A prática (sādhanā) dos Bhairavatantras ou Tantra Śaiva não-dual segundo Maheśvarācārya Abhinavagupta, explicado por Paul Muller Ortega em seu artigo “Becoming Bhairava”. (Tradução por Danillo Costa Lima)

Os versos do Parātriṁśikā (PT) transmitem o ensinamento secreto de um mantra particular (verso ou śloka 9), o chamado mantra do Coração (Hr̥dayabīja). Eles então descrevem nos próximos sete versos, a visionária permeância da consciência do praticante pelas śaktis (poderes) que o sādhaka corteja. Tendo recebido a descida propulsora e iniciática da energia (śaktipāta) do Guru, o sādhaka que diligentemente se lembra do mantra, penetra progressivamente numa condição de absorção meditativa (samāveśa) na qual ele se depara com uma multidão de seres divinizados: as Mães (Mātr̥s), as Mestras do Yoga (Yogeśvarīs), os Heróis aperfeiçoados pela prática do ritual secreto (Vīras), os Senhores dos Heróis (Vīreśvaras), os poderosos Siddhas e as Śākinīs, como as Khecarīs. Esses seres são experimentados como habitando o corpo do sādhaka e aparecendo diante dele prontos para cumprir suas ordens, para prever o futuro, revelar o passado ou conceder qualquer desejo.
Em seu comentário sobre os versos, Abhinavagupta afirma que quando a absorção meditativa é suficientemente forte, o meditador alcança uma visão da divindade desejada, colocando o mantra conectado à divindade em sua consciência no Coração. Assim, para Abhinavagupta, a visão meditativa constitui um processo de se aproximar (ā-kr̥) ou atrair os seres divinos já residentes no corpo do sādhaka, amalgamando sua forma ou formato (ākr̥ti) a partir da consciência através do uso de um mantra. Atraída dessa maneira, a divindade aparecerá diante do sādhaka, atraída pelos Poderes de Rudra, e se tornará idêntica ao próprio corpo do praticante.
Abhinavagupta esclarece que os seres divinos se revelam porque o sādhaka se tornou Bhairava, o Senhor da Roda dos Poderes (śakticakreśvara), o kuleśvara, o Senhor do Cosmos Incorporado. O sādhaka torna-se idêntico a Bhairava que é ao mesmo tempo a consciência suprema e o mendigo nu. Essa dupla identidade de Bhairava como antropomórfico e não antropomórfico ou como sakala (a forma composta da divindade personificada) e niṣkala (a forma transcendente da consciência não-dual) circunscreve a natureza complexa e ambígua do significado da deificação para este ambiente tântrico.
Na formulação de Abhinavagupta, que enfatizou o aspecto niṣkala, mas que não exclui o sakala, essa forma intensa de sādhana meditativo representa um ritual interiorizado de adoração que se concentra na produção do néctar deleitoso (ekarasa) da não-dualidade, e combina um método de liberação com a realização de poderes sobrenaturais. No centro deste método está a noção da lembrança (smr̥): o processo de reconhecimento da anamnese pela qual o sādhaka recupera a identidade essencial e preexistente com Śiva-Bhairava.
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Aqui eu gostaria de explorar dois temas nos quais se desdobra o significado da formulação de Abhinavagupta do que estamos chamando de samāveśa sādhana. Essencialmente, pode-se dizer que o samāveśa sādhana ocorre em duas fases. Na primeira, o praticante progride na absorção em Bhairava. Ao pronunciar o mantra, o sādhaka experimenta uma interiorização progressiva que finalmente revela a realidade da consciência não-dual no estado de turīya (estado mais elevado) ou o samādhi interiormente contido (meditação profunda). À medida em que este estado é continuamente perseguido e assiduamente consolidado, há uma segunda fase do samāveśa sādhana. Em uma aparente inversão direcional, Bhairava – como a consciência ilimitada final – começa a ser absorvido nos níveis finitos da mente, dos sentidos e do corpo do praticante. Na primeira fase, a consciência não-dual está localizada na camada mais profunda do ser como o princípio transcendente, o supremo Bhairava além da sequência dos trinta e seis tattvas (princípios da realidade) – além da matriz vibratória, além do kula emergente (corpo) – significante da realidade relativa. Na segunda fase, toda a exibição de trinta e seis princípios, todo o campo vibratório, o kula-explicitado, é invadido pela consciência não-dual a tal ponto que passa a ser experimentado como flutuando de maneira indiferenciada dentro do oceano da consciência não-dual. Vejamos esses dois aspectos.
No śloka 11 do PT, é anunciada a centralidade da pronúncia do mantra. Ele diz: “Quando o mantra foi ‘pronunciado’, toