjados em ordem ascendente de importância no entendimento do verdadeiro sentido do Veda. Cada um desses três níveis de sentido dá suporte a posições distintas acerca do divino: nānātva (multiplicidade), tritva (trindade) e ekatva (unidade), respectivamente.

O ponto de vista plural dos yajñikas acerca dos deuses é assim apresentado por Yāska: as ações creditadas aos devatās são muitas, o que é responsável pela multiplicidade de louvores; cada louvor conceptualiza um devatā distinto e glorifica a sua forma, função e poder como distintos. Assim, há tantos receptores de louvores quanto há louvores, e há tantos objetos quanto há nomenclaturas. Já segundo a perspectiva ‘trinitária’ dos nairuktas, todos as divindades são classificáveis segundo os três mundos nos quais atuam, de tal modo que todas são redutíveis ao regente de suas respectivas esferas. Isto é, não há tantos devatās quanto há ações ou louvores, mas os diferentes louvores têm por objeto as múltiplas ações das divindades que regem cada esfera. Logo, há três divindades apenas. A visão que o próprio Yāska considera a definitiva é o ātmavāda, a unitária: que o divino é apenas um (eka), e os mantras o louvam celebrando as suas diversas ações nas distintas esferas, de modo que considerado em seu Si-mesmo (ātman) é a pura unidade, completa não-diferença (ātmā ity abhedah); enquanto que quando tomado em suas relações com as distintas esferas, ele é múltiplo. Desenvolverei essas três perspectivas adiante, ainda dentro do contexto dos tratados do período védico enunciados no início do texto.

Perspectiva Nānātva (pluralidade) / Yajñika (ritual)

(Seguindo RAO, pp. 82, 85-87, 103-104, 106, 110, 192-193)

Como foi resumido acima, a posição teológica da pluralidade é definida do seguinte modo: há uma pluralidade de louvores, que se referem às muitas ações divinas, que correspondem às muitas divindades. Cada louvor, portanto, conceptualiza uma divindade distinta e glorifica a sua forma, função e poder como distintos, de modo que há tantos receptores de louvores quanto há louvores, e há tantos objetos divinos quanto há nomes divinos.

Segundo o Bṛhaddevatā, nos mantras védicos as divindades (devatā-s) são apresentadas e distinguidas segundo seu nome, forma, poderes, funções, humor, inclinações. Antes de uma oferenda ritual às divindades é preciso adquirir conhecimento a seu respeito através dos seus nomes e características, e deve-se visualizá-las meditativamente segundo a sua forma revelada no mantra – formas concretas, informadas por localidade, características e funções. [Diante da questão se os devatās são dotados de forma (ākāravattvam) ou desprovidos de forma (nirākāravattvam), a posição de Yāska é que ambas as opções são aceitáveis, devido, segundo o comentador, ao insuperável poder e majestade da divindade (mahābhāgyāt).] Sem isso, uma conexão com a divindade não é criada e assim as oferendas não são aceitas. Por outro lado, o mero entendimento das divindades, sem o ato ritual, já é ele próprio benéfico, como no caso daqueles que se dedicam apenas a conhecer os mantras (os jovens estudantes celibatários, os brahmacārins). Esse conhecimento é de primária importância, portanto, e é buscado com o espírito de devoção.

Como vimos acima, a ciência da etimologia é privilegiada na capacidade de encontrar esse conhecimento a respeito da natureza das divindades a partir da reflexão sobre seus nomes, o que é importantíssimo uma vez que é do nome que se desdobra tudo o que o mantra contém ou sugere. Pois as distintas escolas de reflexão teológica do período védico formularam modos distintos de entender e explicar quais são os fatores que determinam os nomes dos vários deuses. Alguns etimólogos e sábios como Madhuka, Śvetaketu e Gālava sustentavam que os nomes são determinados por nove fatores: i) a morada ou local de residência (nivāsa); ii) a ação que distingue o devatā dos demais (karma); iii) a forma do devatā (rūpa); iv) a bênção que procede do devatā (maṅgala); v) a forma que assume a fala dos sábios a seu respeito (vāk); vi) a natureza da oração que o sábio o profere (āśiṣa); vii) algum aspecto puramente acidental (yadṛcchā); viii) as características da personalidade do devatā (upavasana); ix) a pertença a uma linhagem, família, grupo ou tribo (amuṣāyaṇa). Outros sábios como Yāska, Gārgya e Rathītara sugerem apenas quatro fatores: i) a natureza do louvor ou oração que o sábio profere a seu respeito (āśiṣa); ii) a natureza dos objetivos que o vidente tem em mente na oração (arthavairūpyāt); iii) a fala a que o sábio recorre (vācaḥ); iv) as ações que distinguem o devatā (karmāṇaḥ). No entanto, o autor do Bṛhaddevatā, o sábio Śaunaka, sustenta que todos os fatores determinantes dos nomes divinos são redutíveis a um só, no qual todos estão incluídos: a ação que lhe é característica, pois é da ação que tudo emerge e se torna significativo (inclusive as orações), todos os seres emergem da ação e dela obtém sua identidade.

Temos assim, portanto, que compreendemos e nos relacionamos com uma divindade segundo seu nome, sua forma e sua ação, que informam seus mantras, iconografias e mitos. Mas tudo isso é determinado pela ação divina que a caracteriza. É notável que o ritual védico era precisamente constituído desses elementos: uma ação que se efetua pela liturgia (nome) e o altar (a forma). Vemos em textos sapienciais do corpus védico (como a Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad do Śukla Yajurveda) como todos os seres, não apenas os divinos, são também constituídos de nome, forma e ação. O nome de um ente é seu aspecto “noumênico”, e sua forma seu aspecto “fenomênico”; sua ação é o seu ato de inserção existencial, no qual apenas seu nome e forma têm sua determinação e sentido. É a partir dessas considerações que se compreende os entes divinos, se medita sobre eles e assim cria a conexão necessária para que a oferenda ritual seja bem sucedida.

No entanto, mesmo nesta via interpretativa irredutivelmente pluralista, ainda assim existe hierarquia entre os deuses. Em grande medida esta hierarquia está baseada na divisão dos mundos em que eles agem, que será vista a seguir. Por hora vale mencionar que, segundo o Aitareya Brāhmaṇa (1.1) do R̥gveda, Viṣṇu é o mais alto deus na hierarquia pluralista dos deuses.

Perspectiva Tritva (trinitária) / Nairukta (etimológica)

(Seguindo RAO, pp. 111-113, 117-119, 178, 212-214)

Era costumeiro nesses antigos tratados classificar todos os deuses do panteão védico segundo a “geografia” dos três mundos da antiga cosmologia: a terra (bhūḥ), a atmosfera (bhuvaḥ) e o céu (svaḥ). Essa antiga cosmologia em algum momento dá lugar a uma tripartição em que a terra significa o mundo “elemental”, a atmosfera significa o mundo psíquico e o céu significa o mundo mental. Todo o panteão é classificável segundo essas esferas, e tratados como o Bṛhaddevatā e o Nirūkta têm as suas classificações próprias.

Uma classificação que emerge na porção Brāhmaṇa dos Vedas (viz. Śukla Yajurveda, Śatapatha Brāhmaṇa 4.5.7.42), é aquela que dá destaque a uma lista de 33 deuses, que assinala a cada um desses três mundos uma classe distinta de divindades chamadas Vasus, Rudras e Ādityas respectivamente. Os Vasus são oito em número, e são as divindades governantes do mundo objetivo ou terreno: Dyaus (Céu), Pṛthvī (Terra), Vāyu (Vento), Agni (Fogo), Nakṣatra (Estrelas), Varuṇa (Água), Sūrya (Sol), Candra (Lua). Os Rudras são onze em número, nomeados de formas distintas em diferentes fontes. Como deuses atmosféricos, estão relacionados à força vital (prāṇa), o que faz deles regentes das faculdades psíquicas dos seres. Quando a força vital deixa o corpo, considera-se que ocorre o fenômeno da morte, razão pela que seus regentes são chamados de rudras – aqueles que fazem chorar. Os Ādityas, divindades solares, são doze em número, diversamente nomeados em diferentes fontes. Eles são chamados assim por serem filhos de Aditi, a deusa suprema da infinitude e liberdade. O número doze está associado à noção dos meses do ano, cada um dos quais é presidido por uma divindade solar distinta. É notável que essas divindades são distintas do deus Sol incluído dentre os Vasus, como indicação de se tratar aqui de uma esfera superior à elemental, a da mente. Utilizando aqui uma lista mista entre as indicações de fontes como Śatapatha Brāhmaṇa do Śukla Yajurveda e do Viṣṇu Purāṇa, os doze Ādityas são: Viṣṇu, Yama, Aryaman, Tvaṣṭṛ, Vivasvat, Pūṣan, Dhātṛ, Savitṛ, Sūrya, Aṃśa, Mitra, Dakṣa.

De todo modo, o que os tratados que estamos seguindo aqui propõem em primeiro lugar é que cada uma das três esferas possui uma divindade regente sobre todos os deuses daquela esfera. As três divindades são respectivamente Agni (Fogo), Indra/Vāyu e Āditya (Sol). De fato, a posição teológica dos etimólogos, dita trinitária (tritva), sustenta que essas são as três únicas divindades: é Agni que, em seu poder e majestade, realiza todas as ações divinas na esfera terrena, de modo que os vários deuses terrenos são na verdade suas várias formas; e assim também com Indra/Vāyu no mundo atmosférico e Āditya no mundo celeste. Ainda, o panteão védico compreende múltiplas divindades femininas, que segundo o Bṛhaddevatā são todas redutíveis a três deusas centrais, cada uma delas encarnando o poder da Palavra em cada uma das três esferas. Elas são, respectivamente: Iḷa, Sarasvatī e Bhāratī.

Perspectiva Ekatva (unitária) / Ātmavāda (espiritual)

Ocorre, no entanto, que esse esquema trinitário termina por dar lugar a um esquema unitário a partir da figura central de Agni, o deus ígneo. Os hinos védicos em verdade louvam a esse deus como possuindo três formas distintas: Agni sendo o fogo terreno, Jātavedas o fogo atmosférico e Vaiśvānara o fogo celeste ou universal. Segundo o Bṛhaddevatā, é a mesma divindade ígnea que assume essas três formas nos três mundos, de modo que Jātavedas é Indra/Vāyu e Vaiśvānara é Āditya. Agni é língua de fogo da qual brilha a luz da linguagem, que constitui o mundo terreno; é o fôlego ígneo do qual se manifesta toda a força vital ou prāṇa, que constitui o mundo atmosférico; é o brilho do conhecimento da mente onisciente, que constitui o mundo celeste. Os regentes das três esferas se distinguem, portanto, apenas relativamente à ação divina nelas exercidas, sendo todos em verdade formas variantes de Agni.

Vemos essa elevação de Agni neste verso do Atharva Veda Saṁhitā (13.3.13): 

“Este Agni se torna Varuṇa (o deus celeste das águas primordiais além do Sol, e que é um deus da justiça) à noite; na manhã, se erguendo, ele se torna Mitra (o deus solar da misericórdia); ele, havendo se tornado Savitṛ (o deus solar que impulsiona os pensamentos) ele se move pela atmosfera; ele, havendo se tornado Indra (o deus atmosférico do raio e da força vital), flameja em meio ao céu.”

Diz o R̥gveda Saṁhitā (5.3.1-4), de modo semelhante diz:

“No teu nascimento, és Varuṇa, ó Agni; quando se acende, te tornas Mitra. Em ti, ó filho da força, todos os deuses estão centralizados. Indra és tu para o homem que traz oblação. És Aryaman para as donzelas, e possuis um nome secreto, ó Autossustentador. Com correntes de leite te ungem como Mitra (amigo gentil) e como fiel aliado, quando fazes da esposa e o chefe da casa de uma só mente. Os Maruts se enfeitam para a tua glória, sim, Rudra! pelo teu nascimento és belo, de cores vivas. Por aquilo que foi fixado como a mais alta estação de Viṣṇu proteges o nome secreto da fonte da abundância. Pelo teu esplendor, ó Deus tão amável, os deuses são belos de se ver. Recebendo muitas dádivas eles servem ao Imortal.”

Noutro hino, que ocorre no R̥gveda Saṁhitā (2.1.3-12), Agni é identificado com Indra, Viṣṇu, Brahmanaspati, Brahman, Varuṇa, Mitra, Aryaman, Aṁśa, Tvaṣṭar, Rudra, os Maruts, Pūṣan, Savitṛ, Bhaga, Ṛbhu, Aditi, Hotrā, Bhāratī, Iḷā, Sarasvatī. Ainda, ele é dito ser o herói dos heróis, o Rei de inclinação graciosa, o Senhor de aparência amável a quem tudo pertence; aquele que os homens buscam em suas orações como o Pai; aquele que, cuja graça uma vez conquistada, é um irmão; ou um filho para quem o adora sempre, ou um amigo fiel que guarda o devoto de todo ataque. Por fim, Agni é o mais alto espírito, o elevado poder que avança todo o desígnio, difundido por toda parte, em cuja bela tonalidade suas glórias se fazem visíveis.

O contexto desta contemplação é o próprio cenário do rito sacrificial, em que na própria chama ritual todos os deuses são invocados, e nela se presentificam. Deste modo, o fogo ritual se revela sob a forma de todos os deuses. Esse é o protótipo ritual mais antigo das grandes máximas sapienciais védicas que ocorrem de modo mais abstrato nas Upaniṣads, em que naquilo que é mais próximo e imediato, o si-mesmo ou ātman, muitas vezes visualizado como uma chama no coração, se presentifica a totalidade da divindade e princípio do ser, brahman. Retomaremos a esse tema mais adiante no contexto do ritual do Agnicayana, que é um antepassado mais próximo dessas doutrinas. Mas de todo modo, de fato há uma linha contínua entre as ideias de Agni e Ātman dentre as várias camadas do corpus védico. Este hino no R̥gveda Saṁhitā (6.9.4-7), por exemplo, louva a divina luz e inspiração de Agni no coração do poeta, e que inspiraria a concepção sapiencial de Ātman:

“Ele é o sacerdote, o primeiro de todos: ei-lo. No meio dos homens mortais, ele é a luz imortal. Aqui ele nasceu, sentado firmemente em sua posição imortal, sempre se expandindo em seu corpo. Uma luz firme foi colocada para os homens observarem: dentre todas as coisas que voam, a mente é mais rápida. Todos os deuses de um acordo, com uma intenção, se movem desobstruídos para um único propósito. Os meus ouvidos se abrem para ouvir, meus olhos para vê-lo; a luz que se abriga em meu espírito se amplia. Longe percorre minha mente cujos pensamentos estão à distância. O que devo falar, o que devo imaginar agora? Todos os deuses se inclinaram diante de ti, Agni, quando estiveste nas trevas. Vaiśvānara seja gentil em nosso auxílio, que o Imortal nos favoreça e nos ajude.”

O Veda concebe a divindade em termos de Agni porque concebe o atributo de ser divino como luminosidade e brilho. Os devas são, literalmente, os “brilhantes”, as luminárias do mundo. Joanna Jurewicz, em sua excelente pesquisa (“Fire and cognition in the R̥gveda”), demonstra como Agni é concebido nos Vedas como cognição e consciência, a luz das luzes. Além disso, Agni evoca outro conceito central a toda a tradição védica: tapas, o calor ou ardor produzido pela ascese, que purifica corpo e mente, do qual emana poderes, e cujo brilho faz daquele que o tem acendido um sábio e vidente, possuidor de uma luz cognitiva superior. O R̥gveda Saṁhitā (10.190) assim louva o Ardor como o princípio supremo, que manifesta a ordem e a verdade cósmica, do qual nasce o estado imanifesto do mundo (a noite) e a substância primordial (as águas), e então o tempo e o mundo:

“Do Ardor (Tapas) auto-iluminado nascem a Ordem e a Verdade eternas. Destas nasce a Noite, e desta o Oceano e suas ondas. Do Oceano com suas ondas nasceu o Ano (o Tempo), o ordenador dos dias e noites, regendo tudo o que fecha os olhos. O Ordenador (Dhātṛ) deu forma ao Sol e à Lua, em ordem de prioridade; o Céu e a Terra; o espaço atmosférico; e enfim, à Luz.”

Tudo isso é manifestação de Agni, o supremo e divino Ardor, e todo deus ou deva brilha por seu resplendor. Cito aqui “Thinking with the Yajurveda”, de Gandabhai Desai, em que o espírito da adoração védica de Agni é apresentado de forma belíssima a partir do Yajurveda:

“O Yajurveda diz claramente que o Agni não-nascido e onisciente brilha no mundo material como fogo; nas regiões dos luminares como Āditya (Sol); e nas águas, como a vida. Diz-se que o adorador védico, que alcança conhecimento discriminador com a observância de Tapa (ascese) e Satya (verdade) no campo de sua estação, encontra Agni revelado (…) na cavidade de seu coração, da natureza de Ādityajyoti (a luz solar), levando-o à transcendência do nascimento e da morte simbólicos no teatro de Māyā. Agni, de fato, é a força da consciência do universo, habitando-o, em seu núcleo, como Prāṇa (vida) e Prajñā (entendimento) e preenchendo-o com sempre novas formas que brilham em estrelas e constelações; Ele é, no entanto, a divindade védica única de purificação e do bem, enviada entre os mortais pela Lei Eterna para ser amada e respeitada. Em Sua adoração, há beleza, riqueza e reputação; e Sua adoração, novamente, leva ao Arcirmārga (o caminho da iluminação) que leva um homem espiritualmente regenerado, por sua vez, ao lar da felicidade eterna. Então a luz de Agni é realmente uma riqueza genuína, pois o sopro sagrado da vida de adoração o mantém no alto no coração humano santificado como luz sagrada para a paz soberana. Embora, portanto, incontáveis mundos estelares sejam Sua residência e O manifestem em Sua luminosa majestade, um coração humano purificado faz isso ainda mais. O Yajurveda nos instrui assim.” (pp. 19-20)

Os antigos videntes arianos adoravam Agni e aqueles que O propiciam são convidados pelo Yajurveda a adorá-Lo com ofertas pertencentes a essa ‘árvore do universo’ e ‘manteiga da vida’; pois eles são os meios mais adequados para adorar essa Onisciência ardente. Agni é sempre poderoso para envolver esses adoradores em Seu poderoso abraço, simbólico da matéria, éter e luz. […] O devoto procura a cobertura irresistível do refúgio de Agni, atuando como Amigo (Mitra) e Castigador (Varuṇa) (…). Ele ora na tensão do enobrecedor Gāyatrī (mantra) e medita na luz adorável e purificadora (vareṇyaṃ bhargaḥ) de Agni como Sol (Savitā), para quem toda a riqueza e luz do cosmos podem ser atribuída, para a obtenção da inteligência suprema (dhiyaḥ pracodayāt). Essa inteligência, graciosamente concedida, ajuda-o a colher as flores da existência fenomenal e finalmente o une na plenitude e frescura da vida indecorosa e onisciente do supremo Brahman de alegria perene.(…) E  com a adoração a Agni apenas, o onipotente Brahman é por ele louvado como Tryambaka – como o controlador dos mundos fenomenal, etéreo e radiante, e suplicado para rasgar os duros grilhões de nascimento e morte; pois sua mais alta ambição é ser permanentemente assegurado na felicidade perene da imortalidade. Ele sente que, somente com a conquista da imortalidade, a consumação da adoração a Agni é alcançada, o que tornaria significativos atributos de Tryambaka de ser Sugandhi (perfumado) e Puṣṭivardhana (nutritivo), tão belamente estabelecido pelo Mantra Mahāmṛtyuñjaya; pois Śiva (bom) é o seu grande nome. (pp. 2-3)

O vidente védico ora a Agni pela perfeição do poder conceitual do adorador, sabendo que ele pode estimular sua mente a um pensamento sempre mais amplo, inspirando-o com renúncia austera, aprendizado e cultura sobre a qual ele preside. (…) O adorador, portanto, se aproxima dEle para obter poderes intelectuais refinados, os quais por si só podem tornar possível a felicidade genuína, concedendo-lhe a iluminação da genuína vigília nos modos obscuros e desejosos da vida simbólica. (…) Agni, no mesmo estado de espírito, é declarado pelo vidente como insondável, como um oceano que permeia todas as atividades da criação. Sem nascimento e, em certo sentido, um grande protetor segurando os mundos criados num pé, enquanto Seus (outros) três pés medem a imortalidade (pādosya viśvā bhūtani tripād asyāmṛtam divi), ele é considerado pelos Yajurveda como a causa eficiente do universo. Agni, novamente, é a palavra imortal e sentinela ajudando os filosoficamente atentos ao caminho da iluminação (Devayāna) para alcançar as regiões imortais onde a morte é finalmente conquistada. (…). Mesmo se um adorador védico realizar um sacrifício na forma da adoração com manteiga clarificada (Ghṛta), ervas e grãos (samidh) a serem oferecidos no fogo, os limites finais não serão alcançados lá. Pois existe um apelo constante aos seres luminosos da luz para santificar e enriquecer o Yajña (sacrifício) com o dom de seus méritos essenciais ao sacrifício. Novamente, Agni, Vāyu e Āditya, as divindades regentes de tal sacrifício, são concebidos pelos Yajurveda como ninguém além de Hiraṇyagarbha ou o Puruṣa mais alto, do qual emerge toda a criação e que não é diferente dela. O Puruṣa é representado como tendo entrado no cosmos nessas três formas e brincando com a criação por Seu prazer com Seu corpo causal, composto por dezesseis elementos. Agni como Hiraṇyagarbha é, portanto, implorado para levar o adorador a Brahmavarcas (o poder de Brahman). (pp. 4-6)

Ainda, diz o Bṛhaddevatā, as deusas femininas das três esferas (Iḷa, Sarasvatī e Bhāratī) são as consortes das três formas de Agni, de tal modo que todas as três sejam em verdade uma só deusa, Vāk, a Palavra, diferenciada em distintas esferas. (RAO, pp. 100, 108-109, 111-112, 117, 118-119). A Palavra quando emitida, toma a forma das águas primordiais, a “substância inteligível” do mundo (Sāmaveda, Pañcaviṁśa Brāhmaṇa, 20.14.2; Śukla Yajurveda, Śatapatha Brāhmaṇa, 6.1.1.9). As águas aquecidas e refulgentes localizadas no Sol são chamadas de Soma, o néctar da imortalidade, do qual a lua é vista como um receptáculo celeste. É esse néctar deleitoso que corresponde ao aspecto feminino de Agni, e o par Agni-Soma, indicando as noções de cognição e deleite respectivamente, viria a ser reconhecido mesmo muito posteriormente como o antecessor de outros pares como Puruṣa – Prakṛti, Śiva – Śakti, dentre outros. A relação entre esses aspectos ígneo e nectarino do divino são pensados arcaicamente através de figurações como a do Sol emanando de seu calor as chuvas, ou na relação entre a ascese que aquece o corpo do asceta e o suor que emana deste calor (viz Śatapatha Brāhmaṇa, 6.1.3.1), dentre outras imagens. Retomaremos a estes temas na segunda postagem da série.

A teologia de Puruṣa-Prajāpati

No dia-a-dia nós projetamos ao nosso objeto de estima um estatuto de devatā: não apenas à divindade que adoramos nos ritos, mas também ao hóspede que chega em casa ou aos nossos pais. Se eliminamos as características específicas de tudo a quanto oferecemos nossa estima, o que resta é a característica geral de devatā, partilhada em comum por todos aqueles. E isso é Agni, essa divindade ígnea que é o devatā que brilha de modo diverso sob a forma das várias divindades. É a seu respeito que o clássico verso 1.164.46 do Ṛgveda Samhitā diz: “Eles o chamam de Indra, Mitra, Varuṇa, Agni, e ele é celestial Garutmān alado magnificamente. Ao que é Único, os sábios dão muitos títulos, eles o chamam de Agni, Yama, Mātariśvan.” Os três mundos se revelam como o corpo do Agni universal, Vaiśvānara, a respeito do qual diz o Śatapatha Brāhmaṇa (10.6.1.11): “este Agni Vaiśvānara não é outro que o Puruṣa”. Trata-se de uma referência à suprema Pessoa divina (Puruṣa), a respeito do qual diz o Ṛg Veda Samhitā (10.90):

Puruṣa tem mil cabeças, mil olhos, mil pés. Envolvendo a Terra por todos os lados, ele preenche o espaço de dez dedos. Este Puruṣa é realmente tudo isto, o que já foi e o que será, É também o Senhor da imortalidade, que se expande pelos alimentos. Sua grandeza é poderosa; sim, Puruṣa é maior do que tudo isto. Todas as criaturas são um quarto dele, três quartos são aquilo que é imortal e divino. […] Chandra foi gerado de sua mente, e de seu olho nasceu Sūrya. Indra e Agni nasceram de sua boca, e Vāyu de seu alento. De seu umbigo veio a atmosfera; o céu foi formado de sua cabeça; A Terra de seus pés, e de sua audição as regiões do espaço. Assim eles formaram os mundos.”

Esta citação acima constitui parte do Puruṣa Sūktam, que é o núcleo de toda a teologia do corpus védico. Isso porque alguma versão deste hino ou algum comentário a seu respeito ocorre em todos os quatro Vedas (Ṛg, Sāma, Yajur, Atharva), e em todas as quatro camadas (Saṁhitā, Brāhmaṇa, Āraṇyaka, Upaniṣad), informando os ritos mais avançados da porção ritual e as principais meditações da porção sapiencial. Não por acaso Ānandatīrtha (séc. XIII) diz que “todo o Veda e todo o conhecimento escritural são uma declaração da natureza transcendente do Puruṣa” (as pūrṇatvāt pumān nāma pauruṣe sūkta īritaḥ, sa evākhila vedārthaḥ sarva śāstrārtha eva ca).

A forma universal de Agni aqui declarada, que transcende e precede a sua tríplice divisão nos três mundos (porque precede a manifestação dos ditos mundos), é conhecida nos Brāhmaṇas como Prajāpati, “o senhor das criaturas”. Essa divindade é por vezes dita no corpus védico como sendo a 34ª, aquela que supera e compreende todas as outras 33 de que tratamos há pouco. O Śatapatha Brāhmaṇa (6.1.2.1-8) do Śukla Yajurveda descreve como a mente de Prajāpati copula com sua consorte Vāk (a Palavra), e dessa união fluem oito gotas, que dão origem aos oito Vasus (os deuses governantes do mundo terreno); novamente copulam, e fluem onze gotas que dão origem aos onze Rudras (os deuses governantes do mundo atmosférico ou psíquico); e novamente se unem, e fluem doze gotas que originam os doze Ādityas (deuses governantes do mundo celeste ou mental).

O título do tratado “Bṛhaddevatā” de Śaunaka faz referência à divindade (devatā) todo-permeante (brhad), isto é, a Brahman como a suprema divindade, o próprio Prajāpati, do qual emergem todas as devatās, com ou sem forma. Ele é imortal, a firme fonte de tudo o que é e não é, senhor de tudo, o protetor de todas as coisas, a fonte e o destino de todos. Aquele que entende corretamente essa suprema luz entra nela. Śaunaka considera Prajāpati o único devatā, que se distingue nas três esferas como os três devas, assumindo os nomes, formas e funções de todos os devatās das três esferas. Segundo Yāska, dotado de poder e majestade insuperável (mahā-bhāgya), e sendo capaz de realizar ações diversas em sua todo-permeância e onipotência, suas ações são percebidas como tendo múltiplas fontes, que são então nomeadas de acordo; mas em verdade é ele quem se distingue nos distintos mundos e projeta os vários devatās de acordo com seus nomes, formas e funções, ele próprio em verdade assumindo esses nomes, formas e funções. Ele é de fato como a orbe solar (maṇḍalātmā) que possui todos os deuses como seus raios luminosos. (RAO, pp. 97-98, 107, 108, 122-123, 184-185, 203).

Essa divindade una é compreendida por Yāska como sendo o Si-mesmo, o ātman único de todas as divindades. Nessa concepção, é como se as divindades fossem seus membros, cada um exibindo um poder particular, mas pertencendo ao corpo e servindo ao propósito do Si-mesmo. Tal qual a consciência é o si-mesmo de todas as cognições, sendo chamada de memória quando lembra, de imaginação quando forma imagens, de intelecto quando discerne etc. (Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad 1.4.7) – todas essas atividades sendo como seus membros. Essa concepção aponta para uma concepção em que um sujeito é uno-múltiplo: uno, idêntico consigo, em seu si; mas múltiplas personas em cada uma de suas agências.

Dizem esses antigos comentadores que dessa realidade una há muitas percepções, dando lugar a muitos nomes (dados), formas (imaginadas), e louvores. Desse modo, o todo-permeante Prajāpati, imbuído de grande poder e múltiplas projeções, é a única entidade adorável para todos, sendo ao mesmo tempo o perfeito pronome significando todos os substantivos, e desse modo o objeto de todos nossos enunciados, louvores e orações. (RAO, pp. 107, 181-182). Segundo o Śatapatha Brāhmaṇa (10.5.2.20) do Śukla Yajurveda, Prajāpati é o objeto de devoção de todos os seres, cada qual concebendo-o à sua maneira sob a forma do seu supremo objeto de atenção:

Este (Prajāpati) chamado ‘Agni’, os Adhvaryus (Yajurvedins) adoram como ‘Yajus’, porque ele une (/yuj) todo este universo. Os Chāndogas (Sāmavedins) (adoram-no como) ‘Sāma’ porque nele todo este universo é uniforme (samāna). Os Bahvṛcas (R̥gvedins) (o adoram como) ‘Uktha’, (porque) ele causa todo este universo a vir a ser. Aqueles habilidosos em magia (adoram-no) como ‘asura’ [poderoso] porque por ele todo este universo é governado. Os nāgas (serpentes) (adoram-no como) ‘veneno’. Os encantadores de serpente (adoram-no como) ‘nāga’. Os deuses (adoram-no) como ‘vigor’. Os homens (adoram-no como) ‘posses materiais’. Os asuras (adoram-no) como ‘magia’ (māyā). Os ancestrais (adoram-no) como ‘svādhā’.

É notável que o percurso que fizemos até aqui é replicado na Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (3.9.1-9) do Śukla Yajur Veda, o qual Śaṅkarācārya resumiu e transliterou da seguinte forma no Brahma-Sūtra Bhāṣya (1.3.27), em que Prajāpati é referenciado sob o seu nome Hiraṇyagarbha:

“Començando com a questão (de Śākalya), ‘quantos deuses há?’, o número de deuses é determinado (por Yajñavalkya) como sendo ‘trezentos e três, e três mil e três’. E quando a questão foi posta, ‘quem são esses?’, a Upaniṣad afirma, (por Yajñavalkya), ‘esses não são nada senão manifestações deles; mas há apenas trinta e três deuses’, por qual afirmação a Upaniṣad mostra que cada deus pode ter muitas formas simultaneamente. Similarmente, é mostrado que os trinta e três deuses estão inclusos em seis; e assim por diante até a questão, ‘qual é o deus único?’, cuja resposta é dada, ‘é o Prāṇa (Hiraṇyagarbha)’. Ao mostrar aqui a identidade de todos os deuses com Hiraṇyagarbha, a Upaniṣad revela que o próprio Hiraṇyagarbha tem múltiplas formas simultaneamente. (…) (Tal qual os) Yogins, que havendo adquirido os poderes místicos de se tornar sutil à vontade etc, podem ter associação com muitos corpos ao mesmo tempo.”

Prajāpati tem ainda alguns outros de seus nomes que Seus outros nomes que encerram em si múltiplos níveis de compreensão do seu ser, dentre os quais: Hiraṇyagarbha (embrião dourado), Brahmā Svayambhū (o brahman auto-nascido), Viśvakarman (o todo-fazedor), Bṛhaspati (senhor da vastidão) ou Brahmanaspati (senhor da palavra), Virāṭ (todo-permeante); e além desses, Indra, Kha (espaço/felicidade), Kāla e Parameṣṭhin. Esses nomes formam uma complexa teologia de Prajāpati, que inspira muitas reflexões nos Brāhmaṇas e muitas das meditações das Upaniṣads, e a buscamos reconstruir aqui.

Na minha postagem anterior sobre a metafísica védica eu tratei com detalhes sobre Hiraṇyagarbha, o “embrião dourado”, um dos epítetos de Prajāpati. Seu nome faz referência à narrativa de seu nascimento a partir das águas primordiais como o embrião de todos os deuses e mundos; seu epíteto “dourado” indica que ele é flamejante. Em narrativas de certos hinos védicos mais antigos ocorria a imagem do Agni nascido das águas, da qual a concepção de Hiraṇyagarbha é descendente. Que ele seja dourado também faz referência ao fogo celeste ou Sol: numa cosmologia antiga as águas estavam mais além do Sol, de modo que o Sol nascia delas, e então as fazia escorrer através de si como chuva. Na sua forma conceitual, as águas serão entedidas pela tradição védica como a substância primordial, “matéria inteligível”, prakṛti; e o Sol flamejante que dela nasce, o embrião dourado, será entendido como o Intelecto demiúrgico. Em outros termos, neste epíteto vemos os atributos e funções de Āditya (o Sol) e as divindades solares, governantes dos poderes do conhecimento, assimilados a Prajāpati. Este é Hiraṇyagarbha, também chamado no Veda de Brahmā Svayambhū (o brahman auto-nascido). Diz a seu respeito o Hiraṇyagarbha Suktam do Ṛg Veda Samhitā (10.121):

“No início era a Divindade em seu esplendor, manifesta como o único Senhor da terra, dos céus, da água, do espaço e daquilo abaixo, e que Ele sustentava a terra e os céus. Quem é a deidade a quem devemos adorar com nossas oferendas? […] É aquela por cuja grandeza se tornou o Rei único do alento e da visão, que é o Senhor do homem, da ave e da besta. […] É aquela a quem o céu e a terra, trazidos à luz por sua graça, contemplam com a mente radiante, enquanto sobre eles o Sol nasce e brilha. […] Quando as poderosas águas vieram a ser, portando a semente universal, produzindo a chama da vida, ali habitava em harmonia o Espírito Único dos Devas. A qual deidade devemos adorar com nossas oferendas? Àquela que em seu poder perscrutou as águas, conferindo habilidade e criando a adoração – Aquele, Deus dos deuses, o Uno e Único.”

Se Prajāpati é concebido como “embrião dourado” a partir de sua assimilação dos atributos do Sol, e assim chamado Hiraṇyagarbha, indicando sua onisciência, noutros hinos ele assimila os atributos de Vāyu (o regente do mundo atmosférico e governante dos poderes de ação), e é louvado como Viśvakarman, aquele que tudo faz, indicando sua onipotência. Dizem os hinos 10.81 e 10.82 do Ṛg Veda Samhitā:

Viśvakarman, a tudo vendo, produziu a terra, com grande poder revelou os céus. Ele que tem olhos em todos os lados, uma boca em todos os lados, braços e pernas em todos os lados, Ele, o Único Deus, produzindo a terra e o céu, os soldam unidos, com seus braços como asas”.

“O Pai que nos fez, ele que, como o Ordenador, conhece todas as espécies e todas as coisas existentes, por ele apenas, aquele que nomeia os devas, outros seres buscam para instrução. Aquele que é anterior a esta terra e céu, antes que os asuras e devas fossem, o que é aquele germe primordial que receberam as águas onde todos os deuses foram vistos unidos? As águas receberam aquele germe primordial no qual os deuses estavam unidos em um.”

Também vemos Prajāpati assimilando os atributos e funções do Agni qua deus regente do mundo terreno. Ora, o fogo terrestre é compreendido nos Vedas como o senhor da palavra, pois é ele quem guarda os hinos recitados ritualmente e os transmite aos demais deuses. Prajāpati assimilando os atributos do regente do mundo terrestre é conhecido como o senhor de brahman ou da palavra sagrada: Bṛhaspati ou Brahamanaspati. O Bṛhaddevatā contempla Bṛhaspati como Brahman – a fonte de tudo o que é e não é, o imperecível, o objeto de todos os enunciados védicos. Os hinos védicos o descrevem como numa carruagem cheia de luz, o primeiro nascido dos devatās, brilhante como uma grande luz no mais alto espaço, dotado de abundante poder cosmogônico, associado com o conhecimento supremo, o espírito que vivifica todos os seres e quem faz brilhar em nós a aurora, a mais alta felicidade, a luz do ritual e do sol (RAO, pp. 93, 99 e 101). Ele é a onipresença de Prajāpati através da todo-permeância da Palavra. Diz o R̥gveda Saṁhitā (2.23.1-3 e 2.24.11):

“Nós o invocamos, Senhor e Líder das hostes celestiais, o sábio dentre os sábios, o mais esplendoroso de todos, o rei supremo das fórmulas sagradas, ó Brahmanaspati: escuta-nos e auxilia-nos; senta-te no local do sacrifício. Bṛhaspati, deus immortal! Verdadeiramente os deuses receberam de ti, o sábio, uma parte nos santos ritos. Assim como com grande luz o Sol traz os raios da manhã, assim também Tu apenas és o Pai de toda a formulação sagrada (brahman). Quando Tu afugentas a injúria e a escuridão, montas a carruagem refulgente da verdade; a carruagem, ó Bṛhaspati, que aterroriza, suprime o inimigo, destrói os demônios, parte as nuvens e encontra o Sol.”

“Onipresente na esfera terrena, grande e regozijante, expande em tua misteriosa força – ele é o deus vasto diante dos deuses; ele, o Senhor da formulação sagrada (Brahmaṇaspati), abrange este Todo.”

Em alguns mantras do corpus védico, como o Maitrāyaṇīya Saṃhitā 2.9.1 e o Taittirīya Āraṇyaka 10.1 do Kṛṣṇa Yajurveda, Brahmanaspati é adorado com os epítetos Dantiḥ (aquele de grande presa), Hastimukha (aquele com a face de elefante) e Vakratuṇḍa (aquele com a tromba curvada). É ele quem será concebido na tradição posterior como Gaṇapati ou Gaṇeśa, em cujo culto até hoje se emprega os mantras védicos de Brahmanaspati. Ele é Virāṭ (cf. Māṇḍūkyopaniṣad Bhāṣya de Madhvācārya), a divindade todo-permeante que tem o cosmos como seu corpo – que por isso é representado como um corpo de “grande” dimensão. Ele é o “senhor (pati) das categorias (gaṇa)” por abranger o mundo em sua multiplicidade. Assim como no hinduísmo védico Agni qua deus do mundo terreno é invocado no início de todo sacrifício, assim também no hinduísmo purânico-tântrico Gaṇeśa é invocado antes de qualquer atividade ritual.

Vimos, portanto, como Prajāpati supera todos os deuses das três esferas, sendo o ‘criador’ destes; mas também como ele assimila a si os atributos e agências dos regentes de cada esfera, sendo assim conhecido pelos nomes Hiraṇyagarbha, por sua onisciência celeste; Viśvakarman, por sua onipotência vital/atmosférica;e Bṛhaspati/Brahmanaspati, por sua onipresença através da palavra. Vemos o Śatapatha Brāhmaṇa (11.1.6.1-10; 11.2.3.1-6) do Śukla Yajurveda nos apresentando uma integração desses três aspectos nos seguintes trechos, que narram acerca do embrião dourado nascido das águas pelo fervor da ascese, e que uma vez nascido cria os três mundos pelas palavras, e cujas forças vitais ascendente e descendente dão origem aos deuses e asuras, o dia e a noite, a verdade e a falsidade, a imortalidade e a morte. Manifestando a partir de si as esferas e seus regentes, se retira para além do mundo e os permeia através de nome-e-forma:

“Verdadeiramente, no início eram apenas as águas, nada senão o oceano das águas. As águas desejaram, ‘como podemos nos reproduzir?’ E elas exerceram fervente ascese, e quando se tornaram aquecidas, um embrião/ovo dourado foi produzido. (…) este Prajāpati foi produzido daquele (…). Ele abriu o ovo. Não havia, então, nenhum local de repouso: e ele flutuou nesse ovo dourado que o portava (…). (Então) ele disse ‘bhūḥ’ (terra), e este mundo terrestre veio a ser; ‘bhuvaḥ’ (atmosfera), e veio a ser (o mundo) atmosférico; svaḥ: (e) veio a ser (o mundo) celeste. (…) Ao final, Prajāpati se ergueu para ficar sobre os mundos assim produzidos. (…) Desejoso de prole, ele seguiu com cânticos e ascese. Ele dispôs o poder reprodutivo em si mesmo. Pelo fôlego da sua boca ele criou os deuses: os deuses foram criados ao entrar no mundo celeste; e essa é a divindade dos deuses, que eles foram criados ao entrar no céu. Havendo-os criado, havia a luz do dia para ele, por assim dizer: e essa é também a divindade dos deuses, que, após criá-los, havia luz para ele. E pelo seu fôlego descendente ele criou os asuras: eles foram criados ao entrar nessa terra. Havendo-os criado houve, por assim dizer, escuridão para ele. Ele soube, ‘verdadeiramente, eu criei o mal para mim uma vez que, após criá-lo, houve a escuridão para mim, por assim dizer.’ Naquele mesmo instante ele os feriu com a morte (i.e. os fez serem mortais), graças ao que eles foram subjugados. Por isso dizem as pessoas que ‘a luta entre deuses e asuras não é verdadeira, sendo relatada em parte como fábula e em parte como lenda; pois foi naquele mesmo instante que Prajāpati os feriu com a morte, e é graças a isso que foram subjugados.’ É em referência a isto que disse o R̥ṣi, ‘nem por um único dia hás lutado, pois não tens nenhum inimigo, ó Maghavan; é uma ilusão o que dizem sobre suas batalhas; nenhum inimigo hás combatido seja hoje ou outrora.”

“Na verdade, no começo, esse (universo) era o Brahman. Ele criou os deuses; e, tendo criado os deuses, os fez ascender a esses mundos: Agni, este mundo (terrestre), Vāyu, o ar, e Sūrya, o céu. E as divindades que estão acima deles, ele fez subir os mundos que estão acima deles; e, de fato, assim como esses (três) mundos e essas (três) divindades são manifestos; assim são os mundos (superiores) e as divindades (superiores) manifestadas – (os mundos) em que Ele fez essas divindades ascenderem. Então o próprio Brahman subiu à esfera além. Tendo subido à esfera além, considerou: ‘Como posso descer novamente a esses mundos?’ Depois desceu novamente por meio desses dois – Forma e Nome. (…) na medida em que se estendem Forma e Nome, na mesma medida se estende o universo. Essas são, de fato, as duas grandes forças do Brahman; e, em verdade, quem conhece essas duas grandes forças do Brahman se torna uma grande força. (…) No começo, de fato, os deuses eram mortais, e somente quando receberam Brahman se tornaram imortais.”

E ele não apenas cria todos os mundos e seres a partir de si, mas também os habita e impele desde o interior como o governante interno (antaryamin) ou soberano (īśvara). Sob esse aspecto é chamado de Indra (vide RAO, p. 124): o nome de Prajāpati que o designa na condição do impulsor (indha) da energia (prāṇa) que, habitando os seres internamente, ativa e impele seus poderes cognitivos e conativos por sua mera presença, tal como um ímã move o ferro (R̥gveda, Aitareya Āraṇyaka 2.4.1; Kauṣītaki Upaniṣad 3.2-3). É chamado soberano (īśvara) devido à sua posse da magia caleidoscópica chamada māyā, como o dizem o R̥gveda Saṁhitā (6.47.18) e a Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (2.5.19): “Indra, através de māyā, assume diversas formas”. Uma vez que recolhe seu poder em si mesmo mantém a semente de toda a realidade absorta em si, o que é concebido como a união de Indra e sua consorte Indrāṇī (Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, 4.3.23-32; Śatapatha Brāhmaṇa, 10.5.2.9-12). Desta mesma união, uma vez emitida a semente sobre as águas, o pai nasce sob a forma do filho: isto é, Indra é o Puruṣa supremo não-nascido que uma vez nascido assume a forma demiúrgica de Prajāpati que vimos antes (Śatapatha Brāhmaṇa, 6.1.1).

Por fim, o nome de Prajāpati, que indica sua natureza própria não-nascida, transcendente, pura, intocada, é Kha (o espaço) ou Ka (a felicidade), um jogo linguístico que aproxima o sentido dessas duas palavras pela similaridade fonética (Śukla Yajurveda, Śatapatha Brāhmaṇa 2.5.2.13, 6.1.2.23, 11.5.4.1; Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad 5.1.1. Sāmaveda, Chāndogya Upaniṣad 4.10.3-5). O que isso significava para a antiga tradição védica nos é visível através da interpretação de Kumārila Bhaṭṭa (c. VII d.C.), uma das maiores autoridades do Pūrva Mīmāṁsā. Seguindo aqui a apresentação feita por Kiyotaka Yoshimizu em seu artigo “Kumārila’s Reevaluation of the Sacrifice and the Veda” (pp. 223, 225, 226, 229), temos o seguinte quadro: uma cosmologia antiga que compreendia haver vários tipos de corpos em esferas distintas em que um ou outro dos cinco elementos predominava, os não-predominantes existindo ali de modo auxiliar apenas. Deste modo, no mundo terreno os quatro tipos de corpos (aquático, o dos pássaros, animais terrestres e homens) são feitos de terra, os demais elementos auxiliando-a apenas; na esfera da água haveriam corpos de membros transparentes, feitos predominantemente de água; na esfera do ar haveriam corpos sutis e leves feitos de ar; e na esfera celeste haveriam corpos refulgentes feitos de luz solar. E, além destes todos, haveria o espaço puro (ākāśa). [Digo ‘puro’ no sentido de sem dimensionado, não determinado pelas ideias de distância e direção; assim o distinguimos do espaço dimensionado que é assim determinado, e que é referido pelo termo diś. Os dois são claramente distinguidos como substâncias distintas no Vaiśeṣika].

Ora, o espaço é para o pensamento indiano o elemento no qual subsiste o som, sendo esse som uma potência universal e todo-permeante, que se manifesta audivelmente quando aqui ou acolá se dá alguma fricção. A esfera do espaço seria, portanto, aquela do som eterno, a palavra divina imortal (śabdabrahman), que é o próprio Veda; e esse espaço sonoro seria o corpo do espírito ou do supremo si-mesmo divino (paramātman) que o habita. Deste espaço se diz que “todos esses seres, verdadeiramente, emergem do ākāśa e retornam ao ākāśa.” (Sāmaveda, Chāndogya Upaniṣad 1.9.11); e do si-mesmo que o habita se diz “cujo corpo é ākāśa, cuja natureza é verdadeira, cujo deleite é a vida, cuja mente é bem-aventurança, que é repleto de paz, que é imortal” (Kṛṣṇa Yajurveda, Taittirīya Upaniṣad 1.6). Este é brahman, segundo Kumārila, que cita em seu suporte passagens do corpus védico que identifica Prajāpati-brahman com o espaço. Kumārila sustenta, ainda, que esse paramātman encarnado no espaço, está imanente em sua totalidade em cada um dos ramos do corpus védico, recitando os mantras dos quais nos é possível perceber sensivelmente o seu corpo ressoando audivelmente no espaço.

E é através desse som, através das palavras védicas, que Prajāpati faz o mundo vir a ser: “Pelo Veda, Prajāpati projetou as formas, manifestas e imanifestas” (Kṛṣṇa Yajurveda, Taittirīya Brāhmaṇa 2.6.2); “Ele pronunciou ‘bhūḥ’, e a terra veio a ser” (ibid., 2.2.4); “Os nomes e os atos de todos, cada um à sua vez, e as várias formas – ele as manifestou primeiro a partir das palavras védicas elas mesmas” (Manu Smṛti, 1.21). Como aquele que sustenta o som em seu estado imanifesto ou inaudível, o espaço é silencioso e pleno de felicidade.

Ainda, o nome Kha tem conotações mais amplas nos contextos da matemática e da metafísica, como assinaladas por Ananda Coomaraswamy em seu artigo “Kha and other word denoting Zero, in connection with the Indian Metaphysics of Space”. Neste, o autor nos remete ao fato de que na matemática indiana o kha significava zero, assim como outros termos sinônimos como: śūnya (vazio), ākāśa (espaço não-dimensional), vyoma (céu), nabha (umbigo), ananta (infinito) e pūrṇa (pleno). É de grande interesse, como notado por ele, que o ‘vazio’ e a ‘plenitude’ tenham o mesmo referente, ou que o zero seja concebido como o infinito. Ele chega a propor um diagrama geométrico a partir do símbolo védico da roda, a fim de ilustrar as relações lógicas entre o zero, a unidade, a multiplicidade indefinida, e a partir dessa ilustração propõe uma leitura da metafísica védica à luz dos vários componentes desse diagrama. Não vem ao caso reproduzi-lo aqui, mas de todo modo o principal a ser ressaltado é que o zero é concebido como a plenitude que é a fonte, sustentáculo e resolução de todo número, sem que seja afetado por eles; o que metafisicamente corresponderia à fonte, sustentáculo e resolução de toda formulação e ordem formativa que constitua o mundo. Ele cita o matemático Bhāskara, que diz em seu Bījagaṇita:

“Esta fração da qual o denominador é zero, “é chamada uma quantidade infinita. Nesta quantidade consistindo daquilo que tem cifras por divisor, não há alteração, ainda que muitos possam ser acrescentados ou subtraídos; assim como não há alteração no Infinito Imutável (anante acyute) no momento da emanação ou resolução do mundo, ainda que hostes de seres sejam emanadas ou retraídas.”

Os sons emergem do espaço, se sustentam no espaço, e nele se dissolvem; mas antes, durante e depois o espaço permanece espaço – ele não ganha ou perde propriedades nem tem sua pureza maculada. É tudo isso que está sendo contemplado naquele que é um dos mais profundos de todos os mantras do corpus védico, que ocorre como bendição no início de todas as Upaniṣads do Śukla Yajurveda:

oṁ pūrṇamadaḥ pūrṇamidaṁ pūrṇat pūrṇamudacyate |
pūrṇasya pūrṇamādāya pūrṇamevāvaśiṣyate ||
oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ ||
“Oṁ. Isto (o manifestado) é Plenitude, aquilo (o não-manifestado) é Plenitude. A Plenitude que surge da Plenitude é realmente plena. Tirando-se a Plenitude (que é o efeito) da Plenitude (que é a causa), somente Plenitude permanece. Que haja paz, paz, paz.”

Esse espaço vazio-pleno-infinito é o “corpo” do si-mesmo supremo (paramātman). É evidente que ele é pensado, a princípio, tendo o espaço sensível como “domínio fonte”, mas seu “domínio alvo” é mais amplo, e vemos seu sentido expandido e penetrando a linguística, a matemática e a metafísica. No Sāṁkhya, inspirará a noção de mūlaprakṛti, o estado primordial e imanifesto da natureza, que é de fato pensado em termos do ākāśa védico/upaniṣadico. Śaṅkara (Chāndogyopaniṣad Bhāṣya, III.12.9) distingue entre o espaço dos sentidos, o espaço da mente, e o espaço do coração (o núcleo da inteligência): essa tríplice divisão viria a ser profundamente desenvolvida pelo Yoga Vasiṣṭha nas noções de bhūtākāśa (o espaço físico), cittākāśa (o espaço mental)e cidākāśa (o espaço da pura consciência ou espírito), os quais são “a condição de possibilidade” ontológica e epistemológica de tudo o que vem a ser nos seus respectivos domínios.

O termo ākāśa ainda carrega em si, etimologicamente, o sentido de algo brilhante ou luminoso – uma herança, provavelmente, do “domínio fonte” desse conceito que é o espaço pensado em termos do céu aberto iluminado.  Śrīkaṇṭha (c. XII d.C.), em seu comentário ao Brahma Sūtras (1.1.23-24), identifica o supremo espaço (paramākāśa) das Upaniṣads com a luz transcendente que é a grande causa de tudo, distinguindo-odo espaço material (bhūtākāśa), que é um efeito do primeiro. Esse espaço jaz no coração de todos os seres, habitando o qual o Supremo Senhor é chamado de cidambara, revestido de luz espiritual (1.3.15). Noutras passagens (1.1.16; 4.4.14), ele identifica esse supremo espaço luminoso ao aspecto bem-aventurado ou deleitoso de Brahman, bem como ao poder supremo (parāśakti) que informará a concepção Śaiva-Śākta do aspecto feminino da divindade:

“É o paramākāśa ou luz suprema, o prakṛtiātman, que é descrito no śruti como ānandamaya (feito de deleite). (…) também conhecido como parāśakti, o ātman auto-consciente. É, portanto, o poder supremo (parāśakti) – que é um atributo de Brahman, o ātman que é a causa material e a suprema luz, que é dito como ānandamaya. Como a substância possuindo ānandamaya enquanto atributo, o Supremo Brahman é dito ser a sua base. (…) o ānandamaya, que é da natureza de um atributo (dharma) e energia (śakti) não pode ser pensado como distinto do Supremo Brahman, a substância básica na qual inere como atributo e energia.”

“… o Brahman ele mesmo, encarnado no ākāśa, isto é, Brahman revestido no supremo esplendor, Seu Deleite Supremo. Aquele Poder Supremo (parāśakti) que é a fonte de todo o ser; a essência homogênea una do ser, luz e deleite último; que é chamada paramākāśa, o esplendor supremo, formando o próprio ser de Brahman, e que diretamente no caso de Parameśvara e dos seres libertos, e em última instância no caso de outros, é o meio pelo qual realizam sua vontade e atividade.

Que esse espaço seja a fonte, sustentáculo e resolução de todas as coisas significa que o espírito que o habita é aquele que, através desse espaço como seu poder, é a causa da origem, sustentação e dissolução de todas as coisas. , aqui a concepção da divindade chega a um nível metafísico superior ao que vimos até então: não se trata mais apenas do divino como demiurgo mas do divino como a Origem, aquele que habita a região suprema, o seu aspecto mais transcendente, Parameṣṭhin. Como o coloca a Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (5.5.1) do Śukla Yajurveda, não é ao seu progenitor Prajāpati (agora reduzido ao seu aspecto de demiurgo) que os deuses oferecem sua adoração, mas à Verdade que é a Fonte. Aqui entramos de fato na concepção vedantina de Īśvara, o Senhor, “Deus” num sentido mais pleno. A porção sapiencial dos Vedas, a partir de sementes já contidas na porção ritualística, consagra essa passagem para um nível mais fundamental da compreensão da natureza do divino sob a forma da distinção entre o brahman inferior (ao qual Prajāpati agora se encontra reduzido), associado ao mundo dos efeitos;e o brahman superior (Īśvara), que é a Causa. Sobre isso discutiremos com mais detalhes na próxima seção.

Quanto à tríplice natureza do Princípio – que é ser a Causa da origem, sustentação e resolução de tudo –,  Brinkhaus demonstra, em seu artigo “Cyclical Determinism and the Development of the Trimūrti Doctrine”, que essas três atribuições são desenvolvidas nos Brāhmaṇas do corpus védico como pertencendo a distintos aspectos de Prajāpati, que quando manifesta o mundo é chamado de Brahmā, quando se mantém inativo (enquanto sustentáculo no qual tudo repousa) é chamado de Puruṣa, e quando a tudo destrói é chamado de Kāla (tempo). Eventualmente outras duas divindades védicas, Viṣṇu/Nārāyaṇa e Rudra/Śiva, viriam a encarnar as atribuições de Puruṣa e Kāla respectivamente, uma passagem que já se encontra plenamente consolidada em Upaniṣads posteriores e no Nārāyaṇīyaparvan do Mahābhārata, consagrando assim a doutrina clássica do Trimūrti (Brahmā, Viṣṇu, Śiva).

Na próxima postagem continuaremos a explorar como, sobre a fundação da teologia de Puruṣa- Prajāpati, se desenvolvem no corpus védico os princípios das teologias de Viṣṇu/Nārāyaṇa, Rudra/Śiva e da Deusa. Depois, abordaremos o modo como tudo isso é formalizado segundo a perspectiva do Brahma-Sūtras, o texto base da Vedānta enquanto escola hermenêutica do Veda.

PLOTINO E O PENSAMENTO HINDU (Parte 2): Uma comparação metafísica.

Enquanto na primeira parte desta postagem sobre a relação entre Plotino e o pensamento Hindu eu tratei da questão de um ponto de vista histórico, inserindo-a no contexto mais amplo das relações civilizacionais entre helênicos e indianos, nesta segunda parte me proponho a fazer um breve ensaio comparativo entre metafísicas. Para tal, me orientarei pela questão que foi feita por um amigo: “como esse vínculo (entre Plotino e o pensamento hindu) pode se remontar a como o ‘Ekam’ do Ṛgveda (X, 129) se transforma em Brahman?”. Para os leitores que não conhecem a referência da questão do colega, o hino védico em questão é uma narrativa cosmogônica que fala do princípio que está além do ser e do não-ser, e do Uno (Ekam). Trata-se de um texto sagrado que informou outras camadas do cânone védico, e a partir daí o hinduísmo como um todo. É possível entender as etapas da narrativa cosmogônica deste hino como constituindo distintas hipóstases; e através de interrelações deste hino com outros textos do Veda que o desenvolvem é possível entrever um esquema metafísico muitíssimo similar àquele de Plotino. É a esta comparação que me dedicarei aqui.

O primeiro passo a ser tomado aqui, no entanto, será o de reconstruir brevemente a metafísica plotiniana. O farei da forma mais resumida possível, chamando a atenção para a sua via cosmogônica e a sua via soteriológica. (Aqui e acolá dou uns toques que tendem à leitura procleana.)

A VIA COSMOGÔNICA EM PLOTINO

O esquema metafísico de Plotino tem a característica central de uma causalidade vertical e uma hierarquia de níveis de realidade, de tal modo que visto de cima para baixo teríamos uma cosmogonia e visto de baixo para cima uma soteriologia. Nesta hierarquia, temos principalmente três hipóstases – o Uno, o Intelecto e a Alma; mas temos também uma figura não-hipostática misteriosa, a matéria; e entre a Alma e a matéria temos o cosmos, o mundo ordenado que emerge da interação ordenadora da alma para com a indeterminação da matéria. Este mundo ordenado é permeado de várias almas derivadas da hipóstase Alma – algumas almas mais particulares (como a nossa) e outras mais universais (como a alma-do-mundo e/ou a natureza). Na fase cosmogônica (ou ‘de cima para baixo’) da descrição das hipóstases, há uma narrativa da passagem do simples e unitário ao complexo e múltiplo; um movimento exteriorizante do si ao outro. Ao contrário, na fase soteriológica (‘de baixo para cima’) há uma passagem do complexo e múltiplo ao simples e unitário; um movimento interiorizante do outro ao si. As narrativas cosmogônicas frequentemente são feitas por Plotino num formato quase-mítico, em que etapas sucessivas são narradas como se constituíssem passos temporais; mas o próprio autor nos alerta que o que ele descreve na verdade é desprovido dessa sequencialidade, esta última jazendo na verdade na própria natureza do discurso, e não na natureza do objeto. Desse modo ele mantém uma estrutura narrativa de base quase-mítica pela qual ele fala na verdade de uma estrutura propriamente metafísica.

As distintas hipóstases que se desenvolvem e articulam neste modelo devem ser entendidas, cada uma delas, como sendo um Uno. De fato, há subjacente ao modelo plotiniano uma distinção pitagórica entre (1) o Uno que é sem um segundo (sem um par, livre de alteridade); (2) o Uno que faz par com um segundo (a Díade); (3) e o Uno que é o primeiro da série dos números (da pluralidade de entes). Esses três são ditos como possuindo níveis distintos de unidade: uno, uno-múltiplo, uno-e-múltiplo. Enquanto hipóstases, são chamados de Uno, Intelecto e Alma.

É possível compreender as hipóstases a partir da noção (mais detalhadamente desenvolvida no neoplatonismo posterior a Plotino) da auto-reflexão, como constituindo distintas fases metafísicas do pensamento de si. O Uno propriamente dito, o Princípio, também dito o Bem, é a fase pré-reflexiva: ele não conhece/pensa a si mesmo, porque tampouco ignora a si mesmo, não contendo em si nenhuma alteridade. Essa auto-coincidência pré-reflexiva e transcendência a toda alteridade é sua suprema simplicidade, que não comporta complexidade alguma. Não ter complexidade alguma significa não ter uma parte que ignora outra ou que torne necessário pensar-se a si mesmo: o Uno não é como um olho que precisa do espelho para ver-se a si mesmo. Ele é livre de todo “isso”. Ele não pode dizer sobre si mesmo “eu sou isso”, o que implicaria uma divisão cognoscente – cognoscível, uma complexidade; sendo em verdade supremamente livre – de toda determinação, atributos e predicados –, se fosse dizer-se a si mesmo, diz Plotino no tratado 49 [V.3], seria apenas com uma tautologia não-intencional do tipo “sou sou, eu eu” (eimi eimi, ego ego). Esta transcendência a toda complexidade significa também, para Plotino, transcendência a toda carência: o Uno não tem necessidade de outro (é autárquico, o seu próprio Bem), e não tem necessidade de si-mesmo tampouco (pois já é ele mesmo). O Uno é uma plenitude incompreensível. Algo que não se dirige a um outro permanece imóvel, e a absoluta imobilidade do Uno significa seu silêncio, que precede todo o pensar. Bussanich (em A Metafísica do Uno, p. 85) sugere, portanto, entender o Uno como “absoluta ou infinita consciência sem objeto, uma consciência não relacional desprovida de intencionalidade e composição”.

Enquanto liberdade absoluta, no entanto, o Uno não é apenas livre da condição de ser determinado, mas também é livre para determinar-se, ou fazer emergir a determinação a partir de sua transcendência. Ser autossuficiente, diz o neoplatônico Olimpiodoro (In Alc., 42.19-43.2), não é apenas ser pleno (teleion), “não necessitar de nada de algum outro”, pois a suficiência (hikanon) também implica a capacidade de doar aos outros. Assim, o Uno concebido enquanto absoluta liberdade é absoluta transcendência e também absoluta potência. Para Plotino, há um ato que pertence à realidade de alguma coisa e um ato que dela procede; em outros termos, a atividade (energeia) interna de alguma coisa é a sua permanência em si, a sua realidade; sua atividade externa é o seu aparecer.  Do mesmo modo, em seu ato interno, “o ato primeiro sem substância”, o Uno é comparado a “uma simples concentração de atenção (epibolê) em si mesmo” (tr. 38 [VI.7], 39, 1-2), sua existência (hupostasis), e neste aspecto ele é dito ser o Limitado (peras), o princípio de unidade; em sua atividade externa, por sua vez, ele é dito ser o Ilimitado (apeiron), a Díada Indeterminada, potência geratriz, a matéria inteligível, entendida imageticamente como um transbordar da inefável autossuficiência do Princípio. Limite e Ilimitado são frequentemente ditos, em Plotino e na tradição neoplatônica como um todo, segundo a noção de gênero: masculino e feminino, respectivamente.

Para que o Princípio seja capaz de gerar algo, é preciso que ele contenha esse algo de forma seminal. De fato, segundo Plotino, o Uno possui em si todas as coisas sem que elas sejam distintas. Um neoplatônico posterior, Damáscio, o põe de forma bela ao dizer que o Uno é “tudo antes de todas as coisas, não de uma maneira irrealizada, como se fosse tudo em potência, nem segundo a causa, como se não possuísse ainda o Tudo, mas será o Tudo segundo a existência (kata huparxin), essa que é indiferenciada … [compreendendo tudo] em sua própria simplicidade”.

Temos aqui, portanto, duas fases do Uno: o Uno auto-contido, transcendente; e o Uno enquanto princípio, gerador das demais hipóstases e que as contém em estado causal ou indiferenciado em si. É esta distinção que leva neoplatônicos posteriores a pensarem na distinção entre o Uno transcendente, imparticipável, e o Uno-princípio, participável. O Uno transcendente seria aqui absolutamente simples, o Uno-princípio seria pensado em termos do par Limite – Ilimitado. Em Plotino, no entanto, esses dois não são distinguidos muito marcadamente, sendo o Uno em sua completude lógica, por assim dizer, enquanto autossuficiência e liberdade.

Na medida em que o Uno é pensado como dotado de potência geradora de alteridade, como o Ilimitado ou Díada, uma complexidade é introduzida no seio do próprio Uno: há agora tanto identidade quanto alteridade do Uno para consigo mesmo. Enquanto outro para si, há um princípio de ignorância de si, de não-posse de si, e, portanto, o desejo para possuir-se sob a forma do conhecer-se. Aqui temos, portanto, a segunda hipóstase: o Intelecto, que é o Uno reflexivo; isto é, o Uno pensando a si-mesmo. Enquanto o si-mesmo pensado, ele é o Ser; enquanto ato de pensar-se, a Vida; enquanto pensador, Intelecto. Isto é, ele permanece uno, mas um uno-múltiplo, no qual admite-se a triádica complexidade lógica do ato de pensar-se. Ao mesmo tempo, este Uno-reflexivo constitui uma hipóstase distinta, o Intelecto: é como se o Uno habitasse o centro do Intelecto de modo que ao pensar-se a si mesmo o Intelecto pensa o Uno, ou uma imagem complexa do Uno. Deste modo, neste ato de pensar-se a si-mesmo, aquilo que o Uno contém de forma indistinta é pensado distintamente, e em cada pensamento distinto o Intelecto se faz um intelecto e um objeto particulares, de modo que haja um ‘mundo de ideias’. O Uno é a medida de todas as coisas, e pensando-se como a medida da ontologia, da “estética”, do saber, da ética, ele é pensado como a Ideia do Ser, do Belo, da Verdade, da Justiça. E assim por diante. E essas Ideias são não apenas objetos de intelecção (ser) mas também intelectos se pensando a si mesmos; são várias instâncias do Uno pensando-se a si mesmo de formas particulares, de tal modo que cada intelecto contemple todos os outros desde sua perspectiva particular.  

Essa hipóstase do Intelecto como um todo é o reino da Eternidade: o Intelecto pensa-se de forma total e imediata, “num só golpe”, de forma que aqui não haja a sequencialidade do tempo. Assim como na passagem do Uno ao Intelecto, no entanto, aqui há uma outra distinção entre ato interno e externo: se o ato interno do Intelecto é essa auto-reflexão total e imediata, um pensamento de si autocontido, em seu ato externo o Intelecto se torna Alma. A Alma é nada mais que o Intelecto pensando-se a si mesmo em seu ato externo, mas de modo que já não seja mais total e imediato e sim pensando-se parte a parte, de modo sequencial. Esse é o movimento do tempo, a medida de tudo o que é sujeito à temporalidade. Essa pluralidade de pensados sucessivos agora não são ideias, mas logoi, princípios racionais, conceitos. Se o Intelecto pensa a totalidade do Ser numa forma de infinitude intensiva (“num só golpe”), a Alma pensa a totalidade do Ser numa forma de infinitude extensiva (pensando parte após parte numa sequência perene, sem início e fim temporais). Neste sentido Plotino afirma o dito platônico de que o Tempo (o pensamento de si da Alma) é a imagem da Eternidade (o pensamento de si do Intelecto).

Sendo dotada do movimento do Tempo, a Alma não é apenas pensamento, mas também vitalidade, potência de ação e produção. Deste modo, em sua atividade externa a Alma é a pluralidade das almas que descem à matéria para nela “insuflar” o pensamento ordenador sob a forma da ação. As almas descendidas à matéria (que é um “outro” puro, um não-ser desordenado) passam a habitar um corpo (matéria ordenada) através de uma imagem animal-vegetativa de si mesmas. (Aqui temos uma distinção, portanto, entre a alma que forma parte do composto psicofísico e a alma racional propriamente dita.) Cada alma é como que individualizada e à parte das demais; mas ao mesmo tempo, cada alma contém e carrega em si a hipóstase Alma como um todo, a totalidade de seus logoi, para pensar os quais ela precisa “projetá-los” em ação ao longo de sua existência temporal. Almas particulares como as nossas habitam um corpo particular e promovem a ação ordenadora numa esfera limitada; a alma-do-mundo, nossa “irmã”, habita o corpo do cosmos e promove uma ação ordenadora mais ampla, envolvendo principalmente o céu, onde os astros celestes são almas divinas, que habitam o limite superior do cosmos, e ali exercem a ação ordenadora do tempo terreno (o movimento dos astros). Outra alma que descende até o mundo sub-lunar e exerce a ação ordenadora de forma universal é chamada de Natureza, que é responsável pelo mundo orgânico em geral.

Há ainda a figura do Demiurgo, o divino artesão do mundo. Seguindo Euree Song, Plotino concebe a divina demiurgia como composta de três níveis distintos, em que o Demiurgo é concebido como inteligência contemplativa (nous theoretikós), inteligência prática (nous praktikos) ou sabedoria prática (phronêsis) e inteligência produtora (nous poietikós). Essa tripla atividade demiúrgica é pensada por Plotino analogicamente a partir dos modelos da filosofia, a política e a economia respectivamente.  Enquanto inteligência contemplativa, o Demiurgo é o Intelecto, auto-contido em sua contemplação, a suprema sabedoria da qual a ordenação do mundo advém em última instância. Enquanto inteligência ou sabedoria prática, o Demiurgo é uma razão ou logos imanente à Alma-do-mundo, pela qual governa o mundo como um legislador aplica a lei. Enquanto inteligência produtora, o Demiurgo é um logos imanente à Natureza e que produz o mundo orgânico.

No Neoplatonismo tardio, este mesmo esquema metafísico é preservado sempre que possível, ou então recebe uma elaboração mais complexa na medida em que problemas específicos são tratados em que um detalhamento maior se faz necessário. Na sua forma detalhada, a metafísica de Proclo elabora a plotiniana da seguinte forma: há o Uno imparticipável, transcendente,  e o Uno participável, ‘gerador’ (que seriam as henadas, os números ideais platônicos, pensados teologicamente como deuses que se distribuem ao longo da cadeia do ser transmitindo providência divina). Em seguida há uma tríade de hipóstases da esfera da Eternidade: o Ser, a Vida e o Intelecto. (Cada uma dessas três é triádica: vida e intelecto estão contidos no Ser, mas de modo que este último seja predominante; e assim sucessivamente.) Abaixo, temos a tríade das hipóstases da esfera do Tempo: Alma, Natureza e Corpo. A Alma aqui seria uma imagem invertida do Intelecto, a Natureza da Vida, e o Corpo do Ser. Por fim, há a matéria, que seria a imagem invertida do Uno.

A VIA SOTERIOLÓGICA EM PLOTINO

E assim completamos a via cosmogônica (de cima para baixo), em que passamos gradualmente da simplicidade e unidade à complexidade e multiplicidade, de dentro para fora, do si ao outro. A outra via, a soteriológica (de baixo para cima), é a sua inversão precisa. Por esta razão, é tratada por Plotino como um processo de conhecimento de si: é através da introspecção, da busca do si-mesmo mais profundo, que se passa do externo ao interno, do outro ao si, do complexo ao simples. Neste processo, o aspirante vai conhecendo camadas mais profundas de si que são como equivalentes ‘microcósmicos’ do universo macrocósmico das hipóstases. Motivado pelo impulso erótico que o atrai ao Uno (ou pelo qual o Uno o atrai), ele primeiro rejeita a identificação de si com o composto psicofísico, passando ao nível da alma racional pura; então ele rejeita a identificação de si com o contínuo pensar sequencial da alma racional e se estabelece no reconhecimento de si enquanto intelecto, inteligência que se apreende de modo mais simples e atemporal; e, por fim, abstrai-se completamente de toda alteridade, processo em que se abstrai mesmo da noção de si enquanto sujeito à parte (pois não podemos nos acercar do Uno sendo um outro a ele), e assim repousa na auto-coincidência simples e incondicionada do Uno, que é então (durante esta contemplação) como o seu “outro si”. Uma imagem muito poderosa que ele deu a este processo, em seu tratado 9º, é a de que a alma é um círculo e que o contemplador se dirige reflexivamente ao seu centro; e o centro da alma nada mais é que o Uno, que é o centro de todos os círculos. É como se a totalidade dos seres fossem uma esfera, com vários círculos concêntricos, que têm no Uno o ‘si-mesmo’ ou centro de todos. Essa henosis ou simplificação, estabelecimento de si no Si que é o Uno, é a beatitude suprema, pois o Uno é também o Bem, a coincidência com o qual é a definição da felicidade ou eudaimonia.

Outra via soteriológica plotiniana é aquela em que essa ascensão contemplativa é descrita não em termos introspectivos de auto-conhecimento, mas em termos ‘extrovertidos’ de uma ascensão do olhar que passa gradualmente de uma esfera à outra da realidade, tomado por desejo erótico à beleza do divino tal qual expressa em cada uma dessas esferas. Essa via é de certo modo equivalente à anterior, talvez um outro aspecto da mesma ascensão. Aqui, a alma é treinada a passar da contemplação das coisas sensíveis à contemplação das razões seminais (logoi) da Alma, e então para as ideias e o mundo inteligível; e, por fim, ao Uno. Os textos que encarnam esta passagem para a contemplação do Uno são repletos de antinomias lógicas, em que Plotino com grande maestria vai nos conduzindo a uma gradual negação de todo conceito com o qual tentamos pensar o Uno, até que esse procedimento nos conduza a um estado de perplexidade e indeterminação – e aí então, quando chegamos neste ponto, diz Plotino, “contemple!”. Se trataria de fato de uma contemplação caracterizada pelo supremo silêncio além de toda intelecção, o que corresponde à simplicidade do Uno em sua ausência de toda alteridade (pois não há pensamento sem um outro que seja pensado).

Embora haja divergências acerca da natureza precisa desta ascensão contemplativa plotiniana, em geral a interpretação mais comum é que essa henosis é, por assim dizer, passageira. Eventualmente a alma enquanto sujeito à parte “reemerge”. No entanto, Plotino diz que os seres formam como um círculo que dança ao redor do centro que é o Uno, de tal modo que aqueles que olham para o centro enquanto dançam são divinos e dele permanecem próximos, enquanto que aqueles que olham para fora dele se afastam e decrescem em ser.

No entanto, há ainda mais um passo muito sutil na metafísica de Plotino. Desde o ponto de vista do Uno, não há alteridade, como vimos; no entanto, o alcance dessa compreensão pode ser barrado se mantivermos uma noção puramente ‘provincialista’ das hipóstases. Em outras palavras, se entendermos “espacialmente” que “lá” no Uno não há alteridade, “aqui” no mundo etc há alteridade. Em algumas passagens Plotino aponta para uma reflexão mais sutil: que desde o “ponto de vista” do Uno não há alteridade alguma, nem “aqui” nem “acolá”; mas que a alteridade existe desde nosso lado ou “ponto de vista”. É neste sentido que Plotino pode dizer que todas as hipóstases são o Uno e não são o Uno (tratado 11 [V.2, 2]). Isso significa que é possível pensar que por trás da metafísica escalonada dos níveis de realidade há uma outra, a da não-alteridade, em que o Uno é tudo o que é. Isto não significaria fazer do Uno uma complexidade no sentido de ser uma soma de todos os níveis de realidade, num tipo de “unanimismo” do “tudo é um”. Na verdade, se não há alteridade e o Uno é tudo, quer dizer que a verdade silenciosa e indizível contemplada no ápice da escalada espiritual é toda-abrangente, de modo que desde essa perspectiva todas as coisas se anulem em suas determinações diferenciadoras no Uno que tudo contém de forma indiferenciada. As reflexões sobre a natureza “do que era no princípio” se tornam todo-abarcantes, a metáfora temporal do “antes” cai por terra, e aquela definição de Damáscio que apresentei mais cedo ganha outra relevância: que o Uno é “tudo antes de todas as coisas, não de uma maneira irrealizada, como se fosse tudo em potência, nem segundo a causa, como se não possuísse ainda o Tudo, mas será o Tudo segundo a existência (kata huparxin), essa que é indiferenciada … [compreendendo tudo] em sua própria simplicidade”.

Em suma, a ascensão soteriológica em Plotino segue duas vias paralelas, uma introspectiva e moldada segundo a terminologia do “conhece-te a ti mesmo”, e outra extrovertida, moldada na ascensão erótico-contemplativa do belo no diálogo Banquete, culminando numa dialética apofática inspirada no diálogo Parmênides. Essas duas vias se mantêm interrelacionadas por uma analogia entre microcosmo e macrocosmo. A essas vias da contemplação e do auto-conhecimento (que chamarei de gnose) é agregada uma outra no Neoplatonismo tardio, a via teúrgica/ritual, em que toda a religiosidade pagã do mundo helenístico foi integrada num universo filosófico pitagórico-platônico. É outra via muito rica e interessante, mas que não será tratada nesse ensaio. E henosis parece apontar para que o esquema metafísico escalonado dos níveis de realidade, ao final, dê lugar a uma visão todo-abrangente de uma metafísica da não-alteridade, do Uno que é tudo segundo sua existência simples.

A VIA COSMOGÔNICA VÉDICA SEGUNDO O HINO DAS ORIGENS

Na reconstrução que farei aqui da metafísica védica, eu mobilizarei elementos que aparecem em vários textos distintos, e reunindo-os numa ordenação que nos permita a comparação com Plotino. Porque apesar de que de fato há no Veda uma metafísica muito semelhante, como o veremos, a sua exposição não é tão sistemática e geométrica quanto a neoplatônica, o que exige um certo esforço sintético maior da minha parte (e também um esforço maior de leitura da tua parte!). Além disso, a natureza da exposição é tal que evidentemente me obriga a omitir muita informação importante para quem quisesse entender os passos pelos quais o entendimento que aqui trago se torna plenamente inteligível em seu contexto védico. Essa exposição naturalmente será mais extensa que a de Plotino, pois preciso tratar aqui de textos e conceitos pouco familiares à maior parte dos leitores ocidentais.

É importante observar também que ao contrário da análise da metafísica plotiniana, o material que aqui se segue não é sob a forma textual de um tratado filosófico, e sim conteúdo de uma escritura considerada revelada e em grande parte transmitida oralmente em tempos antigos. Dela trarei algumas porções míticas, outras mais sapienciais; mas de qualquer modo é um gênero textual distinto daquele de Plotino. Apenas quando necessário é que lançarei mão dos comentadores da tradição hermenêutica vedantina (na qual toda a minha leitura está embasada). Para uma apresentação propriamente filosófica, teríamos que nos basear numa literatura consideravelmente mais técnica. Ao final desta seção cosmogônica, farei uma breve incursão acerca do modo como essa metafísica védica é teologicamente expandida pelas vertentes Smārta, Vaiṣṇava e Śaiva. E após a seção cosmogônica, tratarei da via soteriológica, tal como fiz na exposição sobre Plotino.

Comecemos, pois, com o Nāsadīya Sūktam, R̥gveda Saṁhitā (X.129), sobre o qual fui perguntado. Trata-se de um hino que canta sobre o Princípio, “o Hino das Origens”. Em seu extenso estudo Fire and Cognition in the R̥gveda, Joanna Jurewicz aponta para como ele se remete a muitas outras narrativas védicas anteriores, e significa uma espécie de síntese das cosmogonias desse corpus de hinos litúrgicos. Vejamos esse hino litúrgico, provavelmente datado ao redor de 1000 a.C. segundo a opinião acadêmica, em sua completude:

  1. (No princípio) não havia nem o ser (sat) nem o não-ser (asat).
    Não havia então o espaço atmosférico nem o firmamento.
    O que é que se movia poderosamente? Onde? Sob que refúgio?
    Havia então as águas, insondavelmente profundas?
  2. Não havia (então) nem a morte nem a imortalidade;
    Nem havia nenhum sinal distintivo para a noite e o dia.
    O Uno (ekam) respirava sem alento de sua própria volição.
    Além desse (Uno) não havia então nenhum outro.
  3. No princípio era a escuridão que cobria a escuridão.
    Este universo não era senão as águas indistintas.
    Então, daquele vazio recoberto de vacuidade,
    o Uno nasceu pela potência do Ardor (tapas).
  4. Sobre ele convergiu o Desejo,
    a semente primordial da mente.
    Os poetas buscando em seu coração,
    encontraram o liame do ser no não-ser.
  5. E eles estenderam a sua corda transversalmente,
    E sabiam o que estava abaixo e o que estava acima.
    Havia semente geradora, havia poderes.
    Abaixo a volição espontânea, acima o dom de si.
  6. Quem sabe em verdade, quem pode aqui proclamar
    de onde é nascida, de onde vem essa criação secundária?
    Os deuses (são nascidos) posteriormente, na criação secundária de nosso mundo.
    Mas quem sabe de onde essa mesma advém?
  7. Esta criação secundária, de onde ela advém,
    se ela é ou não feita objeto de criação, –
    aquele que inspeciona todo este mundo desde o mais alto céu
    ele apenas sabe, – a menos que ele tampouco o saiba.

[Tradução feita por mim a partir das traduções ao francês de Louis Renou, e as traduções ao inglês de Svāmī Kṛṣṇānanda e Svāmī Vivekānanda.]

Para compreender o hino é importante notar que essa cosmogonia está entrelaçando continuamente dois aspectos distintos, o masculino e o feminino, em termos ígneos e líquidos respectivamente, e que conceitualmente podem ser pensados como os aspectos cognoscente e cognoscível, ou sujeito e objeto. Os dois aspectos se conjugam, imageticamente, como um asceta aquecido pelo ardor ascético emite suor; ou, conceitualmente, como auto-reflexão (pensamento de si).

No primeiro verso, há uma negação do ser e do não-ser no princípio. Remontando a outros mitos cosmogônicos dos hinos do R̥gveda, temos a imagem de Indra confrontando o dragão Vṛtra que, prendendo em si as águas primordiais, era concebido como um caos do não-ser (asat); uma vez que Indra o derrota, e deixa as águas fluírem, o mundo ordenado (sol, céu, aurora) é constituído a partir das águas, e este é concebido como ser (sat). O mesmo se mostra num hino (X.72) em que Brahmanaspati como um ferreiro fundiu ser e não-ser. Nessas narrativas esses dois termos aparecem diante de um ser divino primordial, sendo outro que ele. Ser e não-ser são os estados manifesto e imanifesto das águas, miticamente concebidas como a substância primordial – aquilo que posteriormente será formulado conceitualmente como prakṛti, a natureza. Isso é, portanto, a esfera do objeto, que pode ser imanifesto ou manifesto, desconhecido ou conhecido (ver Kena Upaniṣad [1.4], Sāmaveda); outra é a esfera do sujeito, o cognoscente que se relaciona com essas duas formas da natureza. No princípio, tal qual indicado pelo primeiro verso, não havia ainda objeto (nem ser nem não-ser): o que aponta negativamente para um estado pré-reflexivo, pré-criativo, inexpressível, da infinita liberdade do sujeito puro incondicionado. Este é o Si-mesmo, o ātman. Aqui neste primeiro verso do Hino das Origens isso é indicado de modo estritamente negativo, negando as duas formas (manifesta e imanifesta) de objetividade. Uma forma mais afirmativa deste ponto é explicitamente elaborada a partir deste hino por uma passagem do Śukla Yajurveda, Śatapatha Brāhmaṇa (10.5.3.1-2) que diz:

“1. Em verdade, no princípio, esse (universo) não era, por assim dizer, nem não-ser nem ser; no começo, esse (universo), de fato, era e não era: havia apenas aquela Mente.

2. Portanto, foi dito pelo Ṛṣi [Rg Veda X, 129.1]: ‘Não havia então o não-ser nem o ser; pois a Mente era, por assim dizer, nem ser nem não-ser.”

A “mente” aqui indica o si-mesmo, o sujeito, a consciência não-intencional, o mero estado de ‘estar ciente’, pré-reflexivo, livre do movimento do pensamento (que sempre é intencional). [Nesta fase do pensamento védico ainda não havia as definições distintas para cit, consciência não-intencional, buddhi, intelecto ouconsciência reflexiva, e manas ou mente/pensamento ativo de objetos.]

O segundo verso do Hino das Origens segue através de negações, dizendo que não havia então nem morte nem imortalidade – se referindo, aqui, aos homens e deuses. Não havia tampouco dia e noite – cuja sucessão indica imageticamente, no pensamento védico, o tempo. No entanto, uma afirmação também é feita: que o Uno “respirava sem alento de sua própria volição”. O Uno aqui é o ātman, o Si-mesmo de que havíamos falado negativamente no primeiro verso; a ele unido indissociavelmente está o princípio feminino, concebido como prāṇa ou fôlego que ‘vibra sem vibrar’ no coração, que é a forma seminal ou causal da Palavra (Vāk) na qual todo o universo jaz latente. O paradoxo indica o modo como o Uno aqui contém em si a potência do movimento, embora em realidade seja imutável (não-móvel). Esse fôlego em seu ato paradoxal é equiparado ainda à volição livre, um poder de vontade incondicionado. É dito ainda que além deste Uno não havia nenhum outro: “o Uno sem um segundo” (ekam eva advityam).

O passo que intermedeia o segundo e o terceiro versos é amplamente repetido na porção do Veda chamada Brāhmaṇas, e consiste basicamente no seguinte: que essa Palavra que jaz no Uno, a ele unida como o seu próprio fôlego, agora é emitida como um segundo, e dessa forma a Palavra se torna as águas primordiais, o estado imanifesto do universo (descrito como ‘escuridão cobrindo escuridão’). Diz o Pañcaviṁśa Brāhmaṇa (20.14.2) do Sāmaveda, e o Śatapatha Brāhmaṇa (6.1.1.9) do Śukla Yajurveda:

“Prajāpati apenas era (no início); a Palavra era sua única (possessão): a Palavra era o segundo (existente). Ele pensou: ‘Que eu emita esta Palavra, para que ela permeie o todo’. Ele emitiu a Palavra e ela permeou este todo. Ela elevou-se como um fluxo contínuo de água.”

“Ele criou as águas a partida Palavra que é o mundo; pois a fala pertencia a ela: aquela foi emitida. Ela permeou tudo isso; e porque ela permeou (āp) o que quer que aí estava, por isso ela é chamada de águas (āpas).”

Ambas essas narrativas falam de um estágio cosmogônico pré-criativo, em que o universo ainda não veio a ser. Que as águas “permeiem tudo isso” é um jogo linguístico que visa poeticamente oferecer-nos a imagem da infinitude da substância causal do universo. No terceiro verso do Hino das Origens, para indicar um próximo passo da expansão criativa da Palavra, fazendo-a passar do seu modo latente no Uno para o modo expandido como um segundo, fala-se assim em “escuridão cobrindo escuridão” e que o universo era como um oceano de águas indistintas. Temos aqui não mais o Uno sem um segundo, mas o Uno que faz par com o Segundo.

Deste “vazio recoberto de vacuidade”, “o Uno nasceu pela potência do Ardor (tapas)”. Aqui temos uma narrativa em que o Uno se une sexualmente às águas (indicado pelo ardor gerador) e nasce, sob a forma do filho dessa união, das próprias águas. Esse Uno “nascido das águas” é uma imagem recorrente nos hinos védicos, e indica aquela divindade conhecida como Hiraṇyagarbha (louvado no hino X.121, dentre outros), literalmente: “o embrião dourado”, pensado em termos de um ovo flamejante “grávido” das possibilidades seminais do mundo, e no qual todos os deuses estão reunidos como numa semente. Esta narrativa de união e parto é compreendida sapiencialmente pela tradição como se tratando de um movimento de auto-reflexão: o Uno pensando-se a si mesmo. Conceitualmente, o “ardor” pelo qual esse nascimento se dá é uma volição que foi exercida numa direção de auto-manifestação. Isto porque o ato de pensar-se a si mesmo de fato combina sujeito e objeto, tendo como resultado desta reflexão uma auto-consciência que é como um reflexo de si no espelho. Este mesmo passo é dito da seguinte forma no Śukla Yajur Veda, Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, (1.4.7): “No princípio era apenas o Si-mesmo, na forma de um puruṣa (pessoa/homem). Olhando ao redor ele não viu nada mais além de si. Ele disse primeiro, ‘Eu sou’. Assim, surgiu o nome ‘Eu’ (aham).” Há no pensamento “eu” um aspecto subjetivo, o ‘eu qua pensante’, e um aspecto objetivo, o ‘eu qua pensado’, ainda que ambos estejam reunidos como num só. Esse ‘Uno-reflexivo’ é a a egoidade universal, “filho” do Uno pré-reflexivo (sujeito) e das águas (objeto).

Segundo a compreensão arcaica de que o filho é o próprio pai nascido pela mãe, a egoidade universal é aqui o próprio Uno fazendo-se manifestar no universo sob a forma do primeiro ente – não é, portanto, o Uno sem um segundo (primeiro verso), nem o Uno que faz par com um segundo (a Palavra/as águas), mas o Uno que é o primeiro da série dos números.

No quarto verso do Hino das Origens, temos que esse “embrião dourado” é tomado pelo desejo, que é a semente primordial da mente. Trata-se do desejo de “ser muitos”, de procriar, que inspira este primeiro dos entes a manifestar o mundo e os seres a partir das águas primordiais. Ele é a semente da mente porque é deste desejo que emerge o pensamento, o conhecimento no sentido intencional de conhecer algo. Esta passagem do hino é explicada pelo Śatapatha Brāhmaṇa (6.1.1.8) do Yajurveda:

“Agora esta Pessoa (puruṣa), Senhor das criaturas (Prajāpati), desejou, ‘que eu me torne muitos, que eu me reproduza!” Ele se exerceu, e se aqueceu. (…) emitiu em primeiro lugar o brahman [o Veda], o tríplice corpo do conhecimento [os três Vedas principais]. Este se tornou uma fundação (pratiṣṭha) para ele. Por isso se diz: ‘o brahman é a fundação de todo este (universo).”

Aqui o primeiro dos entes, senhor das criaturas, fez emergir das águas um corpo (fundação) para si sob a forma do Veda, entendido aqui como o corpo mântrico de todo o conhecimento. Trata-se, de fato, de um terceiro passo na expansão da Palavra (Vāk), que já passou de de fôlego no coração do Uno às águas causais, e agora toma a forma da mente divina. Em outros termos, é possível entender que nesta fase da cosmogonia a mente – com seus poderes volitivos, cognitivos e também conativos – emerge de uma latência anterior. Esta passagem do Kṛṣṇa Yajur Veda, Taittirīya Upaniṣad (2.6.1), parece seguir o mesmo modelo narrativo, e aqui explicitamente descreve a emergência dos poderes da vontade (desejo), conhecimento (deliberação) e ação criativa – uma tríade consagrada na tradição posterior como icchā-śakti, jñāna-śakti e kriyā-śakti:

“Ele (o Si-mesmo) desejou, ‘que eu me torne muitos, que eu nasça. Ele deliberou. Havendo deliberado, ele criou tudo o que existe. Aquele (Brahman), havendo criado, entrou naquilo mesmo (que havia criado). E havendo entrado ali, se tornou forma e não-forma, definido e indefinido, o sustentador e o não-sustentador, o sensciente e o insensciente, o verdadeiro e o falso. A Verdade se tornou tudo isso que há.”

No quinto verso do Hino das Origens, há uma imagem de uma corda transversal dividindo duas esferas, que, como explica Luis Renou em sua tradução do hino, se trata da divisão dos poderes masculinos e femininos da criação. O masculino aqui concebido como semente geradora e dom de si, o poder feminino como poderes e volição espontânea. O que aqui está indicado é o próximo passo da cosmogonia, em que a mente divina e a palavra divina se engajam (sexualmente) de vários modos, em cada um deles dando origem às distintas esferas do mundo e os seus respectivos deuses, e a partir daí as “criaturas”. Várias são as narrativas deste tipo no corpus védico, em especial nos Brāhmaṇas e nas Upaniṣads. Ressalto apenas o movimento central dessas passagens: é que a Palavra que havia tomado a forma sutil ou mental do Veda, agora é pronunciada sob a forma de fonemas/sílabas, cânticos, métricas, e é esta palavra falada, em sua multiplicidade, que manifesta o mundo das coisas nomeadas, suas esferas e respectivos deuses. Śatapatha Brāhmaṇa (6.1.1.15) narra de forma bastante poética como a terra, reconhecendo-se perfeita ao final deste processo, se deleita em seus cânticos – através do deus Agni (fogo) que a habita e a impele. Por esta razão, diz o verso, a terra é Gāyatrī – a deusa da Palavra. Aqui o par fogo – terra também é reflexivo, de modo que o fogo impelindo a terra reconhece-se a si mesmo através de seu cântico.

Recapitulando, portanto, temos aqui uma cosmogonia que pode ser entendida como compondo vários níveis de realidade (hipóstases), as quais podem ser entendidas como fases da auto-reflexão do espírito divino através da palavra. Toda a realidade é pensada tendo por modelo concreto os cânticos e recitações do texto sagrado, de tal modo que a palavra sagrada aqui seja um aspecto reflexivo do próprio espírito divino, que está, portanto, refletindo sobre si através dos cânticos e recitações. Neste processo, gradualmente se passa do uno ao múltiplo, do simples ao complexo, do si ao outro. Temos (1) uma fase pré-reflexiva do ‘Uno sem um segundo’, dita de modo apenas negativo, em que a Palavra está imanifesta (nem ser nem não-ser); (2) uma fase em que o Uno sem um segundo é dito de forma afirmativa, e a Palavra como que habitando-o sob a forma de um fôlego ou ‘vibração imóvel’; (3) uma fase em que o Uno emite a Palavra como um segundo, de modo que ela tome a forma da substância causal (uma “matéria inteligível”); (4) uma fase em que o Uno reflete sobre si no espelho da ‘matéria inteligível’ e assim se manifesta como o primeiro ente da série dos números, a egoidade universal; (5) uma fase em que esse Uno-refletido faz da Palavra o seu corpo mental mântrico (o Veda), e as faculdades de volição, cognição e ação; (6) uma fase em que o Uno-refletido faz com que a Palavra seja pronunciada e assim “encarnando”, manifeste o mundo das coisas nomeadas; (7) e por fim, os mundos, seus deuses e habitantes são também o Uno “cantando-se” através da Palavra, ainda que de forma múltipla.

É possível reordenando essas fases em quatro hipóstases, de tal modo que teríamos: (a) fase 1; (b) fases 2 e 3; (c) fases 4 e 5; (d) fases 6 e 7. No próprio Veda há uma formalização desta metafísica num esquema de quatro hipóstases, que é bem representada de forma resumida na Māṇḍūkya Upaniṣad do Atharvaveda. É este modelo quádruplo que desde o século passado foi tomado como o locus comparativo do pensamento védico e o plotiniano, e é ele que buscarei explorar daqui em diante.

A VIA COSMOGÔNICA VÉDICA DE QUATRO HIPÓSTASES

Este modelo tem seu ancestral mais antigo no Puruṣa Sūktam do R̥gveda (X.90). Neste hino, o Uno é louvado como a Pessoa/Homem (Puruṣa). É dito que o Puruṣa tem quatro quadrantes, dos quais o mais baixo nasce e toma a forma de todos os mundos e seus seres; enquanto seus outros três quadrantes permanecem transcendentes a este mundo. Seguindo a interpretação sugerida pela tradição posterior, é possível interpretar que seu quadrante mais elevado é aquele em que ele é caracterizado como “o senhor do domínio da imortalidade” (verso 2); que seu segundo quadrante seja aquele em que ele é caracterizado como possuindo, como que se expandindo no espaço indiviso que antecede a criação do mundo, mil cabeças, mil olhos, mil pés: o que a tradição interpreta como sendo infinito poder de comando/vontade, infinito poder de conhecimento e infinito poder de ação (v. 1). É dito ainda que deste Puruṣa nasce a Energia criatriz (Virāj, tradução de Renou), e desta Energia criatriz nasce o Puruṣa (v. 5). A interpretação tradicional aqui segue uma linha de raciocínio que já vimos no contexto do Hino das Origens: que o filho é o pai nascendo através da esposa. Esta seria a passagem para a fase reflexiva do Uno, a egoidade universal, quando o Puruṣa se torna Prajāpati (senhor das criaturas). Então ocorre uma narrativa cosmogônica: este Puruṣa-Prajāpati se oferece como oblação num sacrifício que tem os deuses por sacerdotes. A ideia é que o corpo de Prajāpati é dividido em muitas partes, e os deuses as distribuem e assim são manifestos os animais, elementos litúrgicos, a sociedade dos homens, os corpos celestes, as direções do espaço (vs. 6-14).

Há um duplo sacrifício e uma dupla originação aqui, no entanto: o sacrifício mental e o sacrifício corpóreo, que indicam dois níveis distintos do ser de Prajāpati. O primeiro é representado por sua cabeça: da sua mente, visão, fala, e alento nascem os deuses Candra, Sūrya, Indra, Agni, Vāyu – regentes dessas mesmas faculdades cognitivas e conativas em todos os seres (v. 13). Esse é o sacrifício mental, realizado num plano sutil ou mental. O segundo é o sacrifício corpóreo (v. 14), em que de seus pés, umbigo, cabeça e ouvidos nascem os mundos ou as diferentes esferas da manifestação – a terra, a atmosfera, o céu e as direções do espaço. A egoidade universal é entendida em sua fase sutil como uma mente onisciente (o mesmo que o embrião dourado, o ovo flamejante grávido das possibilidades do mundo) e em sua fase grosseira como todo-permeante. Esses dois planos do sacrifício de Prajāpati, em sua mente e em seu corpo, corresponderiam respectivamente ao terceiro e quarto quadrantes de Puruṣa.

Os quatro quadrantes do Puruṣa são conhecidos na tradição, nesta mesma ordem (de cima para baixo) como: Ātman (o Si-mesmo, ‘senhor da imortalidade’), Īśvara (o soberano, dotado dos poderes infinitos em estado causal), Hiraṇyagarbha (o embrião dourado ou mente divina) e Virāṭ (o todo-permeante). Seguindo o Puruṣa Sūktam, o quadrante chamado “todo-permeante” seria aquele que se torna todos os mundos e os seres, enquanto os outros três quadrantes são transcendentes a este mundo do devir.

No entanto, há ainda uma outra passagem num hino do R̥gveda (I.164.45) em que a Palavra é igualmente dividida em quatro quadrantes, dos quais apenas o mais baixo é falado pelos homens. Diz o hino: “A linguagem foi medida em quatro divisões, os brâmanes que têm compreensão as conhecem. Três mantidas em estrito segredo não causam movimento; da linguagem, os homens falam apenas a quarta divisão.”

Estas divisões da Palavra aqui correspondem numericamente àquelas de Puruṣa. Do ponto de vista mais concreto, essas divisões da linguagem são entendidas a partir de uma compreensão antiga de que a fala e o alento formam uma só realidade: quando falamos audivelmente, o alento é emitido para fora, como se o alento aqui se ‘sacrificasse’ à fala; quando não falamos, ao contrário, a fala se sacrifica ao alento (uma meditação que ocorre no Śāṅkhāyana Āraṇyaka do Ṛgveda). Disso decorre que há um nível em que a palavra é pronunciada audivelmente; outro em que é apenas pensada (nível mental); outro em que ela é apenas o alento ou o fôlego repousando no coração (a sede do espírito). A palavra enquanto fôlego no coração pode ainda ser dividida em duas: uma enquanto una com o espírito ou sujeito, outra enquanto semente para a manifestação do pensamento e da palavra falada. Assim temos que a palavra possui quatro divisões.

Para compreender em contexto védico como Puruṣa e Palavra se relacionam, é preciso apontar para uma interpretação tradicional de que há uma unidade fundamental entre o Puruṣa Sūktam, o hino que anuncia os quadrantes do ser divino, e o Savitrī Gāyatrī (R̥gveda III.62.10), popularmente chamado de Gāyatrī mantra, considerado o mais sagrado dos hinos védicos. Neste último, segundo a interpretação tradicional, Puruṣa é adorado e concebido como Savitṛ, um sol luminoso que impele nosso intelecto ao entendimento e à sabedoria. O mantra é cantado na métrica chamada Gāyatrī, dividido em 24 sílabas e disposto em quatro linhas. Há uma importante meditação sapiencial védica que contempla a unidade do Ser divino e a Palavra a partir da unidade do hino do Puruṣa e do Gāyatrī mantra. Esta meditação é chamada Gāyatrī Vidyā, e ocorre no Śukla Yajurveda, Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (5.14) e Sāmaveda, Chāndogya Upaniṣad (3.12). Aqui, a deusa Palavra é contemplada sob o nome Gāyatrī, a métrica que é mãe dos Vedas, e, em combinação com imagens e referências advindas do hino do Puruṣa. As quatro linhas do Gāyatrī mantra são tratadas como os quatro quadrantes da Palavra, os quais são adorados como sendo o próprio corpo do Puruṣa. Pensando cosmogonicamente (de cima para baixo), o primeiro quadrante – correspondendo à última linha do mantra – seria o próprio Sol da Verdade, que arde de esplendor e glória “além do céu”; o segundo seria o prāṇa, o alento vital que é a forma causal da Palavra; o terceiro seria o próprio Veda, a ciência divina, a sua forma mental; e o quarto é as esferas do mundo manifesto (terra, atmosfera, céu). Tudo isso é a Palavra, a glória do Puruṣa, o imortal que a tudo transcende e está estabelecido em sua própria efulgência, e que habita o espaço interno do coração em sua gloria plena e indescritível (Chāndogya Upaniṣad, 3.12.6-9).

Temos, portanto, que a Palavra é concebida metafisicamente/teologicamente como pertencendo ao Puruṣa enquanto seu poder de auto-reflexão e auto-expressão, de modo que na verdade aquelas quatro divisões do Puruṣa nada mais são que quatro fases da Palavra, em cada uma das quais ele é dito de uma forma ou outra. O Puruṣa é sempre uno e o mesmo, mas multiplamente concebido nas distintas hipóstases que são os estágios da contração e expansão da Palavra. O Puruṣa é também chamado de Ātman, o Si-mesmo, pura refulgência ou consciência; e a Palavra é chamada de Māyā, a magia mensuradora, que ao dizer o espírito divino de distintas formas o mensura, o dá formas. Assim temos que toda essa metafísica é pautada na auto-reflexão do divino:

“O auto-refulgente Ātman imagina a si mesmo através de si mesmo pelo poder de sua própria Māyā. O próprio Ātman percebe (a si mesmo como) os objetos. Esta é a conclusão definitiva do Vedānta.” (Gauḍapāda, Māṇḍūkya Kārikā II.12)

Assim podemos entrar na formalização das hipóstases feita na Māṇḍūkya Upaniṣaddo Atharvaveda, na explicação da qual concentrarei agora. Neste texto sagrado, os quatro quadrantes do Puruṣa são apresentados analogicamente com os quadrantes da Palavra, que aqui assume a forma do mantra AUM, composto das letras A, U, M e da ressonância silenciosa que se segue à sua pronúncia. Além disso, este texto homologiza as hipóstases divinas com os níveis microcósmicos do ser – aqueles que nos são imediatamente evidentes em primeira pessoa, e que nos constitui enquanto ente. A grande mensagem desta Upaniṣad é que “este si-mesmo (o princípio da nossa subjetividade) é brahman (o princípio de todo o Ser)”. Ainda, a tradição vedantina acopla a essa formulação das hipóstases uma outra formulação que ocorre na Taittirīya Upaniṣad do Kṛṣṇa Yajurveda, a qual utilizarei para explicar uma das hipóstases.

  1. Ātman

Este texto, em verdade, expõe as hipóstases de baixo para cima, na ordem soteriológica. A inverteremos aqui para mantê-la na ordem cosmogônica. A primeira hipóstase é o quadrante transcendental, chamada turīya (o “quarto”, de baixo para cima), e é dita assim:

“O quarto quadrante, consideram, não é consciente do exterior nem do interior nem de ambos, não é tão somente uma massa de entendimento, não é inteligente nem não inteligente, invisível, incomunicável, inapreensível, indefinível, impensável, indescritível, algo cuja essência é a percepção apenas de Si-mesmo, a cessação do mundo manifesto, pacífico, auspicioso e não-dual. Ele é o Si, é ele que se deve discernir.” (Māṇḍūkya Upaniṣad, 7. Adaptada da tradução de Adriano Aprigliano)

Esta passagem indica o Si-mesmo do divino em sua plenitude pré-reflexiva, transcendente a toda alteridade, desprovido de qualquer relação causal, dito de modo estritamente negativo ou apofático através de uma série de negações. Supremamente pacífico, transcendente mesmo ao intelecto (pois não é inteligente, nem não inteligente). Gauḍapāda comenta este verso dizendo que “neste, indicado como o imutável e o Senhor Supremo, há a cessação de todas as misérias. Ele é o Uno sem um segundo entre todas as entidades. É conhecido como turīya (o quarto), refulgente e todo-permeante.” Este é o “senhor da imortalidade” do Hino do Puruṣa, o “princípio” no qual não há nem o ser nem o não-ser (tal como declarado no primeiro verso do Hino das Origens). No mantra AUM, é o silêncio que ressoa após sua pronúncia. É aquele quadrante da Palavra em que ela é o sol da Verdade (satyam), absolutamente indistinta do próprio Puruṣa. Lhe cabe muito bem a definição que Bussanich dá ao Uno plotiniano, e que citei na primeira parte deste ensaio: “absoluta ou infinita consciência sem objeto, uma consciência não relacional desprovida de intencionalidade e composição”. Essa forma de auto-consciência pré-reflexiva e livre de alteridade é desenvolvida em grandes detalhes na tradição vedantina sob o conceito de svaprakāśa (auto-luminosidade), que não pode ser manifesto como objeto em nenhuma cognição. Esse deve ser discernido, realizado como o Si mais profundo em nós. Sobre ele diz outra passagem do Veda:

“O Si é este ‘não e não’ (revelado pelo método da negação): inapreensível, pois não se apreende; inquebrantável, pois não se quebra; livre de vínculos, pois a nada adere; desatado, mas não oscila nem falha. Jamais lhe passam esses dois pensamentos: ‘por isso fiz o bem; por isso fiz o mal’. Ele é que passa por eles. (…) Por isso quem sabe assim se torna apaziguado, plácido, pacífico, paciente e bem composto e vê tão só em si o Si; vê tudo como o Si. (…) Torna-se um brâmane sem mal, sem mácula, sem dúvida. Ele é o mundo de brahman (…). Este é o Si mesmo imenso, não nascido, que não envelhece nem morre, imortal e sem medo, brahman.” (Śukla Yajurveda, Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, 4.4.22-25. Adaptado da tradução de Adriano Aprigliano.)

  • Prājña/Īśvara

A segunda hipóstase é o quadrante causal (bīja) ou imanifesto (avyakta), chamado Prājña (o Inteligente), e é dito assim:

“O terceiro quarto é Prājña (o Inteligente), o do sono profundo em que o dormente não deseja nenhum desejo nem vê nenhum sonho, em quem tudo se tornou uno, que é tão somente uma massa de entendimento, que é pleno de deleite e desfruta do deleite, e que é o caminho conducente ao conhecimento (dos estados manifestos). Ele é o senhor de tudo; ele é o conhecedor de tudo; ele é o governante interno; ele é a fonte de tudo, pois é a origem e dissolução dos seres.” (Māṇḍūkya Upaniṣad, 5-6. Adaptado das traduções de Adriano Aprigliano e Svāmī Nikhīlānanda.)

Esta passagem de fato reúne uma grande variedade de temas que são objeto de meditação em diversas passagens upaniṣadicas. O sono profundo é, aqui, o estado causal: o estado em que a mente (sonho) e a vigília (sentidos) não estão manifestas, e portanto tampouco o estão seus objetos. Que o sono profundo causal não é uma inconsciência é dito pela Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (4.3.23-32) do Śukla Yajurveda: quando não há um outro que seja objeto de visão é como se a visão não enxergasse, embora ela própria seja indestrutível, assim como aquele que vê é indestrutível. Do mesmo modo o olfato, o paladar, a fala, a audição, o pensamento, o tato e o entendimento: são todos indestrutíveis, da natureza mesma do Si-mesmo ou pura inteligência que toma aquelas formas condicionadas em seus distintos atos cognitivos; mas quando não há um outro para que seja objeto dessas faculdades, então é como se elas não fossem manifestas. Nessa pura inteligência causal está como que dissolvida em latência toda a pluralidade fenomênica. É nesse sentido que se diz que ela é onisciente – por identidade com tudo o que se pode conhecer. Por isso se diz que nessa inteligência “tudo se tornou uno”, e que ela é “uma massa de entendimento”. Em outras palavras, este estado é indicador do modo como a multiplicidade subsiste indistintamente no Uno. Essa indistinção é indicada na mesma Upaniṣad acima referida no verso 4.3.22, dizendo que neste estado causal “o pai não é pai, a mãe não é mãe, os mundos não são mundos, os deuses não são deuses, os Vedas não são Vedas” – dentre outras coisas. O ponto é que as coisas deixam de ser distintivas, mutuamente contrastantes, na medida em que não há as condições da manifestação pelas quais as distinções de nome-e-forma se estabelecem.

Esse estado causal corresponde à divisão da Palavra em que ela é o alento, tal como apontado na Gāyatrī Vidyā, ou à letra ‘M’ do mantra AUM. Comenta Śaṅkarācārya numa passagem dessa meditação na Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (4.3.23-32) do Śukla Yajurveda: “aquela Gāyatrī é o prāṇa; assim o universo repousa sobre Gāyatrī. Gāyatrī é aquele alento no qual todos os deuses, todos os Vedas, todos os ritos juntamente com seus resultados são unificados”. A divina Palavra latente no coração da Inteligência divina é esse estado causal, tematizado no Hino das Origens como o “Uno que respirava sem alento de sua própria volição”. Diz uma passagem da Kauṣītaki Upaniṣad (3.3) do R̥gveda que medita sobre a união do Prājña (o Inteligente) e do Prāṇa:

“O que é o Prāṇa (o alento), aquilo é o Prājñātman (o si-mesmo inteligente). O que é o Prājñātman, aquilo é o Prāṇa. […] Quando a pessoa está tão adormecida que não vê nenhum sonho, ele se torna uno com aquele Prāṇa apenas. Então a fala junto a todos os nomes vão até ele; o olho junto a todas as formas vão até ele, o ouvido junto a todos os sons vão até ele, a mente junto a todos os pensamentos vão até ele. Quando desperta, assim como fagulhas se espalham para todos os lados de um fogo ardente, assim também deste seu Si-mesmo os prāṇas procedem a suas respectivas estações, dos poderes vitais os deuses [sentidos] e dos deuses os mundos.”

Esta passagem indica a natureza do estado causal a partir de uma meditação sobre a força vital como sendo o aspecto dinâmico da consciência do Si-mesmo: quando a fala, a visão, a audição, a mente estão em atividade, é essa força vital que atua através dessas faculdades; quando essas faculdades repousam, elas se dissolvem na força vital ou alento. Quando, assim, o alento não está mais ativo, ele se torna uno com a Inteligência – daí a descrição do Hino das Origens, do “Uno que respira sem alento”, uma vibração imóvel que nele jaz como a potência de todo movimento. Além disso, nota-se nesta passagem o caráter causal deste estado de latência ou sono profundo: que nele todo o mundo fenomênico se dissolve e dele emerge. A analogia entre ‘microcosmo’ e ‘macrocosmo’ aqui permite que a narrativa seja entendida de modo fenomenológico no primeiro contexto e cosmológico no segundo. Os deuses que aqui são intermediários entre o estado causal e o estado manifesto são deuses macrocosmicamente, e são os sentidos microcosmicamente. Por isso diz o verso da Māṇḍūkya Upaniṣad que estamos analisando, que o Inteligente “é a fonte de tudo, pois é a origem e dissolução dos seres”.

Esta união do Inteligente e a Palavra (sob a forma de alento) é tematizada no contexto védico pela imagem de uma união sexual, em que o casal divino se abraça em deleite a tal ponto que a cognição do que está fora (na esfera dos sentidos) e do que está dentro (a esfera da mente) se perde, tudo estando contido indistintamente naquele abraço. Diz Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (4.3.23-32) e o Śatapatha Brāhmaṇa (10.5.2.9-12), ambos no Śukla Yajurveda:

“É como o homem que, abraçado à mulher amada, não sabe de mais nada, nem de fora nem de dentro: assim é que essa pessoa, abraçada pelo si de entendimento, não sabe de mais nada, nem de fora nem de dentro. Essa é sua forma que esgotou os desejos, que é de si mesma o desejo e sem desejos, distante da tristeza.”

“Aquela pessoa no olho direito é o mesmo que Indra, e aquela outra pessoa (no olho esquerdo) é o mesmo que Indrāṇī (consorte feminina de Indra) (…). Essas duas (divindades) descendem à cavidade do coração, e entram em união uma com a outra; e quando alcançam o fim da sua união, então o homem dorme, – assim como aqui, ao atingir o fim da união humana, ele se torna como que insensível, assim também ele se torna como que insensível, pois esta é uma união divina, e esse é o mais alto deleite. Que ele, conhecendo isso, durma, pois encontrará o céu: ele então, de fato, faz essas duas deidades desfrutar seu estimado desejo, a união. (…) Por essa razão a boca daquele que está adormecido é, por assim dizer, úmida, pois aquelas duas deidades estão então derramando a semente, e daquela semente tudo aqui se origina, o que quer que exista.”

Certamente é bastante cômico como este trecho dá sentido simbólico à baba da pessoa adormecida! À parte disso, no entanto, é notável as seguintes características aqui atribuídas ao sono profundo causal: que o Si Inteligente se une à Palavra-alento no coração, e nesta união há a abstração de toda consciência externa (sensível) e interna (mental). Nesta união há supremo deleite, o estado em que estão resolvidos todos os desejos (portanto, ausência de desejos). É dito que todos os seres vivem de uma só parcela deste deleite (Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, 4.3.32); desta plenitude (e não de alguma carência) é que flui a semente, a potência criativa, que dá origem aos mundos manifestos. [Aqui se encontram reunidas duas fases do Hino das Origens que havíamos visto: aquela  em que o Uno sem um segundo é dito de forma afirmativa, e a Palavra como que habitando-o sob a forma de um fôlego ou ‘vibração imóvel’; e aquela em que o Uno emite a Palavra como um segundo, de modo que ela tome a forma da substância causal (uma “matéria inteligível”).]

Na mesma linha das citações acima, a passagem da Māṇḍūkya Upaniṣad que estamos analisando diz que Prājña “é pleno de deleite e desfruta do deleite” e “é o caminho conducente ao conhecimento (dos estados manifestos)”. Isto é, é a partir desse estado causal que emerge a cognição da mente e dos sentidos, pelas quais se manifestam os mundos sutil e grosseiro. Acerca desse verso upaniṣadico diz o comentador Gauḍapāda (Māṇḍūkya Kārikā 2.6) que é a partir do aspecto Prājña que os seres senscientes são manifestos, e a partir do aspecto Prāṇa toda a realidade insensciente (que forma as condições existenciais dos seres senscientes a nível sutil e grosseiro) é manifesta.

É interessante observar como esta concepção é abrangente no hinduísmo, e inspira boa parte da teologia Śaiva, por exemplo, em que é na união do par divino que tudo tem sua origem e fim; ou quando um texto śaiva como o Spanda-Kārikās diz em seu primeiro verso (numa imagem reminiscente desse entendimento do sono profundo como fonte e loco de dissolução): “Louvamos aquele Śaṅkara (Śiva) de cujo mero abrir e fechar dos olhos há a aparição e dissolução do mundo”.

Por fim, outro aspecto desta hipóstase divina é dita na Upaniṣad como “Ele é o senhor (īśvara) de tudo” e “ele é o governante interno (antaryamin)”. Nessas duas declarações o Inteligente está sendo dito segundo a relação que possui com os seres e os mundos que se manifestam nas hipóstases inferiores. Estes dois termos são aqueles que definem por excelência a concepção vedantina de Deus: īśvara e antaryamin. Que ele seja o soberano de tudo não significa, segundo a interpretação da Advaita Vedānta, que ele seja de fato um agente ativo no mundo; antes, ele é pura inteligência que a tudo move sem mover-se, tal como um ímã move o metal. Que ele seja o governante interno significa que habita o coração de todos os seres como o seu si-mesmo mais profundo, e dali irradia sua luz e poder, de modo que toda volição, cognição e ação de que são capazes os seres senscientes derivam da Sua presença imanente. Esses são aspectos que formam o objeto de muitas meditações upaniṣadicas. Cito uma passagem que o louva neste aspecto:

“Este Si mesmo, não nascido, é na verdade esse que entre os alentos é feito de entendimento. É o que jaz no espaço dentro do coração, de tudo amo, de tudo dono, de tudo regente; ele não é mais pela ação correta nem menos pela incorreta. Ele é o senhor de tudo, é o regente dos seres, é o guardião dos seres! Ele é a barragem que divide os mundos a fim de que não se misturem. É ele quem os brâhmanes buscam conhecer pela recitação do Veda, pelo sacrifício, pela doação, pela ascese e pelo jejum. É conhecendo a ele que um se torna sábio. É anelando tê-lo por mundo que os ascetas levam vida ascética.” (Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, 4.4.22. Tradução de Adriano Aprigliano.)

  • Taijasa/Hiraṇyagarbha

A terceira hipóstase é o quadrante sutil (sūkṣma), chamado Taijasa (o Radiante ou Luminoso) ou Hiraṇyagarbha (o embrião dourado), e é dita assim:

“O segundo quarto é Taijasa (o Luminoso), o do estado do sonho, consciente do interior, tem sete membros, dezenove faces e desfruta do sutil.” (Māṇḍūkya Upaniṣad, 4. Adaptado da tradução de Adriano Aprigliano.)

O estado do sonho faz referência à esfera interna da mente, em que a mente brilha na luz do espírito (e não pela dependência do corpo). Os seus membros aqui se referem a uma passagem da Chāndogya Upaniṣad (5.19.2) em que o ser universal é descrito tendo toda a existência como compondo seu corpo – que aqui neste caso é um corpo sutil, composto de tanmatras ou sensações apenas. Suas dezenove faces são os cinco sentidos cognitivos (audição, tato, visão, paladar e olfato), os cinco sentidos conativos (fala, apreensão, locomoção, geração e excreção), as cinco correntes vitais, a mente, o intelecto, a egoidade e a memória.

É dito que ele “desfruta do sutil” porque nesta hipóstase emerge a distinção sujeito e objeto – ainda que aqui o objeto permanece dependente da mente, como num sonho. Essa é a esfera do “idealismo”, de dṛṣṭisṛṣṭi – isto é, as coisas são ‘vistas’ (pensadas) e então criadas, ou existem apenas enquanto são vistas/pensadas.

Taijasa, o Radiante, é uma hipóstase que reúne as fases 4 e 5 do Hino das Origens: aquela  em que o Uno reflete sobre si no espelho da ‘matéria inteligível’ e assim se manifesta como o primeiro ente da série dos números, a egoidade universal; e aquela em que esse Uno-refletido faz da Palavra o seu corpo mental mântrico (o Veda), e faz emergir as faculdades de volição, cognição e ação. Isso é trazido à luz a partir da exegese tradicional que trata esta hipóstase como subdividida em três camadas, que são descritas na Taittirīya Upaniṣad (2.2-5). Seguindo a ordem cosmogônica (de cima para baixo), a primeira é o si feito de intelecção (vijñānamaya), em que o espírito divino reflete sobre si e se reconhece como “eu”. Esta sua fase é tradicionalmente chamada de Mahat, “o grande”. A segunda camada é o si feito de pensamento (manomaya), em que o Radiante assume para si um corpo feito dos Vedas, da liturgia mântrica primordial (um ‘mundo de ideias’), que é a forma que toma a Palavra nesta hipóstase, o mesmo que a letra ‘U’ do mantra AUM. Nesta sua fase ele é chamado de embrião dourado ou Hiraṇyagarbha, “aquele que tem por essência interna o benéfico, cativante e muito refulgente conhecimento” (Śaṅkarācārya, Śvetaśvatāropaniṣad Bhāṣya, 3.4). A terceira camada é o si feito de força vital (prāṇamaya), que é o poder motor por trás de toda a ação, razão pela que o Radiante é conhecido nesta fase como Viśvakarman, “o todo-fazedor”. Temos aqui, em ordem inversa: seu poder de ação (kriya-śakti), conhecimento (jñāna-śakti) e sua agência em relação aos outros dois – o poder de volição (icchā-śakti).

Este Radiante é considerado a Alma de todas as almas, aquele que permeia a todas sob as formas dessas três atividades cognitivas. Miticamente ele é tratado como o Demiurgo, Brahmā, o primeiro dos entes, que ordena o mundo segundo a ordem da verdade (ṛtam). A partir dele se desdobram os vários deuses que regem as várias esferas do cosmos. Em sua refulgência mental ele é concebido também como Sūrya, o deus solar – do qual o Sol físico é uma manifestação visível. Aquele aspecto do divino tratado na hipóstase anterior, o Inteligente, habita o coração do Demiurgo como seu antaryamin ou governante interno, assim como o faz com todas as almas.

  • Virāṭ/Vaiśvānara

A quarta hipóstase é o quadrante grosseiro (sthūla), chamado Virāṭ (o todo-permeante) ou Vaiśvānara (o homem cósmico), e é dita assim:

“O primeiro quarto é Vaiśvānara (o que é de todos), o do estado de vigília, que é consciente do exterior, tem sete membros, dezenove faces e desfruta do grosseiro.” (Māṇḍūkya Upaniṣad, 3. Adaptado da tradução de Adriano Aprigliano.)

Os membros e as faces aqui citados são as mesmas da hipóstase anterior, exceto que agora elas são grosseiras ao invés de sutis. O estado da vigília se refere à consciência sensorial, que tem o mundo externo por objeto. Na hipóstase anterior já havia a divisão entre sujeito e objeto, mas de tal modo que o objeto dependia da mente; aqui esta dependência não se mostra. Temos, portanto, o “realismo”, sṛṣṭidṛṣṭi, em que primeiro as coisas são e depois elas são vistas/pensadas. Nesta hipóstase a Palavra toma a forma audível/articulada, a letra ‘A’ do mantra AUM, que se expressa como o mundo das coisas nomeadas. E o espírito divino aqui é o todo-permeante, a pessoa universal que tem o mundo todo e seus seres como seu corpo. (Veja a forma universal, viśvarūpa, que aparece no 11º capítulo da Bhagavad Gītā.)

Deste modo a Māṇḍūkya Upaniṣad formaliza os quatro quadrantes do Puruṣa-Palavra, entendidos como as letras A, U, M e o silêncio que ressoa. No entanto, ainda que o Puruṣa apareça assim dividido pela Palavra, em realidade ele é uno e indivisível. Por esta razão é dito que é desde o ponto de vista de māyā (da mensuração linguística) que esses quadrantes se mostram. Por isso algumas Upaniṣads falam também do turīyatīta, o “além do quarto”, que é na verdade a superação da divisão, a visão do AUM indivisível em partes. Aquele silêncio transcendente do Uno sem um segundo (ekam eva advityam) é “o tudo antes do todo.”

Aqui concluo então a exposição da via cosmogônica da metafísica védica. Vale apontar que esta metafísica toda é adotada e bastante desenvolvida pelas tradições posteriores – Vaiṣṇavas, Śaivas, Śāktas. A princípio eu pretendia apontar alguns desses desenvolvimentos, mas a já enorme extensão deste ensaio me faz adiá-lo a outra ocasião.

A VIA SOTERIOLÓGICA VÉDICA

Assim como o fiz na seção que tratei da via soteriológica plotiniana, também manterei essa breve. Havíamos visto que em Plotino há duas vias soteriológicas. Na primeira, introspectiva segundo o modelo do “conhece-te a ti mesmo”, a atenção se retira do exterior ao interior em busca de uma desindentificação com as camadas externas de si mesmo, até reencontrar-se em camadas internas e superiores, até que se alcance coincidência com o centro da alma que é o Uno. Na segunda, extrovertida e moldada num modelo de ascensão erótico-contemplativa que culmina numa dialética apofática, a visão da alma vai sendo guiada gradualmente desde a contemplação das hipóstases inferiores até às superiores. Ainda, vimos que essas duas vias se inter-relacionavam graças a uma analogia ‘micro’ – ‘macrocosmo’.

Pois a via sapiencial védica ou upaniṣadica também é composta desses mesmos dois movimentos: um deles que se dedica a contemplar o divino Puruṣa tal como revelado nos textos sagrados, em suas várias fases e hipóstases, ascendendo desde o mais grosseiro ao mais sutil; e outra que se dedica a reflexivamente remover-se da superfície de si até reconhecer-se em sua profundeza como o Si-mesmo que é o Uno.

Na via das contemplações, busca-se brahman, o princípio e fundamento do ser e de toda a objetividade. Para tal a tradição utiliza uma metodologia chamada adhyāropāpavāda, um método de “superimposição seguido de retração”. Basicamente, em linguagem teológica ocidental, trata-se de uma combinação dos métodos catafático e apofático em que o primeiro se submete ao segundo. Através das sentenças e declarações upaniṣadicas contempla-se o Divino através de pontos de identificação, de características e atributos que o dão forma e distinção; em seguida, esses mesmos pontos de identificação são negados, de tal modo que o contemplante é conduzido ao mais sutil. Assim se chega a uma contemplação do Uno em sua suprema forma – mas de tal modo que ele permanece mediato, distante.

Na outra via, a reflexiva, busca-se ātman, o princípio e fundamento de toda subjetividade. O aspirante progressivamente se abstrai do mundo externo e das camadas externas de si e até mesmo da noção de si mesmo como sujeito à parte, até o ponto em que, removidas todas as camadas de falsas identificações, ele repousa no supremo Si divino. Aqui também se chega a uma elevada realização, em que o Si divino se revela de forma imediata, em ‘primeira pessoa’. No entanto, resta aqui um tipo de dualidade, entre esse ‘si’ e todas as camadas de ‘outro’ que foram abstraídas.

A completude do caminho sapiencial upaniṣadico é indicado nas chamadas ‘grandes sentenças’ (mahāvākyas), que põem em conjunção dois termos que sumarizam as sentenças ‘menores’ que informam as duas vias. Uma dessas sentenças, por exemplo, é o tat tvam asi (“tu és aquilo”), dita por um preceptor a seu discípulo. É preciso purificar o sentido de ‘tu’ pela via introspectiva, e é preciso purificar o sentido de ‘aquilo’ pela via contemplativa, até que, já purificados e assim postos em conjunção, a imediaticidade de uma nega a mediaticidade da outra, e a não-dualidade de uma negue a dualidade da outra. Os termos em conjunção operam como uma dupla negação em que a não-ātmicidade de brahman e a não-brahmicidade de ātman são negadas. Disso decorre a realização última, tal como concebida na escola hermenêutica da Advaita Vedānta.

OBSERVAÇÕES COMPARATIVAS

Creio que fica evidente ao longo das exposições feitas neste ensaio as muitas similaridades entre as metafísicas de Plotino e dos Vedas. Ambas são metafísicas da liberdade, em que o Princípio está além mesmo do Ser; ambas derivam o múltiplo do Uno; ambas derivam o mundo da auto-refulgência do espírito; ambas combinam em suas soteriologias ascensão contemplativa e auto-conhecimento. As quatro hipóstases védicas parecem fornecer quase que correspondentes idênticos às de Plotino. Ambas metafísicas concebem a distinção entre um Uno sem um segundo, um Uno que faz um par com uma Potência (Díada/Palavra), e um Uno que é o primeiro dos números ou entes. Não é necessário elaborar todas as similaridades estruturais porque creio que já foram expostas ao longo do ensaio.

No entanto, metafísicas são como sistemas de referências, e aqui por mais que esses dois sistemas de referência possam parecer em muitos momentos coincidir no seu desenho e no modo como situam os ‘fatos’ metafísicos relevantes às suas soteriologias, há também pontos de desajustes e desencontros. O principal deles, ao meu ver, é acerca da hipóstase neoplatônica do Intelecto: o modo como Plotino o concebe não se adequa exatamente a nenhuma hipóstase védica. No século passado o Prof. Radhakrishnan, por exemplo, buscou equacionar a hipóstase Prājña/Īśvara com o Intelecto plotiniano. No entanto, tal como concebido na tradição védica o Prājña é mais semelhante ao modo como Plotino concebe o Uno enquanto dotado de todas as coisas sob uma forma indistinta, potencial. A distinção entre as duas primeiras hipóstases védicas parece corresponder melhor à distinção que alguns neoplatônicos tardios fizeram entre o primeiro e o segundo Uno. Isso porque o Intelecto neoplatônico está em ato auto-reflexivo, ele pensa a si mesmo; já o Prājña védico não. Outra possibilidade seria buscar a correspondência do Intelecto com a fase intelectiva da hipóstase Taijasa/Hiraṇyagarbha; no entanto, esta hipóstase é muito mais semelhante ao Demiurgo e/ou à Alma plotiniana em geral. E sua fase intelectiva não é exatamente um ato intelectivo que produza um mundo de ideias, mas a simples cognição reflexiva de si mesmo como ‘eu’. Em outros termos, eu creio que na tradição védica não há uma correspondência exata para a distinção plotiniana entre as Ideias platônicas do Intelecto e os logoi da Alma.

Outra distinção importante é que essa metafísica tem em Plotino e nos neoplatônicos um caráter mais lógico, enquanto na tradição védica tem um caráter mais epistêmico. É notável por exemplo como as distintas hipóstases são pensadas nas upaniṣads em termos de estados de consciência (vigília, sonho, sono), que as tornam mais imediatamente evidentes a nível fenomenológico.

Por fim, é evidente também que a tradição védica desenvolve suas reflexões de forma muito mais intimamente próxima da linguística do que o faz a tradição grega.

PLOTINO E O PENSAMENTO HINDU (Parte 1): Uma perspectiva histórica

Nesta postagem buscarei responder duas perguntas feitas acerca da relação entre Plotino e o pensamento hindu. Um amigo me perguntou de forma mais geral, e fez um comentário de ordem histórica: “o que você acha da relação entre o Plotino e o pensamento hindu? alguns autores defendem que o professor dele, Amônio Sacas, era de origem indiana.” Outro acrescentou à pergunta anterior um detalhamento maior na questão: “como esse vínculo (entre Plotino e o pensamento hindu) pode se remontar a como o ‘Ekam’ do Ṛgveda (X, 129) se transforma em Brahman?”.

A primeira pergunta é bastante geral, se dirige à relação entre Plotino e o pensamento hindu de uma forma não especificada, de modo que a ela cabe resposta tanto do ponto de vista da relação histórica entre os dois pensamentos ou também do ponto de vista do conteúdo propriamente dito desses pensamentos. Mas como em seguida ele especifica um problema de ordem histórica (a suposta origem indiana do mestre de Plotino), eu iniciarei minha resposta dando uma abordagem histórica, e abrangendo de forma mais geral as relações históricas entre os gregos e os indianos. Já a segunda pergunta, que especifica um ponto de contato possível entre Plotino e Hinduísmo, me abre uma boa via para comparar a ambos quanto ao conteúdo do pensamento propriamente dito. Para este fim, dividirei essa resposta em duas partes ou postagens.

Busquemos nos inserir no contexto mais amplo dos estudos comparativos entre o mundo helênico e indiano. Há muita literatura desta natureza, que busca estudar similaridades entre facetas e movimentos distintos dentro de cada um de seus respectivos mundos. Em primeiro lugar, Grécia e Índia são talvez as únicas duas civilizações em que a filosofia se desenvolveu de forma nativa, incluindo o desenvolvimento nativo de uma ciência da lógica (a China talvez entre aí como uma terceira, mas em menor nível que as outras duas, até por não ter chegado a desenvolver uma lógica propriamente dita). As duas também estão entre as civilizações que mais produziram avanços na matemática em todo o mundo pré-moderno – ainda que em direções distintas, uma vez que na Grécia a matemática foi mais fortemente geométrica e na Índia mais algébrica. Ambas civilizações têm heranças indo-europeias, e ambas forneceram paradigmas civilizacionais em várias esferas da cultura aos seus respectivos hemisférios – muito das conquistas indianas tendo se difundido por toda a Ásia graças a seus impérios (que se extenderam do Afeganistão à Tailândia), e graças principalmente à capilaridade do Budismo.

Há muitas proximidades entre o pensamento pré-socrático e o hinduísmo védico. No contexto sacerdotal védico, os sacerdotes se engajavam em “simpósios” chamados brahmodyam, em que disputas e debates sobre a natureza das coisas inspiravam as práticas ritualistas, e que eventualmente deram origem a uma vasta prática civilizacional de debate de teses. Vemos nos Vedas desenvolvimentos paralelos às doutrinas de Tales de Mileto sobre a água enquanto princípio (reconhecidas pelo grego Megasthenes em suas viagens à Índia, da qual falaremos mais adiante), às doutrinas de Anaximandro sobre o infinito, as reflexões heracliteanas sobre o Logos ígneo, a concepção da mente divina em Xenófones, as reflexões pitagóricas sobre o uno e o múltiplo, as meditações parmenídicas sobre o Ser e o Não-Ser. As crenças órfico-pitagóricas sobre transmigração da alma e o modo de vida vegetariano também têm seus paralelos nos ascetas indianos. Outra vez, as características fundamentais do socratismo têm seu paralelo indiano no desenvolvimento da ciência do Ānvīkṣikī, a partir do século VI a.C. – que se tratava da ciência de argumentar segundo razões (hetu) e por um método de definições (lakṣaṇa), a fim de alcançar (principalmente) um conhecimento sobre a alma que conduzisse à realização do bem da vida.  De modo semelhante a Platão e Aristóteles, na Índia emergem também Nyāya e Vaiśeṣika, escolas de pensamento (darśana-s) que através da aplicação do ānvīkṣikī chegam à formulação de uma epistemologia e ontologia que tratam de problemas semelhantes àqueles tratados pelos peripatéticos (principalmente). As disciplinas do Sāṁkhya e do Yoga têm seus paralelos nas filosofias práticas helenísticas, voltadas principalmente a um tipo de cuidado de si a fim de alcançar um estado virtuoso de sabedoria e superação do sofrimento. Em especial, os cínicos e os pirrônicos foram de fato historicamente inspirados pelos ascetas indianos (Pyrrho esteve na Índia com Alexandre o Grande), os primeiros em geral se inspirando na antinomia de certos ascetas śramanicos, enquanto os segundos parecem ter partilhado preceitos com os ascetas ājīvikas e também possivelmente com uma forma pré-Mahāyāna de Budismo. O teísmo cristão nascente também possui muitos paralelos com o teísmo dos Bhagavatas (uma forma ancestral de Vaiṣṇavismo), e a ascese dos padres do deserto possivelmente teve (segundo alguns autores) influências da representação helênica dos ascetas indianos (os “gymnosophistas”). O Neoplatonismo plotiniano, por sua vez, é frequentemente comparado à Vedānta, enquanto o Neoplatonismo teúrgico tardio é comparado ao Tantrismo. Assim como no Cristianismo, a tradição hindu também possui uma tradição hermenêutica de exegese escritural, que conta inclusive com uma distinção como aquela da escolástica cristã entre teologia racional e teologia revelada, dentre outras coisas.

Aqui estão traçados resumidamente vários paralelos entre as duas tradições, que já inclusive foram objeto de investigações acadêmicas por muitos (compartilharei algumas ao final desse ensaio). Então todas essas similaridades (nunca identidades) de fato existem e já intrigaram e interessaram muitos estudiosos. No entanto, é preciso sempre tomar muito cuidado com comparativismos – é muito difícil que alguém seja especialista igualmente em duas tradições de pensamento distintas a ponto de promover comparações que sejam fidedignas. Frequentemente similaridades são apontadas a partir de uma representação inadequada de uma posição ou a outra; ou duas teses aparentemente semelhantes, mas realmente bem díspares, são equacionadas de modo precipitado. Minha opinião é que o que realmente se alcança através de estudos comparativos deste tipo é uma espécie de espaço de intersecção para tradução de conceitos. Isso ajuda a tarefa dos tradutores, além de ajudar que uma pessoa familiarizada com uma tradição seja introduzida a conceitos da outra a partir daquilo que é próximo entre ambas.

Havendo reconhecido as similaridades e linhas de paralelos entre os dois mundos, e feito uma advertência quanto aos problemas do comparativismo, acrescento que outra pergunta frequentemente feita pelos estudiosos que promovem essas comparações: em que medida essas similaridades se baseiam em influências mútuas, em que medida se baseiam em desenvolvimentos independentes? Para isso existem distintas opiniões. Vou trazer alguns pontos aqui daquela que considero a posição mais razoável.

Apesar dos contatos civilizacionais entre os povos, o real intercâmbio de ideias parece ter sido muitíssimo prejudicado devido à barreira linguística. Segundo o testemunho do doxógrafo Strabo, o cínico Onesicritus (que teria ido até à Índia) narrou acerca da grande dificuldade de comunicação entre os gregos e os ‘gymnosophistas’. Segundo este testemunho histórico, num evento em que houve uma tentativa de conversa entre ambas as partes foram necessários três intérpretes distintos, passando através de vários idiomas, para que um diálogo fosse estabelecido, mas de modo que ideias precisas não fossem de fato comunicadas. Além disso, tanto os helenos quanto os indianos eram povos etnocêntricos, que tinham pouco interesse (se não recusa) em aprender idiomas estrangeiros e, de fato, tratavam todos estrangeiros como ‘bárbaros’ (ou mlecchas). Alguns estudiosos apontam com espanto o quão pouco os gregos sabiam sobre os persas, por exemplo, que lhes eram muito mais próximos geograficamente! É curioso também que parece ser o caso que alguns escritos de padres da igreja fizessem referência a uma região da Etiópia como ‘Índia próxima’, um testemunho da vagueza da compreensão que tinham sobre o ‘oriental’.

Do lado indiano dessas linhas de influência, é notável que os gregos tiveram um impacto muito pequeno na sua literatura. Não há nenhum relato indiano sobre Alexandre o Grande, por exemplo. Os textos em que menções aos gregos ocorrem geralmente os conhecem apenas por soldados e artesãos, não filósofos. Uma influência concreta dos gregos na Índia ocorreu na região noroeste do subcontinente, ao redor o Punjab (entre onde hoje são Paquistão e Afeganistão), onde se formou um reinado de gregos que se converteram ao Budismo. Dali surgiu a arte Gandhāra, que teve grande influência nas esculturas budistas. Essa escola artística desapareceu em poucos séculos, mas deixou seu legado. Houveram alguns gregos convertidos ao vaiṣṇavismo também (ver “pilar de Heliodorus”), mas que legado isso deixou é difícil determinar. Outra linha de influência parece ser o fato de que os gregos de algum modo serviram de veículo para transmissão da astrologia babilônica à Índia.

Do lado grego, há muitos mais relatos, mas em geral parecem vagos e bastante filtrados pelo imaginário orientalista. Antes de passar aos casos concretos gostaria de comentar esse último ponto. Há uma dinâmica curiosa ao longo de toda a história dos povos helênicos acerca do imaginário da origem de suas tradições de sabedoria e/ou filosofia. Em linhas gerais, havia aqueles que sustentavam que os gregos eram jovens e bobos e que derivavam sua sabedoria e conhecimento de outros povos ‘orientais’, mais antigos e sábios. Por outro lado, havia aqueles que sustentavam que os gregos eram superiores aos povos ‘orientais’, e que quando os gregos herdavam algo desses povos, tornavam esse algo melhor. Em geral o que se nota aqui é uma imaginação orientalista que projeta sabedoria ao “Oriente” e razão como produto grego, cada uma das vertentes preferindo uma via ou outra como a superior. Enquanto a primeira linha, mais “romântica”, geralmente exaltava o “oriental” devido à sua sabedoria divina superior, a segunda linha, mais “clássica”, exaltava o grego devia ao caráter racional do seu pensamento (que estaria faltando nos “orientais”).

Num período mais antigo, os “românticos” tinham os egípcios como modelo de superioridade e sabedoria; no período helenístico, essa posição dos egípcios foi gradualmente substituída pelos indianos. Relatos de que Pitágoras e outros filósofos teriam adquirido sua sabedoria em viagens à Índia começaram a surgir na literatura; nas narrativas das viagens de Apolônio de Tiana ao Oriente, há inclusive uma declaração de que era a opinião daquele sábio que os egípcios eles mesmos derivaram sua sabedoria dos indianos, esses últimos sendo em muito superiores aos primeiros. Os gregos estariam em último nessa fila de recepção da “sabedoria do Oriente”!

Na Antiguidade Tardia, essa abordagem “romântica” parece ter ganhado grande difusão. Na medida em que os povos ‘orientais próximos’ eram helenizados, um grande movimento de sincretismos passou a ocorrer. Tradições egípcias, siríacas, persas, caldeias, hebraicas e outras passaram a formularem-se a si mesmas em termos derivados da filosofia grega. (Note que os indianos não fazem parte desse sincretismo, senão em imaginação por parte dos gregos.) Estava presente um entendimento de que todas essas tradições e os gregos formavam uma vasta sabedoria comum, e várias narrativas distintas acerca da origem desta sabedoria se evidenciavam. Essa busca por uma “tradição primordial” foi ressuscitada na Renascença pelos tradutores dos textos herméticos e neoplatônicos, dando origem à noção de “philosophia perennis”. Entre os renascentistas vemos aquela mesma pluralidade de narrativas antigo tardias sobre a fonte da ‘tradição primordial’: Zoroastro, Hermes, Orfeu e Moisés eram os favoritos. Essa mesma ‘philosophia perennis” reaparece no fim do século XIX e começo do XX sob as formas da teosofia de Blavatsky e do perenialismo de Guénon, que tinham em comum a atribuição da origem da ‘tradição primordial’ à Índia e ao Hinduísmo.

Aquela mesma imaginação orientalista dos gregos, em suas vertentes que chamei de “romântica” e “clássica”, até hoje influenciam muito a recepção ocidental do pensamento indiano. Partindo do pressuposto que o Ocidente é marcado exclusivamente por pensamento racional (o que não é verdade) e que a Índia é marcada exclusivamente por sabedoria não-discursiva (o que não é verdade), é que os ocidentais ou exaltam ou rechaçam o pensamento indiano. É a partir dos mesmos pressupostos orientalistas vagos que os primeiros se referem a tudo o que é indiano como “filosofia oriental” ou que os segundos rejeitam que sequer haja “filosofia oriental”. Como o bem colocou o Prof. Dilip Loundo da UFJF no seu artigo “What is Philosophy after all?” (aqui em ordem inversa):

“Para os primeiros, a racionalidade indiana é má filosofia, para os segundos, é boa religião. Como que para acentuar a aura mística da auto-confiança nas disciplinas humanas efetivas ao invés da graça de Deus, esses últimos também recorrem a usos metafóricos e românticos do termo ‘filosofia’ (e.g., ‘filosofias orientais’).”

O professor ainda comenta como essas duas atitudes polares partilham um mesmo conjunto de falsos pressupostos sobre a natureza da racionalidade indiana e acerca da própria filosofia ocidental. Contra essas duas posturas, é preciso reconhecer que há sim aquilo que é legitimamente filosófico na tradição do pensamento indiano, inclusive com altíssimo nível de profundidade e rigor racional e dialético, às vezes se aproximando em espírito até mesmo da filosofia analítica contemporânea (como é o caso da escola do Navya-Nyāya); mas o universo do pensamento indiano não se reduz a isso, e há muitas esferas que são melhores caracterizáveis como teologia, religião, mística, etc – para as quais a atribuição romântica de ‘filosofia oriental’ é descabida.

De qualquer modo, é notável que no debate acadêmico ocidental sobre a possibilidade de influências indianas sobre Plotino as posturas adotadas também seguem essa mesma atitude orientalista. Vemos, por exemplo Émile Bréhier defender a tese de que há incursões e influências diretas das Upaniṣads na obra de Plotino – o que para ele tem uma conotação pejorativa, indicadora da contaminação do irracionalismo oriental; ao passo que um Giovanni Reale defende com unhas e dentes que Plotino não possui nenhuma influência oriental, o que para ele é a mesma coisa que defender que Plotino seja racional. Pessoalmente, eu tendo mais à posição de que não há influência clara do pensamento hindu em Plotino (sobre isso mais ao final do ensaio), mas em todo caso creio que é preciso purgar esse debate dos pressupostos orientalistas.

Retornando à questão da influência histórica da Índia na Grécia, minha intenção é traçar aqui um resumo dos vários personagens históricos no mundo helênico que adquiriram algum conhecimento sobre a Índia, seguida de uma breve avaliação do quê eles de fato parecem ter conhecido.

Começarei, no entanto, tratando diretamente da questão proposta pelo amigo acerca da relação entre o mestre de Plotino, Amônio Sacas, e a Índia. A tese a que o colega fez referência é na verdade uma hipótese proposta por Erich Seeberg há mais de 75 anos. Ela se baseia no argumento de que o seu sobrenome “Sacas” seja uma referência a algum tipo de filiação ao Budismo, devido ao fato do Buda ser um membro do clã Sakya (de onde seu epíteto ‘Sakyamuni’). Este argumento é bastante vago e improvável, ainda mais quando se considera o testemunho de Porfírio, discípulo direto de Plotino, de que Amônio Sacas era na verdade filho de pais cristãos e que teria se convertido ao paganismo em algum momento de sua vida. A tese demandaria sustentar que a família de Amônio veio da Índia à Alexandria, converteu-se do Budismo ao Cristianismo numa geração anterior, para então ele se converter finalmente do Cristianismo ao Paganismo! É uma proposição muito ampla e improvável, baseada em evidências muito escassas. Além disso, não existe nenhuma semelhança considerável entre o pensamento de Plotino e o Budismo daquela época (ou de qualquer época) que nos permitiria sustentar alguma plausibilidade a tais especulações. Os poucos testemunhos legados pela doxografia acerca do pensamento de Amônio tampouco nos permite qualquer conclusão deste tipo.

Outro argumento seria que “Sacas” faz referência a uma região do norte da Índia, de modo que ele seria chamado de “Amônio o saciano”. No entanto, o conhecimento que os povos helenizados do Mediterrâneo tinham acerca da Índia era muito escasso, de modo que não faz sentido que eles se refiram a um imigrante oriental a partir de uma denominação regional assim. É como imaginar um índio brasileiro indo a uma Corte portuguesa no século XVII, e sendo referido como um índio do “planalto central”. O mais provável é que sua origem fosse declarada como sendo ‘as Américas’ – que já eram suficientemente remotas e desconhecidas pela maioria do povo português. Quanto ao epíteto de Amônio, “Sacas” muito provavelmente tem um sentido bastante menos interessante, como ‘o carregador de sacos’, fazendo referência a origens humildes.

A única evidência concreta que uma hipótese como essa tenta tomar por base é o testemunho de Porfírio, segundo o qual Plotino teria se inspirado por seu mestre Amônio a ir até à Pérsia e à Índia em busca da sabedoria. Sabemos que a viagem de Plotino foi mal-sucedida; mas neste ponto já é bom enfatizar que o testemunho de Porfírio fala na Pérsia também, o que a meu ver indica se tratar de uma inspiração vaga a buscar algo “oriental”. Não parece haver neste testemunho nada de um vínculo concreto qualquer com a Índia. O caráter vago dessa única evidência histórica que ligaria Plotino ao Oriente só fortalece a impressão de que o que quer que Amônio informou a Plotino a respeito era igualmente vago. Esta inspiração por uma viagem em busca da sabedoria parece se enquadrar num contexto mais amplo do discurso e das relações distantes que os povos helenizados tinham para com os indianos. Em geral, todo o conhecimento dos povos helenizados sobre a Índia era vago, em sua maior parte concernente apenas ao modo de vida dos ascetas indianos, que eles muito admiravam, mas com quase nenhuma demonstração concreta de qualquer conhecimento mais aprofundado da religião ou do pensamento indiano.

Com Amônio Sacas excluído, vejamos figuras históricas relevantes para a questão da recepção grega da Índia. No período anterior às incursões de Alexandre pela Ásia, as únicas fontes de informações que os gregos tinham eram por parte de gregos que foram empregados pelos persas, em especial Scylax de Karyanda e Ctesias de Knidos. As narrativas deles eram bastante fantasiosas e já questionadas mesmo por seus contemporâneos – mas algo de verossimilidade havia aqui ou acolá. O historiador Heródoto, por exemplo, em V a.C. já sabia que havia entre os indianos hábitos vegetarianos. A historiografia acerca das incursões militares de Alexandre à Índia são a primeira instância de contato direto: esses textos contavam com supostos diálogos entre Alexandre e ascetas indianos, narrativas que exaltavam a renúncia e desapego destes últimos, e sua equanimidade diante da morte. Relevante também é a atitude que esses textos revelam: eles não hesitam em atribuir o epíteto de filósofo àqueles que ali encontraram. Acompanharam a expedição de Alexandre Onesicritus o cínico, Pyrrho o cético e mais um filósofo democriteano – que também tiveram contato direto com os ascetas. Fílon de Alexandria e outros autores helenísticos louvam os ascetas indianos a partir daquelas narrativas.

A segunda grande figura desse intercâmbio foi Megasthenes: ele foi à Índia como embaixador na corte de Chandragupta Maurya, e aí habitou por quase dois anos. De retorno à Grécia escreveu um livro chamado Indika, com relatos do que viu. Embora muito do que sobreviveu desses relatos é considerado de grande valor histórico para os estudiosos contemporâneos, é notável que ele não aprendeu nenhum conceito nativo, e explicou tudo o que viu a partir de termos exclusivamente gregos – inclusive descrevia a religião dos hindus a partir dos nomes dos deuses gregos, atribuindo-os a adoração de Herakles e Dionísio, entre outros. É notável também que seu interesse parecia restrito ao modo de vida dos ascetas indianos, mas acompanhado de pouco conhecimento de suas doutrinas. Mas ele parece já estar bastante consciente da distinção entre dois tipos de ascetas/“filósofos”: os brâhmanes e os śramaṇas. Outro personagem importante é Apolônio de Tiana, cuja legendária viagem à Índia foi narrada por Philostratus. Essas narrativas apresentam muitos elementos de verossimilhança, mas muita ficção também – sendo, como era, uma obra mais literária que histórica. De qualquer modo, tampouco transparece muita coisa aqui sobre o pensamento indiano, o foco sendo outra vez nos seus modos de vida. O tom geral é de exaltação da Índia como terra da sabedoria ideal a que aspirava os neopitagóricos. Outra figura histórica relevante é a de Mani: o gnóstico zoroastra fundador do Maniqueísmo. Ele teria vivido um tempo na Índia, e menciona Buda e alguns preceitos budistas em seus escritos. Por intermédio do Maniqueísmo chegou aos cristãos algo da narrativa da vida do Buda, que eles passaram a atribuir a dois supostos santos mártires cristãos, Barlaam e Josaphat.

Uma das vias mais interessantes de investigação acerca da incursão do pensamento indiano no mundo helenístico, no entanto, parece ser a figura de Bardesanes de Edessa. Ele teria sido um gnóstico cristão que esteve na Índia ou que se comunicou com embaixadores indianos, e os seus relatos que sobreviveram de fato demonstram algum conhecimento de doutrinas brahmânicas. O discípulo de Plotino, Porfírio, cita várias coisas relatadas por Bardesanes, como o fazem também diversos Pais da Igreja. Entre esses últimos, Eusebius narra uma lenda de que um sábio indiano teria conhecido Sócrates e rido de sua atitude de buscar uma sabedoria apenas humana, ressaltando a centralidade da busca da sabedoria divina – uma posição que Eusebius diz ser comum entre os indianos e Platão. Pantaenus, o preceptor de Clemente de Alexandria, também teria ido até à Índia – embora pareça que na verdade ele tenha ido apenas até à “Índia próxima”, próximo à Etiópia. No entanto, o próprio Clemente é o único autor da Antiguidade escrevendo em grego que cita o Buda, e aparentemente sabe distinguir três grupos distintos de ascetas indianos. O mais interessante de todos os Pais da Igreja, neste contexto, é Hippolytus de Roma, cujos escritos parecem ter derivado algum conhecimento concreto do pensamento indiano através de gnósticos cristãos como Bardesanes. Por fim, Agostinho menciona algo da natureza das crenças religiosas indianas em seu A Cidade de Deus, a partir de informações que ele provavelmente recebeu de Porfírio.

Trago aqui alguns relatos de Megasthenes e Bardesanes que informam Porfírio e Agostinho, tal qual aparecem no texto “Indian Wisdom and Porphyry’s Search for a Universal Way” de John H. O’Meara. Segundo o testemunho de Strabo, Megasthenes teria dito:

“… em muitos pontas as opiniões deles [dos indianos] coincide com aquelas dos gregos, pois eles também dizem que o mundo tem um início, é passível de destruição, é esférico em formato, e que a Deidade que o fez, e que o governa, se difunde por todas suas partes. Eles sustentam que vários princípios operam no universo, e que a água foi o primeiro princípio empregado na criação do mundo. Em adição aos quatro elementos há uma quinta agência, da qual os céus e as estrelas são produzidos. (…) A respeito da geração, da natureza da alma, e muitos outros assuntos, eles expressam visões como aquelas mantidas pelos gregos. Eles envolvem suas doutrinas a respeito da imortalidade e o juízo, e assuntos similares, em alegorias, no mesmo modo que Platão. […] Megasthenes também reportou que entre os Brâhmanes havia aqueles que mantém que ‘Deus é luz, mas não luz tal como vemos com os olhos, nem como o sol ou o fogo, mas Deus é entre eles a Palavra – pelo que eles querem dizer … o discurso da razão, pelo qual os mistérios ocultos do conhecimento são discernidos pelo sábio.”

As apresentações feitas aqui por Megasthenes parecem um tanto idiossincráticas, uma leitura a partir do seu background grego que distorce a informação a que teve acesso, mas de fato parece corresponder a um encontro real com doutrinas hindus.

O’Meara comenta como na Cidade de Deus Agostinho lista os indianos ao lado dos Pitagóricos e Platonistas entre aqueles que sustentam as doutrinas filosóficas de que: “há um Deus que é autor das coisas criadas, a luz pela qual as coisas são conhecidas, e o bem pelo qual as coisas são feitas; o princípio de existência para nós, a verdade da doutrina, e a felicidade da vida.” Trata-se de uma formulação bastante platônica, e é difícil determinar a fonte da sua informação que o permitisse incluir os indianos entre aqueles que sustentavam essas posições, no entanto ele realmente está correto aqui em fazê-lo.

Em seu De Abstentia, Porfírio relata o que sabia acerca dos indianos a partir do testemunho de Bardesanes. Ele diz que os “Gymnosophistas”, os sábios ascetas indianos, se dividem em duas categorias – os brâhmanes e os “samanaeans” (śramaṇas?). Ambos seriam pessoas devotadas à sabedoria divina, vegetarianos, engajados em muita oração e adoração ao divino, ambos almejando libertar a alma do corpo e aspirando à imortalidade. Entre os brâhmanes alguns viveriam nas montanhas e outros às margens do rio Ganges, e há uma descrição dos seus hábitos alimentares e de vestimentas, seguida de observações acerca de seu modo de vida – como viviam em solitude e jejum, dedicando-se todo o tempo à oração. É dito ainda que os brâhmanes ascendem à sua posição sacerdotal por direito de nascença e por divina sabedoria. Já os “samanaeans” seriam pessoas advindas de qualquer classe da sociedade, e que renunciavam ao mundo, raspavam seus cabelos, e iam viver foram das cidades. É dito ainda que esses dois grupos de sábios eram tão respeitados que até os reis vinham até eles pedir bênçãos e conselhos em tempos de crise, e que eles de fato não estavam sujeitos à autoridade dos reis e não pagavam impostos. Todo este modo de vida seria inspirado, segundo Porfírio, por doutrinas filosóficas: a existência dos deuses, o dever de adorar o divino, a imortalidade da alma, e a possibilidade de escapar do ciclo de existências. Todas essas posições que Porfírio também partilhava, e um modo de vida que ele também valorizava. De fato, todo este testemunho parece bastante verossímil, e as descrições dos modos de vida dos brâhmanes e śramaṇas aqui são muito precisas.

Uma passagem dos relatos de Bardesanes preservada por Stobaeus, no entanto, é a que mais me impressionou. Ela diz:

“[Havia lá] uma grande caverna natural numa montanha alta, quase no meio do país. Ali havia uma estátua de dez ou doze cúbitos, mantendo-se estreita, com suas mãos cruzadas. E a metade direita de sua face era de um homem, e a metade esquerda de uma mulher. De modo semelhante, a mão direita e o pé direito, – numa palavra, todo o lado direito, – eram masculinos, e o lado esquerdo feminino, e o espectador era maravilhado pela combinação, quando ele via como indissoluvelmente os dois lados dissimilares coalesciam num só corpo. No lado direito do peito havia um sol esculpido e no esquerdo uma lua, e nos braços hostes de anjos (devas), o céu, as montanhas, rios, e mares, plantas e animais, e tudo o que o mundo contém.”

Evidentemente se trata aqui de um interessantíssimo relato sobre a forma Ardhanārīśvara, em que Śiva e Śakti compõem um só corpo.

Então baseado nas fontes que a nós chegaram esses relatos parecem ser o pináculo do conhecimento grego acerca dos indianos. Embora não seja possível eliminar a possibilidade de que algum conhecimento mais preciso existisse. Sabe-se que haviam indianos vivendo em Alexandria; e que muitos embaixadores de partes distintas da Índia vieram a Roma durante o governo do imperador Juliano (“o Grande” para os pagãos, “o Apóstata” para os cristãos).

E quanto a Plotino?

É muitíssimo difícil determinar com certeza que tipo de exposição Plotino teve ou não teve a ideias indianas. Mas há uma razão pela qual estudiosos como Émile Bréhier sustentam que ele foi diretamente influenciado pelo pensamento hindu. Basicamente, embora seja possível derivar de precedentes puramente helênicos a maior parte dos elementos do seu pensamento, o esquema geral de sua metafísica parece ter análogos muito próximos nas Upaniṣads (textos sapienciais do Veda); e, principalmente, há algo no modo como ele trata essas coisas que parece ser sem precedentes na tradição helênica, embora seja elementos plenamente comuns no pensamento hindu. Por exemplo, o modo como Plotino ordena sua metafísica verticalmente de modo que ela sirva como cosmogonia de cima para baixo e soteriologia de baixo para cima – algo que desde então se tornou comum entre helenos e abraâmicos, mas que não tinha precedentes antes. Ou então, o modo como Plotino se engaja em contemplações das suas hipóstases, o que também parece sem precedentes helênicos, embora seja algo muitíssimo comum entre hindus. Um texto como o seu 9º tratado [VI.9], em que a ascensão contemplativa ao Uno é narrada e explicada, tem paralelos quase idênticos na tradição contemplativa hindu. Por essas razões teses de influências upaniṣadicas ou vedantinas no pensamento de Plotino foram defendidas por estudiosos reputados.

No entanto, as semelhanças não são suficientes para provar que necessariamente houve tal influência. É muito possível também que sejam coisas desenvolvidas independentemente, o que na verdade faz a questão da semelhança regredir até os primórdios do pensamento grego: por exemplo, semelhanças que Parmênides e Pitágoras já demonstravam para com o pensamento hindu. Outro problema muito difícil é a questão de alguma fonte concreta que poderia ter chegado até Plotino direta ou indiretamente. É muitíssimo improvável que as Upaniṣads tenham chegado até ele, pois eram textos sagrados restritos a iniciados na tradição brahmanica, e mesmo na Índia é notável que os interlocutores budistas conheciam pouco a seu respeito. É muito improvável também que os textos da escola Vedānta tenham chegado até lá, por se tratarem de textos muito técnicos e de difícil transporte e tradução. [Naquele momento histórico vedantinos como Śaṅkarācārya ainda não haviam nascido, mas já haviam outros grandes ācāryas do Vedānta cujos nomes conhecemos mas cujos textos não chegaram até nós.]

Recentemente, no entanto, um scholar chamado Vishva Adluri – que apesar de indiano é na verdade especialista em filosofia grega – propôs aquele que seria, na sua estimativa, o melhor e mais plausível candidato de texto-fonte plotiniano. Em seu artigo “Plotinus and the Orient: aoristus dyad”, ele propõe que o Nārāyaṇīya seja tal fonte. Trata-se de um texto de 18 capítulos que está contido na seção Mokṣadharmapārvan do Mahābhārata, o grande épico indiano. Ao contrário dos textos vedantinos, não se trata de um texto tão técnico; ao contrário das Upaniṣads, não se trata de um texto esotérico. Ainda, sendo uma produção literária do gênero épico, é um texto mais simples e de mais ampla divulgação.

Alguns elementos doutrinais encontrados nesse texto e que Adluri identifica como sendo próximos ao pensamento plotiniano são os seguintes: o Uno como o princípio último; a soteriologia orientada ao Uno; a dificuldade em ver e descrever esse Uno; os níveis do Ser; o intenso amor erótico e sua relação com o Uno; uma hierarquia ontológica que serve de baixo para cima server como soteriologia e de cima para baixo como cosmologia; o problema da unidade do Uno em face às emanações do Uno; a mediação entre o Uno e o Muitos por uma Díada, entendida como o ‘primeiro tremor’ no Uno; discussões pautadas nas propriedades dos números; a multiplicidade concebida como capacidade de divisão, e secundariamente como progressão numérica; o gênero como categoria ontológica utilizada para conceptualizar o Uno e o múltiplo em sua unidade e diferença.

De fato, é um artigo e uma tese interessante. Ainda que não seja suficiente para determinar influências no pensamento de Plotino, certamente oferece uma possibilidade de estudo comparativo muito importante. Recomendo a leitura para quem se interessar.

Outras recomendações:

“The Shape of Ancient Thought” : um estudo que levou três décadas, somando mais de 1300 páginas, de estudos comparativos entre as tradições grega e indiana. É um comparativismo um tanto selvagem mas uma obra importante.

Advaita and Neoplatonism – a critical study on comparative philosophy

Neoplatonism and Indian Thought

Neoplatonism and Indian Philosophy

India and Europe: an Essay in Philosophical Understanding“.

Universal and Inner Self in Early Indian and Early Greek Thought

Neoplatonism and Paramadvaita“: artigo comparando Neoplatonismo e Śaivismo da Caxemira.

Feminine Power in Proclus’ Commentary on the Timaeus of Plato“: não é um artigo comparativo, mas um estudo sobre o modo como Proclo concebe a Díada Ilimitada enquanto Poder feminino. A quase identidade dessa concepção aqui com aquela da teologia Śākta é muitíssimo forte e facilmente reconhecível por qualquer um minimamente familiarizado com esta última.

OS CICLOS CÓSMICOS E A DOUTRINA DO AVATĀRA

Alguém sugeriu que eu falasse sobre o tema do Kali Yuga, e especificou sua questão: “Alguns dizem que Kali Yuga começou com a partida de Krishna. O que dizem outras vertentes?” Esta pergunta de fato cobre dois tópicos, portanto: acerca da doutrina dos yugas (os ciclos cósmicos) e acerca da doutrina do avatāra (descida divina), e especificamente acerca de Kṛṣṇa. E, claro, a relação entre as duas.

Em primeiro lugar vale ressaltar aqui que ambas questões se inserem completamente no contexto textual dos Itihāsas (épicos) e Purāṇas, isto é, da tradição lembrada (smṛti). A doutrina dos ciclos cósmicos tem apenas alguns elementos mínimos presentes nos Vedas; elas são quase que exclusivamente tratadas nessa literatura dos smṛtis. A doutrina do avatāra tampouco tem uma presença clara nos Vedas, mas é bastante proeminente nos épicos e nos Purāṇas. No entanto, ela é ainda mais específica do que a doutrina dos ciclos cósmicos porque se trata de um elemento teológico característico da vertente Vaiṣṇava. Por ser tão marcante nos épicos, ela acaba por ter uma influência pan-hindu, mas não goza do mesmo estatuto ou centralidade nas vertentes Śaivas e Śaktas, que raramente a tomam como central, se é que a reconhecem; ao passo que ela é absolutamente central ao Vaiṣṇavismo. Deste modo, esta postagem atual terá uma certa tonalidade vaiṣṇava. (Noutra postagem que farei em breve eu trarei uma tonalidade mais śaiva.)

A noção central que subjaz a doutrina dos yugas é que o universo é constituído de forma cíclica: o universo é no princípio manifestado desde sua forma seminal imanifesta, perdura ao longo de toda a vida do demiurgo (Brahmā), e no final se dissolve novamente em sua forma seminal imanifesta. Novamente, se manifesta, perdura e dissolve; e assim sucessivamente. Então as três grandes atividades atribuídas ao divino – de ser a origem, sustentação, e loco de resolução de todas as coisas – são de fato sempre recorrentes. Nos Vedas há insinuações não muito elaboradas desta ciclicidade cósmica; por exemplo, em algumas das mais antigas Upaniṣads é dito que o demiurgo acorda no início da criação e se lembra do conhecimento que havia adquirido em ciclos passados, e posteriormente a divindade suprema o revela o Veda, pelo qual ele procede a criar o mundo. Vemos nos Purāṇas, por outro lado, narrativas cosmogônicas muito elaboradas para esse processo, acompanhadas por reflexões derivadas e desenvolvidas a partir dos Vedas acerca da natureza do tempo, acerca da forma potencial/imanifesta do mundo, acerca da motivação ou razão da manifestação, dentre outras. Vale observar que por “mundo”, aqui, me refiro a tudo o que é insensciente – o que para a tradição hindu, a partir do Sāṁkhya, inclui os elementos grosseiros e sutis, os sentidos, a mente, o intelecto. Os seres senscientes (jīvas), estritamente falando, não se dissolvem nem se manifestam, sendo centros de inteligência eternos e à imagem do divino (a doutrina bimba-pratibimba, corrente tanto entre dualistas e não-dualistas, à qual dou uma brevíssima elaboração mais adiante nesta postagem). No entanto, na medida em que os instrumentos de pensamento e ação pelos quais os jīvas poderiam atuar estão latentes no estado imanifesto, também os jīvas permanecem como que absortos na suprema divindade então; e, inversamente, quando seus instrumentos se manifestam no início de um ciclo, eles voltam a inserirem-se existencialmente nos vários mundos de ação e experiência.

No curso deste grande ciclo cósmico seriam compreendidos inúmeros outros ciclos menores. Dentre eles, existe o ciclo chamado Mahāyuga, que compreenderia quatro grandes fases cíclicas: Satya, Treta, Dvāpara e Kali yugas – noções muitas vezes traduzidas por termos gregos, que seriam as Eras de Ouro, Prata, Bronze e Ferro. A noção central dessas quatro eras é que o mundo passa por eras de progressiva degradação do Dharma, do princípio da virtude e justiça. Na medida em que o mundo descende da Era de Ouro em direção à de Ferro, segundo as narrativas bastante vívidas e detalhadas dos  Purāṇas, a humanidade em geral tem a extensão de sua vida reduzida, sua capacidade moral e intelectual reduzida, ela passa a cada vez mais dar atenção às suas condições materiais para sobreviver; a justiça e a virtude decaem na sociedade, nos governos, nas famílias; as pessoas se tornam mais impiedosas e materialistas, os santos e sábios se tornam mais raros, e as práticas espirituais se tornam mais difíceis de realização. Mas também esta era obscura passa, e o ciclo recomeça.

Os Purāṇas se engajam em cálculos de unidades de tempo extraordinariamente vastas nas suas descrições desses ciclos. Um ano solar humano seria equivalente a um dia dos deuses; 4800 anos divinos (ou 1.728.000 anos humanos) seria a duração de uma Era de Ouro (satyayuga); 3600 anos divinos (1.296.000 anos humanos) seria a duração de uma Era de Prata (tretayuga); 2400 anos divinos (864.000 anos humanos) seria a duração de uma Era de Bronze (dvāparayuga); e 1200 anos divinos (432.000 anos humanos) seria a duração de uma Era de Ferro ou da escuridão (kaliyuga). Deste modo, 4.320.000 anos humanos constituiria um ciclo completo do Mahāyuga. Um Mahāyuga é a duração da vida de um deus, que equivale a 12000 anos divinos.  Mas a conta continua! Pois 71 Mahāyugas, o equivalente a 306.720.000 anos humanos, constituiria uma Manvantara. Cada Manvantara é uma era governada por um divino ancestral, um Manu – uma figura que na mitologia hindu é semelhante ao Noé bíblico, pois ele é o responsável por construir uma barca no evento de um dilúvio universal, na qual preserva os seres que darão origem aos animais e à humanidade de um novo ciclo. Assim, há várias Manvantaras, vários dilúvios, vários ‘noés’. E não para por aqui, pois 1000 Mahāyugas constituiriam um dia de Brahmā, o demiurgo; durante esse dia o universo está manifesto, e durante a noite de Brahmā ele repousa na sua origem, formando uma dissolução cósmica menor (pralaya). Um dia e uma noite de Brahmā seriam um ciclo de 8.64 bilhões de anos humanos. E assim a conta segue até chegar à medida de tempo da vida inteira do demiurgo, que seria 100 anos demiúrgicos, também chamado Mahākalpa, que seria equivalente a 313.528.320.000.000 anos humanos. (Estamos aqui na casa de centenas de trilhões!)  Ao final de um Mahākalpa há a grande dissolução universal, o Mahāpralaya, em que o próprio demiurgo se dissolve na sua fonte eterna.

Segundo os Itihāsas e Purāṇas, o nosso mundo está sob Kali Yuga, a era da escuridão, desde 5000 anos atrás, o que teria começado pouco após a avatāra (descida divina) Kṛṣṇa deixar o nosso mundo (falarei mais sobre isso adiante). Uma vez que o Kali Yuga dura 1200 anos divinos ou 432.000 anos humanos, isso significa que ainda nos restaria mais 427.000 anos humanos até o fim do Kali Yuga. Um quadro bastante desencorajador, certamente!

[Há também uma alternativa mais “esperançosa”, proposta por um sábio astrólogo no fim do século XIX, Sri Yukteswar Giri, cujo discípulo Paramahansa Yogananda alcançou grande fama nos EUA há um século atrás. Segundo Yukteswar, o cálculo correto dos Yugas é tomar os anos divinos como anos humanos. Então após a partida de Kṛṣṇa o mundo teria visto 1200 anos humanos de Kali Yuga descendente, um período intermediário, então mais 1200 anos humanos de Kali Yuga ascendente, um período intermediário, e agora estaríamos entrando no período de Dvāpara Yuga. Um astrólogo hindu ocidental que segue e desenvolve essa linha é o americano David Frawley. Trata-se de uma abordagem minoritária, certamente.]

Já a doutrina do avatāra, a descida divina ao mundo da ação e dos homens, é algo próximo (não idêntico) ao que estamos acostumados na teologia cristã, que compreende que o Verbo Divino tomou forma humana neste mundo e andou e falou entre nós como um homem. Também os hindus compreendem um fenômeno como esse, embora a elaboração teológica a seu respeito seja distinta em cada uma das duas tradições. Uma distinção evidente, obviamente, é que o hindu compreende que esse fenômeno seja recorrente – há várias encarnações divinas, e inclusive há encarnações divinas em reinos não-humanos. Em todos os casos, no Vaiṣṇavismo os avatāras são descidas ou encarnações de Mahāviṣṇu ou Nārāyaṇa (nomes da forma superior de Viṣṇu), que nessa vertente é a própria Divindade Suprema (Bhagavan). Bhagavan é um termo que pode ser traduzido como “Senhor”, uma forma respeitosa de tratamento; no entanto, tem também a conotação de ser pleno de bhagas – excelências, majestades ou qualidades divinas. O Viṣṇu Purāṇa  lista as seis grandes excelências ou bhagas que qualificam seu possuidor como divino, e que têm seu absoluto em Bhagavan Viṣṇu: Aiśvarya (soberania, onipotência), Dharma (bondade, justiça, virtude), Yāśas (glória), Śrī (beleza, auspiciosidade), Jñāna (sabedoria, conhecimento, onipotência) e Vairāgya (renúncia, desapego, transcendência).

No Bhagavata Purāṇa nós temos uma classificação de vários tipos distintos de avatāras: a) Temos o chamado Pūrṇāvatara, a descida completa. O que caracteriza esta completude é que o Pūrṇāvatara é uma manifestação divina que encarna todas as seis grandes excelências divinas, encarna a perfeição divina em sua completude. A única avatāra conhecida desta categoria seria o próprio Kṛṣṇa, sendo que as demais avatāras encarnam um ou outro bhaga apenas. b) Outras duas categorias seriam aquelas dos Aṃśas (‘partes’) e Kalas (‘partículas’). O Aṃśāvatāra é aquela manifestação Divina que encarna/revela uma das majestades divinas necessárias naquele momento, ainda que seja uno em consciência com a Divindade em sua plenitude, e logo possuidor de todos os poderes divinos. O Kalāvatāra, por outro lado, também chamado de Vibhūti, é uma encarnação de um poder divino separado dos demais; ou em outros termos, são almas divinizadas ou libertas especiais através das quais Viṣṇu manifesta seu poder e excelência. c) Outra categoria é aquela chamada Āveśāvatāra, “a descida por preenchimento”, que é uma combinação das noções de  Aṃśa e Kala. Segundo Svāmī Tapasyānanda (em “Theology of the Bhagavata“): “Esta ideia de combinação significa que o Espírito Divino preenche um Kala ou indivíduo aperfeiçoado e se torna incarnado nele como uma personalidade. De acordo com alguns comentadores do Bhagavata (Purāṇa) como Jīva Gosvāmī, uma manifestação muito limitada do poder divino através de um Kala é chamado de Vibhūti, mas quando o ‘preenchimento’ é de uma magnitude muito grande, a poderosa expressão da Divindade que resulta é chamada de Āveśāvatāra.”

Muitos Purāṇas adotam um esquema de dez grandes avatāras (o Daśāvatāra), em que uma interconexão clara é proposta com a doutrina dos yugas. Essa interconexão é baseada na noção da sacralidade do sandhi, a conjunção entre dois momentos: isso significa que aquele momento intermediário de conjunção entre um pensamento e outro, entre a vigília e o sono, entre o dia e a noite, entre a noite o dia, entre um ano e outro, e assim por diante, são instantes em que a luz da eternidade brilha através do tempo. Do mesmo modo, é nos momentos intermediários de conjunção entre duas yugas que a descida ou encarnação do divino acontece. Esses momentos de conjunção entre eras distintas, portanto, veem a luz do Eterno brilhar em seu meio sob uma forma humana. Kṛṣṇa teria sido precisamente aquela descida divina no período de transição da última ‘Era de Bronze’ para a atual Kali Yuga – por esta razão toma-se a sua passagem deste mundo, creditada a cerca de 3000 a.C., como o momento que marca o início da era atual. Ao final desta era, 432000 anos depois da partida de Kṛṣṇa, a avatāra chamada Kalki regressaria ao mundo e reestabeleceria a Era de Ouro. No entanto, há outros Purāṇas que têm listas muito mais amplas de avatāras. O próprio Bhagavata Purāṇa lista 23. Nesses esquemas não está presente a intenção de interconectar as descidas divinas e as yugas de modo tão preciso. Muitas descidas divinas poderiam ocorrer numa mesma era.

Então até este ponto uma apresentação resumida das doutrinas – a cosmologia cíclica e seus ciclos cósmicos, a doutrina do avatāra – já estão delineadas. No entanto, creio ser preciso comentá-las também. Para tal eu gostaria de evocar um princípio da tradição hermenêutica do Pūrva e Uttara Mīmāṁsā-s, que eles aplicam em sua exegese dos Vedas: dizem que o propósito das escrituras sagradas é guiar o homem à consecução e realização do bem da vida. Ora, o conhecimento acerca de coisas tão remotas como a criação e dissolução do mundo etc não pode ser o propósito das escrituras nessas narrativas. Por esta razão, às narrativas cosmogônicas é atribuído o estatuto de arthavādas, de dizeres cujo propósito é auxiliar e clarificar algum outro elemento que realmente é a intenção central das escrituras. Eu havia comentado na minha postagem anterior como os mantras védicos possuem três camadas de sentido (ritual, teológico e espiritual) às quais correspondem três disciplinas espirituais distintas (ritualística, contemplação mística, gnose). Para o Pūrva Mīmāṁsā, que se dedica a interpretar o sentido ritualístico, o elemento central das escrituras são os vidhis, as injunções à ação. Nesta leitura, os comandos à ação ritualística da porção brāhmaṇa dos Vedas é que realmente constituem o propósito das escrituras, e as narrativas cosmogônicas da criação do mundo e etc que acompanham essas injunções são apenas arthavādas, postos ali em função da ação comandada: para louvá-la, convencer-nos a realizá-la, para indicar seus frutos, e para explicar seu sentido à luz de uma ação paradigmática in illo tempore que nos permita refletir sobre a ação ritual que forma o conteúdo da injunção. De modo semelhante, na sua exegese da porção upaniṣadica dos Vedas, Śaṅkarācārya (grande representante do Uttara Mīmāṁsā ou Vedānta), entende as narrativas sobre a criação do mundo como sendo apenas arthavādas postos ali em função de vidyās, as afirmações de sabedoria que nos despertam ao conhecimento da nossa verdadeira natureza espiritual. As narrativas da criação do mundo ali, portanto, teriam a finalidade de indicar a relação ontológica do Divino com com o mundo e os seres senscientes, de modo que seu propósito não é nos transmitir um conhecimento sobre a criação do mundo mas um conhecimento sobre o divino e sobre nós mesmos. De fato, tanto Kumārila Bhaṭṭa quanto Śaṅkarācārya, grandes mestres clássicos das duas vertentes do Mīmāṁsā, categoricamente rejeitam que o mundo seja de fato criado. Kumārila, em seu Ślokavārttika, dedica alguns capítulos para argumentar que o mundo é perene (sempre existiu e sempre existirá), e refuta dialeticamente vários argumentos de interlocutores que sustentavam a literalidade de um evento como a criação do mundo. Na tradição de Śaṅkarācārya esta questão é um pouco mais complexa, mas uma dos aspectos da sua negação da literalidade da criação do mundo é que as três grandes ações divinas da criação, sustentação e dissolução dos mundos seriam ações recorrentes e não eventos; seriam, em outras palavras, o próprio Tempo em suas divisões de passado, presente e futuro. O Tempo aqui sendo identificado, portanto, com a kriyā-śakti (poder de ação) da Divindade.

O que tudo isso indica é uma abordagem em que o objeto das escrituras sagradas é nos comunicar algo concernente à consecução do bem da vida (puruṣārtha), e não descrever fatos e eventos, nem tampouco determinar coisas sobre o mundo que podem ser investigadas e determinadas por outros pramāṇas (meios de conhecimento e validação, como a percepção e a inferência). Por isso é importante ao leitor desses textos apreciar tanto as doutrinas ali expostas quanto buscar o seu sentido. Os meus comentários que se seguem a partir daqui têm esse segundo aspecto como finalidade.

Uma consequência teológica interessante da concepção cíclica de mundo é que a tradição hindu possui uma resposta muito peculiar ao problema da teodiceia (o problema da bondade divina contrastada com a realidade do mal e da imperfeição no mundo). Para as várias escolas teológicas hindus, é incabível dizer algo como o que foi proposto pelo filósofo alemão Leibniz, de que o mundo criado seja o melhor dos mundos possíveis, por dedução lógica da infinita bondade divina. Ao contrário, os hindus entendem que a criação do mundo no início do ciclo cósmico é realizada pelo divino tomando como condição dessa criação as ações (o “karma”) acumulado pelos seres senscientes em ciclos passados. Isto é, a perfeição ou imperfeição do mundo em que vivemos é relativa não à medida da bondade divina mas aos méritos e desméritos dos seres senscientes que aqui vivem. A bondade divina, portanto, faz do mundo tão bom quanto é possível ao mérito daqueles que nele habitam. Esta concepção superficialmente se parece, porém em verdade se distingue bastante, daquela corrente no Cristianismo, acerca de uma queda causada pelo pecado original, em que a natureza do homem e do mundo foi corrompida de sua perfeição pristina. Um amigo escreveu sobre essa distinção em uma postagem de seu blog, a qual pode ser acessada aqui para quem quiser refletir um pouco sobre essas diferenças. E considerando aqui que os próprios ciclos cósmicos indicam nada mais que a contínua recorrência das ações divinas de manifestação, sustentação e dissolução, o que temos aqui é que as narrativas sobre os ciclos cósmicos oferecem um paradigma para se pensar questões da relação entre a ação divina e a autonomia da ação do ser finito na determinação das condições existenciais dos seres senscientes.

[Vale ressaltar aqui que não trato de diferenças entre religiões a fim de vilipendiar nenhuma delas, nem tampouco para adotar uma postura apologética acerca daquela a que aqui me dedico a escrever. Apontar diferenças é apenas um modo de clarificar confusões entre doutrinas distintas.]

E qual o propósito soteriológico que é compreendido subjazer toda esta narrativa cosmogônica? Isto é, com que finalidade o universo é manifesto? Como esta narrativa aponta ao ser sensciente o caminho para a consecução do bem da vida (puruṣārtha)? A resposta é pautada no Sāṁkhya e Vedānta, e pode ser ilustrada com uma analogia: para que uma pessoa consiga ver-se a si mesma ela precisa do suporte de um espelho, para que através do reflexo de si no outro seja possível que ela reflexivamente compreenda a si mesma em sua verdadeira forma. De modo semelhante, todo o universo é um grande espelho do espírito, um cinema cujo propósito é que o espectador conheça a si mesmo, e toda nossa inserção existencial nos mundos de ação e experiência é com o propósito de através deles chegarmos à compreensão de nós mesmos como espírito, como pura e eterna inteligência divina. Diferentes escolas compreendem de modo distinto como esse conhecimento de si se relaciona com o conhecimento do Divino; não cabe discutir isso aqui nesta postagem. Apenas é importante observar que de uma forma ou outra essas duas coisas se relacionam, e, portanto, de uma forma ou outra o conhecimento de si nos encaminha à consecução do bem supremo (śreyas), atingindo o qual o espelho do universo deixa de nos ser necessário. Por esta razão, vemos as várias escolas hindus – Vaiṣṇavas, Śaivas, Śaktas – dizer que o Divino manifesta este mundo por compaixão aos seres senscientes, para que eles possam superar a ignorância. Há outras narrativas para explicar essa motivação criativa do Divino, mas essa é a mais relevante no que tange a clarificar ao ser sensciente de que modo a narrativa cosmogônica o aponta o caminho para a consecução do bem da vida.

Disso decorre a questão: como é possível que o ser sensciente seja ignorante, antes mesmo que o mundo seja criado? Onde ele adquiriu essa ignorância, e se não a adquiriu, isso não seria dizer que que a ignorância seja um atributo essencial do ser sensciente, e logo impossível de ser removido? Ou que Deus o criou imperfeito? Isso não seria tornar Deus responsável pelo mal da ignorância?

A ignorância aqui de fato não é adquirida, e nem é “má” num sentido moral. Ela é não-apreensão (agrahaṇa), e se torna apreensão errônea (anyathāgrahaṇa) apenas na medida em que se envolve existencialmente no mundo e daí forma juízos errôneos sobre si, Deus e o mundo. Outra confusão comum a ser clarificada aqui é que as diversas escolas hindus não aceitam que o jīva ou ser sensciente seja criado. A ele não cabe, portanto, o atributo de ‘criatura’ que é comum no universo do discurso teológico que nos é familiar no Ocidente. Enquanto centro de inteligência divina à imagem do Divino, o ser sensciente é eternamente. Que ele seja imagem ou reflexo do Divino significa que ele é totalmente dependente ontologicamente do Divino, tal como uma sombra é dependente do corpo de que é sombra, ou como o reflexo do rosto no espelho é dependente do rosto refletido, etc.

Uma escola como a Dvaita Vedānta concebe que mesmo nesta dependência ontológica o ser sensciente é ainda assim uma existência distinta da existência de Deus, compreendendo duas categorias irredutíveis: o ser independente (svatantra) e o ser dependente (paratantra). É nestes termos, e não naquele do ‘criador x criado’, que eles indicam a diferença ontológica irredutível de Deus e o ser sensciente. A ignorância aqui seria o não-reconhecimento por parte do ser sensciente dessa sua absoluta dependência ontológica em relação ao Divino. Superar esta ignorância seria reconhecer-se como reflexo dependente do Divino, a tal ponto que nos é impossível ser, pensar, sentir, agir senão em Deus e por Deus que nos habita o centro mais profundo como transcendência presente. Outra escola, como a Advaita Vedānta, compreenderia que essa completa dependência ontológica impossibilita sustentar que o ser sensciente e o Divino sejam existências à parte: aquilo que é o ser de Deus é também o ser do jīva, assim como a existência do reflexo do rosto no espelho é nada mais que a existência do rosto refletido. Uma autoanulação em Deus, portanto, seria a superação da ignorância. Várias outras escolas adotam posições mais ou menos intermediárias entre essas duas.

De qualquer modo, em todas elas o ser sensciente é eterno e divino em sua natureza essencial, um reflexo de Deus, embora seja um reflexo finito e portanto carente do entendimento de si-mesmo. E essa ignorância só pode ser superada através da inserção existencial no universo da experiência e da ação. Uma vez que tal inserção ocorra, no entanto, outros dois nós podem emergir: aquele do juízo errôneo (que sustenta desejos errôneos), e as ações que são baseadas naquele. Assim se adquire méritos e deméritos a partir das ações, que condicionam nossa inserção existencial no mundo. Nesta esfera da ação, sim, é que cabe todos os juízos de bem e mal morais. O ser sensciente envolvido no mundo através de seus instrumentos de pensamento e ação consequentemente não é o ser sensciente em sua natureza essencial, mas numa natureza acidental – essa sim pode ser dita criada, e esta é passível de imperfeição na medida em que condições não virtuosas são cultivadas pelas ações. Quanto à ignorância, em suma, trata-se de uma condição sem início, não adquirida, nem criada, e que não é moralmente má, e que tampouco constitui a natureza essencial dos seres, sendo apenas propriedade acidental destrutível pela iluminação que garante a consecução do bem supremo da vida. (Algumas escolas têm concepções bastante mais complexas a este respeito, mas não vem a caso.)

Além disso, considerando que a própria narrativa dos ciclos de criação e dissolução dos mundos (de tudo o que é insensciente) seja arthavāda e não necessariamente descrição de eventos reais, que sentido teriam tais narrativas? A resposta é que elas nos fornecem um paradigma mítico para pensar metafisicamente os estados existenciais de toda a totalidade dos princípios constituintes do mundo: seus estados grosseiro (manifesto), sutil e causal. A narrativa do evento da grande dissolução cósmica, o mahāpralaya, é uma imagem muito rica para apontar ao estado causal das coisas, e impõe questões muito importantes sobre a natureza do tempo e do espaço. Sem querer entrar seriamente nessas questões complexas agora, deixo apenas um petisco: o tempo e o espaço no estado grosseiro são caracterizados pela duração (o que dá a noção de passado, presente e futuro) e a distância (que dá a noção das direções norte, sul etc), respectivamente, e que são as medidas que intermedeiam os vários eventos e objetos localizados no tempo e no espaço; e tempo e espaço aparecem aqui como realidades externas. No estado sutil, no entanto, o tempo e sua duração são o próprio movimento do pensamento, e o espaço é a própria mente (o loco dos objetos cognitivos). E no estado causal, tempo e espaço são completamente desprovidos de eventos e objetos (que aqui estão em latência), e, portanto, desprovidos de duração e distância/direção (que aqui não se diferenciam entre si: não há como diferenciar o norte do sul etc). Deste modo há um Tempo no imanifesto, que não é sequencial ou temporal; há um Espaço que não tem direções; e, de fato, neste estado ambos não se diferenciam da própria auto-luminosidade da Consciência Divina, sendo como os modos seminais ou potenciais em que a totalidade dos eventos e objetos subsistem latentes na unidade homogênea da luz divina. Estas considerações de ordem metafísica também nos permitem compreender nossa própria instrumentalidade de pensamento e ação, composta dos corpos grosseiro, sutil e causal, através dos quais experienciamos aqueles três estados.

Quanto à doutrina dos yugas, e os altíssimos números com que os ciclos cósmicos são calculados, vale lembrar que ela recebeu elogios de muitos físicos modernos devido ao fato de que, efetivamente, as tradições dharmicas de origem indiana são as únicas cosmovisões no mundo pré-moderno que se aproximam em suas especulações às escalas numéricas com que a física contemporânea calcula a idade do universo. Certamente o contraste é forte com a tradição a que estamos mais acostumados aqui no Ocidente, por exemplo, onde vemos um Santo Agostinho propor que o mundo teria sido criado no máximo 4000 anos a.C. Eu creio que isso se dá devido ao fato de que os antigos gregos e romanos não tinham um sistema numérico que os capacitasse a representar números muito altos. Imagine você escrevendo um número na casa dos trilhões utilizando aquele sistema dos algarismos romanos! Os indianos, por outro lado, desenvolveram o sistema de algarismos decimais, que nós ocidentais herdamos deles através dos árabes: um sistema em que basta sair acrescentando zeros à direita de um número para que logo alcancemos uma representação de uma quantidade altíssima. Graças a esta capacidade superior de representação numérica, os indianos antigos eram capazes de pensar em termos de escalas muito maiores de tempo. Já ouvi falar até de matemáticos Jainas que ‘brincavam’ com números de escalas hoje só usadas nas ciências espaciais! E não apenas o tempo aqui é vastíssimo, mas algumas dessas narrativas compreendem também haver multiversos – uma vastidão espacial de mundos.

Mas a principal relevância espiritual destes exercícios matemáticos é, de fato, como o disse o sábio Ramana Maharṣi, alcançar uma visão mais ampla da finitude de todas as coisas. Até mesmo aquilo no mundo finito que mais parece duradouro, mesmo os deuses e o demiurgo, nascem e morrem [obviamente, não no sentido de que sejam aniquilados, mas que retornam ao estado imanifesto na Divindade até que outra circunstância permita sua manifestação]. Este exercício também nos descentraliza radicalmente: todas as nossas vidas, batalhas, narrativas, impérios, ocupam nada mais que um espectro atômico na vastidão do universo e do tempo. A contemplação da finitude de todas as coisas nos desperta de certo modo ao seu caráter insatisfatório, e nos reorienta ao Eterno, o além-tempo, o imperecível.

Em geral podemos ter uma luz lançada sobre o significado dessa narrativa dos yugas se a comparamos com outra parecida, que aparece no diálogo Político, de Platão. Neste, Platão narra acerca de uma Era dourada de Kronus, em que, juntamente com seus deuses auxiliares, o próprio deus Kronus seria o pastor do mundo e dos seres. Nesta era não havia a necessidade de que o homem constituísse governos e constituições, ou que produzisse seu próprio alimento, ou se casasse e gerasse filhos: tudo isto era provido diretamente pelo divino. De fato, é uma ordem perfeita, no entanto que carece das condições para o verdadeiro desenvolvimento do homem em sua autonomia. Deste modo, eventualmente Kronus e os deuses deixam seus postos no pastoreio direto do mundo, relegando o mundo a si mesmo. O caos se instaura. Até que advém a Era de Zeus, em que o mundo novamente está sob a direção de um deus, mas de tal modo que caiba ao mundo e ao homem agirem por si próprios. Agora o homem, em situação de total fragilidade diante de animais selvagens e escassez de alimento, recebe dos deuses o conhecimento do fogo, das artes, da agricultura etc, de modo que eles possam zelar por si mesmos através da autonomia da ação humana. E seria apenas nesta condição do mundo que é possível ao homem colocar-se a questão da felicidade, da justiça, da autonomia moral. Ou seja, essa decadência justifica instituições civilizacionais e mesmo a instituição da filosofia.

Eu creio que em grande medida a doutrina dos yugas no hinduísmo tem um aplicabilidade análoga, pois fornece um paradigma mítico de uma Era em que reina o Dharma – o princípio da virtude, da justiça e da piedade –, que conduz os homens e o mundo, e à imagem do qual as práticas que hoje fazemos devem ser mensuradas. Este paradigma também permite justificar a canonicidade de novas escrituras reveladas e práticas espirituais prescritas em tempos mais recentes: porque são escrituras e práticas que melhor se adequariam às capacidades e necessidades dos seres que vivem na era atual, do que os textos escriturais mais antigos e suas práticas mais exigentes que seriam mais adequados a eras anteriores. Assim, vemos o Mahānirvāṇa Tantra, escritura sagrada śākta, sustentar que os Vedas são a escritura da Era de Ouro; os Smṛtis (aqui significando os Dharma-Śāstras ou tratados de lei natural) são a referência da Era de Prata; os Purāṇas são a referência da Era de Bronze; e os Tantras são a escritura da Era atual. A ideia aqui é que o mesmo ensinamento subjaz todas essas fontes textuais, mas que sua aplicação é variável dependendo das circunstâncias. De fato, nesta perspectiva as escrituras e práticas antigas continuam vigentes não importa em qual época, mas quando há adequação da prática e a capacidade do praticante os frutos são mais efetivamente alcançados.

Kali Yuga é frequentemente declarado em termos pessimistas, mas não necessariamente apocalípticos: há, inclusive, aqueles que louvam a sua grandeza. Diz Śrī Kṛṣṇa num trecho da Uddhāva Gītā (Bhagavata Purāṇa, 11.5.36), o seu discurso final antes de deixar este mundo, que “os grandes homens que veem no coração das coisas e entendem seu aspecto positivo veem a era de Kali com maior favor que as outras eras.” Isto exatamente porque a nossa maior fragilidade torna mais intensa nossa auto-entrega à Divindade.

Por fim, algumas observações sobre a doutrina dos avatāras. Vale dizer que os hindus de fato atribuem historicidade aos avatāras no sentido de que eles de fato andaram em nosso mundo como seres humanos, razão pela qual se trata deles nos épicos e na tradição lembrada. No entanto, a historicidade nunca é o aspecto central da apresentação deles, e vemos nesses textos como os aspectos plausivelmente históricos são mesclados indistintamente com narrativas de ordem mítica, e é a ordem mítica que predomina e é primariamente relevante. Neste sentido os hindus concordariam com a observação de Aristóteles de que a poesia é mais filosófica que a história.

Nos perguntamos, então, qual o sentido teológico da descida divina. Seguindo Rāmānujācārya da Śrīvaiṣṇava Sampradāya, a descida da Divindade a este mundo tem dois propósitos, um exotérico e outro esotérico. O propósito exotérico é preservar o Dharma (a ordem da justiça, virtude e piedade) neste mundo. Este é o propósito declarado no quarto capítulo da Bhagavad Gītā: que sempre que há uma decadência do dharma e uma ascensão do adharma no mundo, Ele (Viṣṇu) vem a este mundo restaurar a justiça. O sentido esotérico, no entanto, é que a descida divina é uma manifestação da graça da Divindade, pela qual o divino se revela em suas excelências aos seus devotos e torna possível uma relação próxima e íntima com eles.

Esse sentido esotérico é muito explorado no Bhagavata Purāṇa, que é o texto sagrado mais importante à maior parte das tradições vaiṣṇavas. Nas suas narrativas vemos uma incrível qualidade poética que conscientemente e constantemente alterna entre os registros humano e divino, mostrando Kṛṣṇa como completamente humano, pequeno, próximo; e ao mesmo tempo cósmico, supremo. Eu trago aqui um trecho deste Purāṇa (10.8.32-45), em que uma visão da forma cósmica (viśvarūpa) de Viṣṇu é apresentada, para comentá-lo em seguida. [Vale dizer que a forma cósmica é apenas uma das formas do divino, que tem outras transcendentes a essa, um tema que tratarei em outra postagem.] O background deste trecho é uma narrativa acerca da infância de Kṛṣṇa, em que ele estava brincando com seus amigos, e estes foram até à sua mãe (adotiva) Yaśodā para “dedar” que ele havia comido terra. Eis:

“Preocupada com seu bem-estar, Yaśodā então o tomou pela mão e o repreendeu. Os olhos de Kṛṣṇa ficaram cheios de medo e Yaśodā o disse, ‘Por que você está tão inquieto? Por que você comeu terra por sua conta própria? Estes garotos e o seu irmão mais velho me disseram o que você fez.’ Kṛṣṇa então respondeu, ‘Eu não comi terra, mãe; eles estão contando mentiras ao dizer isso de mim. Se você acha que eles estão dizendo a verdade então olha dentro da minha boca.’ Yaśodā então disse, ‘Se esse é o caso, então abra a sua boca.’ Quando instruído desta maneira, Bhagavan Hari [um nome de Viṣṇu], cuja glória nunca diminui e que estava apenas atuando o papel de uma criança, abriu Sua boca.

“Dentro da boca de Kṛṣṇa, Yaśodā viu todo o mundo com os seus seres móveis e imóveis, junto com o céu e as direções. Ela viu a terra com suas montanhas, ilhas, ventos, fogos, a lua e as estrelas. Ela viu os luminários revolvendo através dos céus, água e luz, espaço e imensidão. Ela viu os sentidos sempre cambiantes, a mente, os objetos de percepção e as três qualidades da natureza. Dentro do corpo do seu filho, ela viu os diferentes seres vivos com sua natureza e duração de vida moldados por seus desejos e ações prévias. Dentro de sua boca ela podia ver também (o vilarejo) Vraja e ela própria; tendo esta visão, Yaśodā foi tomada de medo.

“Ela começou a pensar, ‘É isto um sonho ou uma ilusão criada pelos deuses? Poderia ser que meu intelecto está iludido? Ou será algo criado por algum poder místico inerente no meu filho? Que eu me entregue aos pés d’Aquele cuja natureza está além da lógica humana e que não pode ser apreendido por nossos pensamentos, mente, ações e palavras. Ele é o refúgio do mundo, por quem ele é criado e de quem veio a ser, e ainda assim está além desta existência. Eu penso em termos de ‘eu’ e então concebo, este é o meu marido; este é o meu filho; Eu sou a esposa do senhor de Vraja e possuo grande prosperidade; essas vaqueiras e vaqueiros, assim como todo o gado, pertencem a mim. Devido à ilusão eu tenho mantido essa concepção errônea a portanto vou até Ele por refúgio.’

“Quando aquela vaqueira desenvolveu essa alta compreensão, o Senhor todo-poderoso expandiu sua Māyā (magia) vaiṣṇava sob a forma de amor materno por seu filho. Aquela vaqueira imediatamente perdeu a memória do que havia visto e levantou seu filho até o seu colo. O amor materno em seu coração então se expandiu uma vez mais e ela foi restaurada ao seu estado de mente anterior. As glórias de Śrī Hari (Viṣṇu) são louvadas nos três Vedas, nas Upaniṣads, nas doutrinas do Sāṁkhya e Yoga e nos ensinamentos dos Satvatas, mas ela o conhecia apenas como seu amado filho.”

Aqui, assim como em muitas outras narrativas, vemos a alternância de registros humano e divino construindo uma forma de contemplação estética do divino-humano, que é tão divino ao ponto de desconcertar transcendentalmente sua mãe, mas tão humano a ponto de ser objeto de simples amor materno, tão próximo que pode ser levado ao colo. A sentença final aponta justamente o fato de que aquela realidade suprema contemplada nos textos sagrados, nas escolas filosóficas e nas práticas meditativas aqui se faz disponível e conhecido sob a forma de um relacionamento amoroso. Inclusive, há aqui uma indicação sutil da superioridade dessa forma de se remeter ao divino. Neste caso especial, o Divino se revela a Yaśodā como filho, e estabelece com ela uma relação de mãe e filho. Mas em muitas outras narrativas sobre a vida de Kṛṣṇa o vemos estabelecendo outros tipos de relacionamentos com outras pessoas – o de amigo, mestre, amante etc. Para os vaiṣṇavas, os devotos de Viṣṇu, o que se vê nessas narrativas sobre a vida de Kṛṣṇa é o paradigma supremo do amor e do relacionamento das almas com a Divindade suprema. Isto é, todos os relacionamentos que possuímos nessa nossa vida humana são imagens daquele nosso relacionamento paradigmático com o Divino, que é o relacionamento que contém em si todas as rasas (os ‘sabores’ estéticos) de todas as relações humanas em sua suprema e incomparável excelência.  Essas narrativas revelam a Divindade como sendo o supremamente deleitoso, que é a forma sob a qual eles a adoram.

Outro aspecto mais geral a que faz referência a doutrina do avatāra é ao regime imanente ou presente do transcendente. Assim como a Divindade transcendente se faz assim presente e próxima em suas encarnações em seus avataras, ela também se faz imanente e próxima nos seus mūrtis (estátuas no templo), nas escrituras, nos devotos. E a forma mais universal e importante da presença transcendente do Divino é sua forma como antaryamin, o governante interno, ou paramātma, o Si-mesmo supremo, que habita o coração de todos os seres como a sua luz guia mais profunda e como o seu si-mesmo mais profundo.

É notável que em todas as narrativas sobre as vidas dos vários avatāras, é sempre uma constante que as pessoas de seu tempo não os reconheciam como manifestação divina, com exceção de alguns poucos sábios ou de algumas poucas pessoas a quem o avatāra revelou sua divindade. Essa doutrina, portanto, acaba por ter uma consequência prática de, em combinação com a doutrina da presença transcendente do divino em todos os seres, instruir o devoto a estar sempre atento ao outro como possível manifestação divina. Isso tem uma consequência ética muito interessante, que é contemplada em passagens do Bhagavata Purāṇa, como essa a seguir (3.29.21-27), da seguinte forma:

“Eu habito todos os seres como seu si-mesmo mais profundo. […] Se alguém negligencia Minha presença em todos como seu si e Senhor, mas de modo ignorante oferece adoração apenas às imagens, tal adoração é ineficaz […]. Se um homem despreza e persegue outros seres, mas Me adora em imagens com numerosos rituais e ricas oferendas, Eu não me satisfaço com tal adoração. Um homem deveria, no entanto, adorar-me em imagens lado a lado com o cumprimento de seus deveres, que inclui o amor a todos os seres, até que ele tenha realizado Minha presença nele próprio e em todos os seres. Enquanto o homem é auto-centrado e faz uma absoluta distinção entre ele próprio e os demais (sem reconhecer a unidade de todos em Mim, que a tudo permeio internamente), ele será sujeito ao grande medo da Morte. Portanto, superando toda a separatividade de uma vida auto-centrada, deve-se servir a todos os seres com dádivas, honra e amor, reconhecendo que tal serviço é de fato realizado a Mim que reside em todos os seres como seu si-mesmo mais profundo.”

Fontes para estudar o Hinduísmo

Várias perguntas me foram feitas no Facebook, que podem dar origem a várias postagens aqui. Mas esta primeira postagem será em resposta à pergunta “Quais as melhores fontes para estudar hinduísmo?”, por parte de alguém que diz não saber nada do assunto. Nesta mesma linha, outra pessoa pediu que eu dissesse algo “sobre as principais escolas da tradição védica, diferenças de interpretação de cada uma, diferenças litúrgicas e rituais, etc.” Creio que essas perguntas podem trazer alguns esclarecimentos que ajudariam bastante em qualquer outra postagem, e por isso começarei por elas. Darei uma resposta conjunta a ambos, mas apesar de que falarei sobre ‘as principais escolas’, não tem como eu abordar as diferenças entre elas sem que seja preciso escrever uma enciclopédia!

Quanto à questão das fontes. Esta parece ser uma questão simples, mas na verdade é bem mais difícil de resposta do que se esperaria. Dou duas razões principais para a dificuldade:

i) A desnorteante vastidão do universo a que se referimos como hinduísmo. É quase tão vasto quanto perguntar, por analogia no nosso contexto, pelas melhores fontes para estudar a civilização ocidental. Imagine se pensássemos a religião e a filosofia da civilização clássica (greco-romana) e das tradições abraamicas (Judaísmo, Cristianismo, Islã) como formando um todo, e além disso perdurando historicamente desde um período pré-histórico até a modernidade. Por onde começar a estudar isso? É algo de uma vastidão análoga que chamamos de hinduísmo, e igualmente difícil de escolher um ponto de entrada.

Já retorno a este ponto para justificar tamanha vastidão desde um ponto de vista da religião propriamente dita. Mas um ponto de ordem civilizacional, que já pode auxiliar aqui a compreender isso, é o fato de que a Índia nunca foi uma nação até 1948: antes disso foi na verdade algo como um sub-continente, tal como a Europa o é, com uma grande pluralidade de povos e culturas assim como na Europa, e de uma dimensão geográfica inclusive superior. Assim como na Europa, historicamente a Índia pré-moderna só gozou de maior unificação política sob a forma de impérios que se expandiram pelo território dos seus vários povos. E até mesmo o encontro civilizacional entre os povos europeus e semíticos (de famílias linguísticas distintas), tão constitutivo do que se chama de civilização ocidental, também tem seu análogo no sub-continente indiano no encontro entre os povos indo-arianos e os dravidianos, também bastante constitutivo daquela civilização. Ainda assim, do mesmo modo que na Europa, é possível notar uma grande comunhão de identidade civilizacional e religiosa perpassando o sub-continente indiano.

ii) Outro ponto que se apoia no anterior, é a dificuldade de sequer definir “hinduísmo”, diante de tamanha vastidão e pluralidade com que se referimos com este termo. Tanto é que este é um debate acadêmico feroz no Ocidente: se faz ou não sentido usar o termo, em primeiro lugar; ou definir ao quê ele se refere. Dependendo de como nos posicionamos a respeito dessas questões, inevitavelmente o escopo da questão sobre as fontes para estudar o hinduísmo é ressignificado.

Então a questão das fontes passa antes pela questão do hinduísmo propriamente dito. O que é o hinduísmo? Eu darei uma definição geral e depois desdobrarei sua pluralidade a partir da definição. Uso aqui a definição de caráter mais antropológico dada por Brian Smith, em “Reflections on Resemblance, Ritual and Religion”: “Hinduísmo é a religião daqueles humanos que criam, perpetuam, e transformam tradições com a referência legitimizante à autoridade dos Vedas”. Essa definição inclui aquelas tradições que aceitam tanto a autoridade dos Vedas quanto a do bramanismo (a autoridade da casta sacerdotal), ou aquelas que aceitam a autoridade dos Vedas mas rejeitam o bramanismo. E ela exclui outras religiões indianas que partilham muitos conceitos com as duas primeiras, mas não aceitam a autoridade dos Vedas (como o Budismo e o Jainismo); e também aquelas religiões importadas ao sub-continente indiano que não participam na autoridade dos Vedas,e tampouco nos conceitos partilhados pelas religiões nativas de lá (como as religiões abraamicas que lá existem).

Primeira questão aqui: o que são os Vedas? Concretamente (do ponto de vista “profano”), trata-se de um corpo de textos sagrados considerados revelados (o entendimento de revelação não entrando em questão aqui neste post, até porque varia de escola a escola), que segundo a teoria mais academicamente aceita foi compilado entre os séculos XVI a.C. e III a.C., aproximadamente, mas que possivelmente tem continuidades com tradições anteriores da civilização do Vale do Indo e dos povos indo-europeus. Os hindus costumam situá-lo no terceiro milênio a.C., o que coincide com os princípios da civilização do Vale do Indo. Qual o conteúdo deste corpo de textos sagrados? Segundo a explicação tradicional, seu conteúdo é feito de mantras e brahmanas, isto é, palavras sagradas e o seu sentido. Desta forma, o Veda se desdobra em quatro camadas distintas: a primeira sendo coletâneas de hinos litúrgicos (mantra); e as outras três constituindo a revelação dos sentidos daqueles mantras. Três são as camadas que expõem o sentido porque elas o fazem a partir de óticas distintas, devido à polissemia dos mantras. Os mantras têm um sentido adhiyajña (com referência ao rito), adhidaiva (teológico ou com referência ao divino) e adhyātma (espiritual ou com referência ao espírito, ao Si-mesmo ou sujeito). A partir desta perspectiva tríplice se desdobram três camadas do texto sagrado, idealmente (não realmente) referindo-se a um dos três níveis de sentidos. Daí temos uma divisão dos textos que se dedicam a apontar o sentido esotérico dos ritos, chamada Brāhmaṇas (que em inglês seriam uns 23 volumes); outra chamada Āraṇyakas, que *seria* aquela a apontar o sentido ou conteúdo teológico revelado nos mantras; e outra chamada Upaniṣads, que *seria* aquela a apontar o sentido referente ao conhecimento de si. (Digo *seria* e falo de equivalências ideais e não reais, porque na prática esses sentidos são mais fluidos e se interpenetram nas distintas camadas. E até mesmo a divisão das camadas é mais ideal do que real, muitas vezes se interpenetrando). Cada uma dessas camadas de sentido orienta disciplinas espirituais distintas: karma (a ritualística ou teurgia), upāsanā (a contemplação mística) e jñāna (a gnose). [A partir disso já temos uma chave da pluralidade do Veda, pois há escolas que considerarão que uma ou outra dessas disciplinas é a suprema ou central, e as demais auxiliares. O que gera abordagens religiosas bastante distintas, e indica uma preferência por uma ou outra das camadas de sentido – embora ainda estejam todas contidas no limite da referência ao Veda.]

Além disso, o Veda é acompanhado de uma série de ciências auxiliares, que embora não constituam o cânone védico propriamente dito, constituem o conhecimento védico. Elas tratam de linguística (fonética, gramática, etimologia, métrica), astrologia, matemática, manuais de ritualística e ética (Kalpa), medicina (āyurveda), artes (gandhārva-śāstra), a ciência da hermenêutica e exegese (Mīmāṁsā), a ciência da lógica (nyāya), os tratados de “lei natural” (os dharma-śāstras, que de modo análogo a algo como as ‘Leis’ de Platão codificam um direito ideal, não positivo). Essas ciências todas têm tanto aspectos pragmáticos quanto contemplativos: os gramáticos, por exemplo, tanto estudam aquilo que hoje chamamos de gramática, quanto, a nível contemplativo, o Absoluto-sob-a-forma-de-Palavra (śabdabrahman, o “Verbo Divino”), que seria o fundamento teológico-metafísico de todo aquele universo de investigação próprio à gramática. Tudo isso é tratado como compondo a ciência do Veda.

Historicamente, o próprio Veda é uma grande síntese de muitas linhagens ou śākhās de sábios, transmitidas de geração em geração, e cada uma delas contendo seus próprios mantras e brahmanas. A síntese foi ocorrendo ao longo do tempo na medida em que essas diferentes linhagens se encontravam e colaboravam no grande ritual hierático. Neste mesmo período, emergiu a literatura dos épicos ou Itihāsas, o Mahābhārata e o Rāmāyana, que são expressões da vasta unidade cultural e religiosa da tradição védica.

E paralelamente a isso, e em tempos posteriores, muitas outras tradições religiosas e também escolas filosóficas/teológicas emergiram a partir deste universo védico. Ao longo de muitos séculos essas se desenvolveram à parte, e depois ao longo de muitos outros séculos foram sintetizadas novamente a partir dos cânones hermenêuticos do Veda. As principais tradições são aquelas do Vaiṣṇavismo, Śaivismo e Śaktismo. Uma literatura sagrada (embora considerada como “tradição lembrada” e não tradição revelada) muito vasta e importante, que conecta essas três grandes vertentes às suas raízes védicas, são os Purāṇas, vastas bíblias de conteúdo mitológico, devocional, teológico, ritual. Há 18 ‘grandes’ e 18 ‘auxiliares’ deles, alguns sendo de orientação vaiṣṇava, outros śaivas, outros śaktas. Além destes, cada uma dessas tradições tem seu próprio cânone de textos sagrados revelados (chamados de Saṁhitās, Āgamas e Tantras, respectivamente), os quais têm por conteúdo, aproximadamente, aqueles mesmos temas e disciplinas espirituais do cânone védico (rito, contemplação mística, gnose), mas ressignificados. Cada uma dessas três grandes vertentes tem ainda várias sub-vertentes: há cinco grandes vertentes vaiṣṇavas, seis grandes vertentes śaivas, duas ou quatro grandes vertentes śaktas. Houveram ainda no passado as vertentes Saurya e Gaṇapatya, que foram absorvidas ao Vaiṣṇavismo e ao Śaivismo respectivamente; e há ainda a grande vertente sintética de todas essas cinco, a Smārta.

Alguns ocidentais chegaram a comparar aquelas três grandes vertentes, a fim de ilustração para um ocidental, com o Judaísmo, Cristianismo e Islã. Isto é, como sendo três tradições religiosas completas em si mesmas, com suas próprias escrituras sagradas, moralidade, ritos, costumes, santos, escolas teológicas, tradições intelectuais etc; mas que partilham um mesmo ancestral, por assim dizer. No entanto, a comparação é errônea na medida em que essas três tradições hindus não se compreendem e relacionam mutuamente do mesmo modo que as três tradições abraamicas o fazem entre si, por razões a serem detalhadas mais adiante.

Temos aqui, portanto, uma divisão histórica do hinduísmo entre védico (a forma mais antiga) e smārta (a forma mais recente que adota a autoridade dos Purāṇas); bem como uma divisão horizontal desta última nas vertentes acima listadas. Além disso, no entanto, há uma outra grande divisão vertical até aqui não abordada: aquela entre a ‘Grande Tradição’ e ‘Pequena Tradição’. A ‘Grande Tradição’ é aquela da ‘alta cultura’, que fala em sânscrito, que deriva diretamente do Veda e seu paradigma de conhecimento e cultura; a ‘Pequena Tradição’ são as várias tradições de comunidades tribais que desde um período ancestral até os dias de hoje existem no sub-continente indiano. Essas tradições locais têm suas próprias mitologias, ritos, escrituras, deidades, e falam no vernáculo; mas ainda assim se compreendem como parte da ‘Grande Tradição’ através de certas filiações míticas, simbólicas e doutrinais. E também a ‘Grande Tradição’ muitas vezes ao longo da história se enriqueceu com material derivado da ‘Pequena Tradição’. Ambas formam assim uma grande relação dinâmica, em que as tradições tribais são aculturadas na tradição erudita, mas de modo que mantenha sua existência e identidade autônoma. É uma dinâmica muito interessante, embora eu não saiba muita coisa sobre a ‘Pequena Tradição’. Mas o fato é que graças a essa dinâmica o hinduísmo é distintivo em cada região do subcontinente indiano.

E por que faz sentido chamar tudo isso de ‘hinduísmo’? Por que os membros dessas várias tradições se compreendem como de algum modo intimamente relacionados uns com os outros? Devido ao paradigma védico que os informa a todos, e principalmente devido à característica do inclusivismo que está embutido na cosmovisão védica.

O inclusivismo é uma atitude fundamental interna ao próprio Veda e que todas as tradições dele derivadas partilham. Se traduz, na maior parte das vezes, numa postura que aceita a verdade e validade das outras tradições com que se partilha valores, mas reivindicando superioridade a si próprio. Todas as tradições e escolas hindus fazem isso: entendem que a sua é o ápice da revelação, por alguma razão específica; mas situa as outras na sua geografia sagrada. Diriam, por exemplo, que tal e tal tradição alcançam até tal patamar da escada metafísica, e a minha tradição incorpora isso mas atinge um degrau além. É importante dizer que essa abordagem não adota, no contexto hindu, nenhum tipo de critério histórico para esse inclusivismo, porque não é parte da compreensão hindu de revelação que esta seja um evento histórico. A revelação é algo sempre recorrente, e deliberadamente a-historicizada pela tradição hermenêutica. Então esse inclusivismo é bastante distinto, por exemplo, do modo como os muçulmanos são inclusivos em relação aos judeus e cristãos: os muçulmanos diriam que as revelações dos judeus e cristãos são verdadeiras, porém historicamente obsoletas e ultrapassadas (abrogadas) pela revelação ao profeta Maomé, de tal modo que ainda que contenham verdade, já não são mais válidas enquanto tais no período histórico atual. Nem tampouco as hierarquias de quem alcançou uma verdade mais abrangente pode ser comparada com coisas parecidas feitas por um Hegel, que situava e classificava todas as filosofias historicamente anteriores num esquema de preparação histórica para a sua própria filosofia. No contexto hindu, esse inclusivismo e hierarquias são sempre a-históricos, e as várias escolas são tratadas como encarnando posições metafísicas e teológicas paradigmáticas, por assim dizer, e não momentos históricos. Como resultado, há uma integração muito mais orgânica entre o antigo e o novo do que estamos acostumados a ver no Ocidente. Até os dias de hoje, por exemplo, ainda existem brâhmanes em certas comunidades na Índia que realizam exatamente os mesmos ritos que vemos descritos em textos védicos datados de 1000 a.C.; muitos jovens brahmanes que aprendem a decorar e recitar os milhares de hinos litúrgicos de 1500 a.C., e assim por diante. As novas tradições, revelações, paradigmas, não anulam as anteriores, e frequentemente muitas comunidades vivem formas litúrgicas que deliberadamente combinam o antigo e o novo de forma coesa. E frequentemente, hindus de diferentes tradições participam nos festivais religiosos uns dos outros.

Algumas instâncias do paradigma e do inclusivismo védico que dão continuidade e unidade ao hinduísmo em meio à sua diversidade horizontal, vertical e histórica:

i) teologia caleidoscópia

Os hinos litúrgicos dos Vedas contêm inúmeras passagens de grande profundidade teológica e cosmogônica, que inspiram e informam as camadas ulteriores dos Vedas e também a tradição hindu como um todo. No entanto, a dificuldade de interpretá-los ou derivar uma cosmovisão sistemática daqueles hinos é tão difícil, embora não impossível, quanto derivar a escolástica medieval dos livretos da liturgia da missa latina – como o observou em uma ocasião o autor Ananda Coomaraswamy.

No que tange à natureza do divino, os primeiros indólogos ocidentais a estudar os hinos notaram algumas características aparentemente contraditórias. Uma delas seria que esses hinos são obviamente politeístas, dirigindo-se a uma grande pluralidade de divindades, cada uma delas com seus epítetos e atribuições específicos. Ao mesmo tempo, no entanto, é comum ver hinos em que a deidade específica ali referida é adorada como dotada de atributos que logicamente só fariam sentido se esta fosse um Deus monoteísta, único, supremo e todo-abarcante. Outros hinos explicitamente adoram o divino como sendo o Uno (ekam) ao qual se dá os muitos nomes das várias divindades; ou adoram um demiurgo monoteísta em cuja ação todos os deuses estão unificados. Diante dessas observações, o indólogo Max Müller cunhou os termos henoteísmo e kathenoteísmo, para indicar uma postura teológica que segundo ele seria a seguinte: há muitos deuses, mas cada um deles é sucessivamente adorado como o único e supremo (kathenoteísmo). Segundo ele, essa postura na prática da adoração teria conduzido à formulação de uma visão teológica do divino como sendo uno-múltiplo (henoteísmo), e essa seria uma posição teológica intermediária entre o politeísmo e o monoteísmo, de tal modo que tendendo mais a um lado ou outro de sua abordagem esta seria (segundo sua teoria) a posição teológica primordial da qual derivam os politeísmos e monoteísmos do mundo. Evidentemente a tese de Max Müller é problemática mas ela é interessante para nos ajudar a pôr o problema teológico aqui de forma matizada.

Não é minha intenção aqui neste breve espaço falar sobre a teologia dos hinos védicos como um todo, os seus deuses e cosmologia etc. É um tema fascinante a que tenho me dedicado a estudar, inclusive, mas não caberia aqui. Por hora foco apenas na questão da unidade e pluralidade divina, tal como posta acima, mas dando respostas que são baseadas em tratados tradicionais: o Nirukta de Yāska e o Bṛhaddevatā de Śaunaka, ambos escritos alguns séculos a.C. (E complementados aqui com ideias que advém de outras fontes e se combinam com essas, como algumas passagens do Śatapatha Brāhmaṇa do Yajurveda, e passagens da exegese mīmāṁsaka e vedantina, bem como algumas noções da escola da gramática. Se alguém quiser as fontes exatas posso passar.)

Basicamente neles vemos uma abordagem que trata os deuses como membros do corpo do Divino unitário. Essa primeira imagem precisa ser corrigida para que não nos deixe com uma noção de que se trate de uma relação de todo e partes: é preciso pensar no modo como uma pessoa é dita ser cozinheiro quando cozinha com as mãos, ou dançarino quando dança com os pés, ou falante quando fala com a boca, ou ‘respirador’ quando inala e exala pelo nariz. Isto é, é a pessoa como um todo que ora é dita uma coisa ou outra segundo a ação que exerce. Seus vários nomes e atributos se referem à pessoa como um todo, mas tal qual manifesta em ações distintas. Deste modo, se pode sustentar que os deuses são nomes e formas do Uno.

Nome-e-forma é um termo técnico no universo védico, em que o nome de alguma coisa é o seu aspecto “noumenico” e a forma seu aspecto “fenomênico”. É entendido que nome-e-forma constituem a individuação dos seres, e que o mundo ordenado (cosmos) é o mundo no qual o divino inseriu nome-e-forma. Concretamente, na revelação dos deuses, seu nome é o que manifesta o mantra e sua forma é o que se mostra teofanicamente ao sábio que tem a visão divina, e que informa sua iconografia. Nesses e outros tratados antigos há a questão acerca do quê determina o nome das coisas. Alguns deles chegam a listar 10 condições distintas que determinam os nomes, mas outros reduzem todos esses a um só: a ação. Os seres e as coisas são nomeados segundo suas ações. E a ação aqui, como na maior parte do pensamento védico, tem um sentido amplo do devir das coisas, sua inserção existencial no devir de todas as coisas.

Os nomes, no entanto, preexistem todas as manifestações concretas daquilo que nomeiam: as palavras “terra”, “céu”, “homem”, “vaca” etc existem mesmo antes que toda terra, céu, homem e vaca venham a ser. Na sua forma causal os nomes são atemporais e indistintos, formando o mantra semente de todas as coisas (o OM); na sua forma sutil, pela força da sequencialidade do tempo, os nomes se diferenciam e formam algo semelhante a um ‘mundo de ideias’, uma liturgia mântrica primordial (que é o verdadeiro Veda); e na sua forma grosseira os nomes assumem formas, manifestações fenomênicas nas coisas nomeadas. Ainda que preexistam a concretização nas coisas nomeadas, os nomes são sempre indicadores da ação, e, portanto, mesmo seu estado causal deve ser visto como um estado potencial da ação e devir de todas as coisas.

Nesse sentido dizer que os deuses são nomes-e-formas do Uno é dizer que, desde uma certa perspectiva, eles sejam apenas epítetos da pessoa divina única, assim como uma mesma pessoa é dita de modos distintos na medida em que exerce agências distintas; desde outra, que eles formam personalidades de fato em seu próprio direito, dotados de atributos próprios, uma vez que é nome-e-forma que individua os seres. Seus nomes carregam sua revelação porque os nomes indicam suas qualidades, epítetos, atributos – e todos esses são nada mais como o modo como agem, o tipo de agência divina que deles flui. Os mitos a seu respeito revelam, igualmente, o modo como agem, e consequentemente o modo como se relacionam com aqueles que os invocam. E como eu disse anteriormente nas analogias que propus, é a pessoa divina como um todo que é dita em cada um desses nomes, assim como é a pessoa humana como um todo que é dita como ‘cozinheira’ ou ‘falante’ quando cozinha e fala. É possível, seguindo a analogia, atribuir ao ‘cozinheiro’ os atributos do ‘falante’ – “ah, esse cozinheiro é aquele que falou ontem na TV. Esse cozinheiro é um bom orador’, o que permite que uma divindade particular seja concebida de modo a abranger outras. Mas o que esse divino Uno é em si mesmo, à parte de suas várias revelações através das distintas agências, não é inferível diretamente de nenhum dos epítetos. Numa passagem da Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (1.4.7) do Śukla Yajurveda (que tem paralelos noutra passagem da Aitareya Upaniṣad [3.1-3.3] do R̥gveda), há uma analogia adhyātmika (concernente ao sujeito, o microcosmo) para compreender este ponto: que em nossas atividades cognitivas a consciência é chamada de memória quando lembra, de visão quando vê, de audição quando escuta, de imaginação quando forma imagens, de intelecto quando discerne, etc; mas não é possível descobrir o que a consciência de fato é em si mesma através dessas formas particulares das atividades da consciência apenas: é preciso através dessas atividades particulares intuir o que a consciência é à parte das atividades.

Em geral, as várias tradições hindus têm uma concepção do divino mais ou menos nessas linhas. No entanto, divergem na determinação acerca da natureza do divino em sua Unidade, pois ainda que todos os deuses sejam várias personalidades de uma pessoa, cada corrente entende que um ou outro deus é aquele que se identifica com o centro, o coração ou o Si-mesmo de todos os deuses. Então vemos na tradição posterior como os Śaivas tomam Śiva como a divindade central, o Si-mesmo do divino, e as demais como formas particulares de Śiva; Vaiṣṇavas, por outro lado, elegem Viṣṇu como tal divindade central. E assim por diante. Essas escolhas informam religiosidades de têmpera distintas, em que os devotos se relacionam com o divino em sabores ou colorações distintas, e nas quais o divino se revela e se relaciona com os devotos de formas distintas. Os ecléticos Smārtas são aqueles que enfatizam que a divindade central é precisamente sua transcendência a todo nome-e-forma, e que todas as grandes divindades das diversas correntes são igualmente manifestações caleidoscópicas daquele divino inominável.

Com tudo isso o que pretendo é dizer como o Veda, em sua concepção do divino, de fato oferece um paradigma de continuidade e inclusivismo às diversas tradições hindus. Porque, em primeiro lugar, as diversas deidades adoradas nas diversas tradições ditas hindus de fato têm raízes ou precedentes no corpus védico – às vezes diretamente as vemos lá, com os seus mesmos nomes; ou então vemos uma deidade precursora (como por exemplo, Gaṇeśa aparece no Veda sob a forma de seu precursor Brahmanaspati, ou Kālī sob a forma de Ratri Devī); e seus mitos têm uma forma ancestral nos mitos védicos. Em segundo lugar, porque essa visão de uma teofania caleidoscópica dá fundamento ao inclusivismo de que falava: uma tradição que se caracteriza pela adoração de uma certa deidade compreende a validade da tradição que adora outra deidade, ainda que considere a sua própria como expressão mais central e superior do divino.

ii) o sacrifício

O sacrifício (Yajña) é o grande centro da vida espiritual védica, a sua forma de adoração. No entanto, mais do que isso, o sacrifício informa os mitos e cosmogonias, em que vemos o mundo nascer, ser sustentado e dissolvido pelo sacrifício divino. Eu tratarei deste tema em mais detalhes em outra postagem, respondendo a uma questão que foi feita sobre formas rituais/litúrgicas; mas por hora o que gostaria de enfatizar é o seguinte: que o sacrifício védico é efetivamente o paradigma de toda ação e prática religiosa em todas as tradições hindus. Todos os tipos de ações religiosas em todas as tradições hindus legitimam-se ao formular-se como sendo sacrifício. Exercícios respiratórios, recitação de textos sagrados, repetição de mantras, asceses, práticas meditativas, até mesmo a renúncia a toda a vida ritual – todos esses são teologicamente moldados como se constituíssem um tipo de sacrifício, como se fossem substitutos simbólicos do sacrifício védico. O Veda, portanto, oferece um paradigma ou arquétipo da ação sagrada que é reproduzido ao largo de todo o universo que denominamos hinduísmo.

iii) o r̥ṣi

Do mesmo modo que na ação, o Veda oferece também um paradigma de todo o conhecimento sagrado. Este paradigma está encarnado na figura do R̥ṣi (pronúncia ‘ocidentalizada’: ‘rishis’). Os r̥ṣis são o modelo supremo de sabedoria, poder e santidade na tradição védica. São por excelência os videntes da verdade suprema para quem a Palavra Divina, o Veda, se revelou; além de sacerdotes, ascetas, sábios. Não apenas os grandes r̥ṣis são tratados como os veículos da manifestação da palavra divina eterna, mas também os fundadores das várias ciências e todos os campos do saber. A tradição nomeia incontáveis r̥ṣis. Cada um dos hinos védicos é atribuído a um r̥ṣi ou outro; cada um dos ensinamentos ritualísticos, teológicos ou gnósticos que vemos nas diversas camadas dos Vedas são atribuídos a um r̥ṣi ou outro. A vastíssima literatura dos épicos e Purāṇas narram as lendas acerca de vários deles. Todas as linhagens hindus, mesmo aquelas que menos aparentam se relacionar diretamente aos Vedas, atribuem a genealogia de sua linhagem iniciática a um r̥ṣi védico ou outro (como, por exemplo, a linhagem tântrica do Śivaismo da Caxemira se entende ser genealogicamente derivada do r̥ṣi Durvāsa). De certa forma o hinduísmo nada mais é que Arṣa Dharma, a tradição dos r̥ṣis.

Os r̥ṣis encarnam um paradigma de conhecimento sagrado porque eles são mestres da ascese – tapasya, aquilo que gera ‘calor’ ou ardor, entendido aqui como um tipo de refulgência. Neste ardor refulgente eles vêm a verdade suprema, ou a verdade suprema se mostra a eles. Então essa visão direta, da natureza de uma iluminação ou revelação, é o paradigma de todo conhecimento. Mesmo as tradições intelectuais que se dedicam a desenvolver o pensamento lógico argumentativo, entendem que a razão é como um substituto simbólico daquele paradigma da vidência do r̥ṣi. Cito como exemplo um trecho do Tantra-Vārttika (1.2.49) de Kumārila Bhaṭṭa (c. VII d.C.), um membro da escola do Pūrva-Mīmāṁsā (que desenvolve a racionalidade hermenêutica que se aplica na exegese dos textos sagrados), acerca de uma narrativa que também aparece no final do Nirukta de Yāska cerca de mil anos antes:

“Quando os R̥ṣis estavam voando para o alto [deixando este mundo], os seres humanos perguntaram aos deuses, ‘quem dentre nós se tornará agora um R̥ṣi?’ Os deuses transmitiram esse ‘tarka-r̥ṣi’ [o ‘r̥ṣi-sob-a-forma-de-raciocínio] à humanidade. O tarka (razão, raciocínio) assim concedido é aquele que deriva da reflexão sobre o significado dos mantras. Portanto, o que quer que a pessoa instruída infere (através da reflexão) se torna ‘semelhante à vidência do r̥ṣi’ (aṛṣam)”.

iv) a hermenêutica

Desde o período védico e ao longo de sua longa história, o hinduísmo sempre foi dotado de uma vigorosíssima tradição intelectual hermenêutica (dentre outras). A importância desta não pode ser subestimada, pois é através da hermenêutica dos brahmanes eruditos ao longo do tempo que o hinduísmo se manteve formalmente coeso.

A grande pluralidade de posições teológicas e filosóficas entre as várias vertentes e escolas hindus de fato implica discordâncias e divergências, que se mostram sob a forma de vigorosos debates, alguns dos quais se desdobram ao longo de séculos de vasta literatura dialética. Então falar de unidade e coesão do hinduísmo não significa, de modo algum, falar que este seja homogêneo. No entanto, graças ao princípio de inclusivismo, a tradição hermenêutica sempre tendeu em direção a grandes sínteses. Essas grandes sínteses se justificam precisamente no fato de que as escolas hindus, em toda sua pluralidade, se moldam em paradigmas comuns, como aqueles de que tratei anteriormente.

Então vemos como num período védico arcaico havia inúmeras śākhās ou linhagens de r̥ṣis, que tinham suas próprias vertentes védicas. Mas eventualmente há a reunião e a síntese das revelações, conhecimento ritual e sabedoria desenvolvidas pelas distintas śākhās, formando um corpus unificado. As escolas hermenêuticas do Mīmāṃsā (Pūrva e Uttara) já tomam o cânone védico, composto pelas várias śākhās, de forma sintética, tratando-o como uma unidade e reconciliando suas doutrinas.

Vê-se esforços hermenêuticos sintéticos nos Dharma-Śāstras (tratados de ‘lei natural’) clássicos, buscando reunir e conciliar vários tipos de modos de vida e ascese que haviam se desenvolvido num período anterior como formas alternativas de vida, mas que agora são compreendidas como formando um todo harmônico e sucessivo (o sistema dos quatro āśramas ou fases da vida). Do mesmo modo, vemos como distintas śākhās desenvolvem em suas reflexões Dharma-Śāstras que divergem uns dos outros em muitos pontos; mas também vemos o esforço exegético da tradição hermenêutica em conciliar essas divergências através de critérios de aplicabilidade distinta em contextos distintos, dentre outros. Vê-se como os seis darśanas (escolas de pensamento) clássicos se desenvolvem de forma autônoma no início do período clássico, e depois, no fim do período clássico, são reunidos num movimento de síntese, como se vê em figuras como Vācaspati Miśra (c. IX d.C.), que comentou os sūtras de todos os darśanas clássicos, considerando-os todos canônicos e não-contraditórios.

Então da mesma forma no período medieval temos movimentos de síntese em que, por exemplo, aquilo que havia se desenvolvido autonomamente pelas linhagens Vaiṣṇava, Śaivas e Śaktas agora é integrado e interpretado à luz dos cânones da tradição védica; vê-se grandes ācāryas (mestres, instrutores) mobilizando os princípios hermenêuticos do Mīmāṃsā para integrar essas correntes todas no universo de uma auto-compreensão abrangente da tradição entendida como védica (ou de raízes védicas). Vê-se a emergência de hermeneutas do pluralismo religioso que conciliam as distintas correntes devocionais etc.

Um exemplo interessante é o cânone Muktikā das Upaniṣads (textos sapienciais védicos), que parece ser datado de um período medieval tardio, e que conta com sete categorias distintas de Upaniṣads: Mukhya (principal, os mais antigos, derivados do período védico), Sāmānya (gerais), Sannyāsa (concernentes à renúncia), Yoga (concernentes às práticas ascéticas e contemplativas), Vaiṣṇava, Śaiva, Śakta. Isto é, o próprio cânone Muktikā das Upaniṣads já apresenta as Upaniṣads como abarcando tudo ao que hoje nos referimos como hindu. E no século XVIII um vedāntino da escola Advaita chamado Upaniṣad Brahmayogin, escreveu um comentário a todas as 108 Upaniṣads desse cânone Muktikā: o sujeito está aí literalmente comentando doutrinas do período védico, doutrinas das três vertentes devocionais da forma contemporânea do Hinduísmo (Vaiṣṇava, Śaiva, Śakta), as disciplinas do Yoga antigo e medieval (Mantra, Laya, Haṭha, Raja), como se tudo isso formasse uma só canonicidade tradicional.

E o princípio por trás desses movimentos sintéticos que possibilitaram a continuidade em meio às transformações são princípios védicos de inclusivismo e substituição – que uma coisa que se pareça com outra pode substituí-la ritualmente ou simbolicamente e assim manter-se contínua com ela. Esses e outros princípios formaram uma tradição hermenêutica que trabalha numa perspectiva quase jurídica de validação das doutrinas e práticas segundo critérios da tradição revelada, da tradição lembrada, dos precedentes de pessoas exaltadas e do raciocínio. Há muita semelhança entre Mīmāṃsā (ciência hermenêutica) e o modo como a Corte Suprema dos EUA interpreta continuamente a Constituição fundadora do país, mantendo tanto continuidade quanto mudança na aplicação daquilo que é entendido como o fundamento de toda legitimidade jurídica daquele Estado.

Então há uma abundância de possibilidades seminais, bem como princípios inclusivistas, que são encravados nos Vedas, o que explica o fato de que tantos desenvolvimentos religiosos distintos se derivaram e desdobraram a partir de um ancestral védico, e que eventualmente na história vieram a ser compreendidos de forma sintética como constituindo um todo. É algo da genialidade do insight fundante da tradição védica que se aplica historicamente de várias formas, mantendo continuidade lado a lado a transformações e desdobramentos múltiplos, e que nos permite hoje legitimamente falar em ‘hinduísmo’ e entender haver uma continuidade direta entre o que hoje entendemos por Hinduísmo e o que faziam os praticantes do período védico.

CONCLUSÃO E RESPOSTA

Foi necessário realizar todo esse percurso para definir ‘hinduísmo’ e apresentar uma espécie de mapa heurístico da pluralidade compreendida por este termo, para poder responder à questão inicial sobre as melhores fontes para estudar o hinduísmo. O fato é que não existe uma resposta universal para essa questão. Há poucos livros acadêmicos que de modo satisfatório consigam fazer algo como uma introdução geral a todo esse universo do hinduísmo, e quando o fazem, o fazem de modo não religioso – isto é, não o fazem do ponto de vista de um insider. Os hindus que escrevem de um ponto de vista insider, por outro lado, raramente chegam a fazer algum tipo de introdução geral tampouco; ao invés disso, buscam escrever desde o ponto de vista de sua linhagem específica.

Portanto, por onde começar a estudar o hinduísmo depende bastante das afinidades pessoais de cada um, bem como suas aptidões e interesses. Para pessoas distintas, escolas distintas teriam maior apelo. Depende também se o interesse é de uma abordagem religiosa ou acadêmica. É uma resposta bastante individual mesmo.

Ou então, também é possível fazer uma lista de recomendações básicas acerca de cada uma das principais vertentes e escolas, listando para cada uma delas uma obra referência de caráter religioso e outra acadêmica. É uma lista deste tipo que vou propor aqui:

Literatura que busca fazer um apanhado geral do hinduísmo

Hindu Spirituality (Volume 1): Veda through Vedānta

Hindu Spirituality (Volume 2): Post Classical and Modern

An Introduction to Hinduism

Classical Hindu Thought – an Introduction

Hinduísmo Clássico

  • Veda

Introduction to Hindu Dharma

The Artful Universe – an Introduction to the Vedic Religious imagination

  • Sāṁkhya-Yoga

Classical Sāṁkhya – an Interpretation of its History and Meaning

Sāṁkhya Across the Millenniums

Yoga Sūtras com comentário de Hariharānanda Āraṇya

  • Nyāya-Vaiśeṣika

Hindu Realism

Nyāya Sūtras – selections with early commentaries

Tarka Saṅgraha Dīpikā

  • Pūrva Mīmāṁsā

Critical Essays on Pūrva Mīmāṁsā

Pūrva Mīmāṁsā in Its Sources

  • Advaita Vedānta

The Essential Vedānta – New Source Book on Advaita Vedānta

Advaita Vedānta – an Introduction

The Science of Being

  • Itihāsa/Purāṇa

Readings from the Purāṇas (Oxford Center of Hindu Studies)

Mahābhārata (versão resumida por William Buck)

Rāmāyana (versão resumida de William Buck)

Vaiṣṇavismo

  • Escola Śrīvaiṣṇava

Comentário de Rāmānujācārya à Bhagavad Gītā

Rahāsyatrayasāra (a essência do segredo trino) de Vedānta Deśika

The Philosophy of Visiṣṭādvaita

  • Escola de Madhvācārya

An Introduction to Mādhva Vedānta

Brahman – the Supreme Being in the Brahma Sūtras

  • Escola Gauḍīya

Jaiva Dharma

The Chaitanya Vaiṣṇava Vedānta de Jīva Gosvāmī

  • Tantra Vaiṣṇava (Pañcarātra)

Introduction to the Pañcarātra and the Ahirbudhnya Saṁhitā

Śrī Pañcarātrarakṣā de Vedānta Deśika

Śaivismo

  • Escola Śaivādvaita

Doctrine of Śrīkaṇṭha

The Śivādvaita of Śrīkaṇṭha

  • Śaiva Siddhānta

Śaivism in Philosophic Perspective

A triologia de Satguru Sivaya Subramuniyaswami (Dancing with Śiva, Living with Śiva, Merging with Śiva)

  • Śivaismo da Caxemira

The Doctrine of Vibration

The Doctrine of Recognition

Śiva Sūtras

Abhinavagupta – an historical and philosophical study

Śaktismo

  • Geral

The Rise of the Goddess in Hindu Tradition

Śakti and Śakta

  • Devī Mahātmyam

In Praise of the Goddess – the Devī Mahātmyam and Its Meaning

  • Śrīvidyā

The Secret of the Three Cities – introduction to Hindu Śakta Tantrism

Auspicious Wisdom – the Texts and Traditions of Śrī Vidyā Śakta Tantricism

Kāmakalāvilāsa

  • Kālīkula

Kālī – the Black Goddess of Dakṣineśwar

  • Dāśa Mahāvidyā

The Ten Great Cosmic Powers

Dāśa Mahāvidyā and Tantra Śāstra

Hinduísmo Moderno

The Gospel of Śrī Rāmakṛṣna

ADENDO: Alguém me perguntou, acerca deste texto, o seguinte: “Seria válido falar em hinduísmoS? Casos particulares de um ‘algo’ mais geral, uma identidade compartilhada, mas que não forma um -ismo (caminho) ele próprio?”

Eu acho que é válido sim. Assim como se pode falar em “Cristianismos”. Mas mantenho a possibilidade também de dizê-lo no singular para fazer referência ao que constitui a identidade compartilhada. Em certa medida nós entraríamos aqui na discussão de universais e particulares, a resposta à qual pode orientar uma ênfase distinta.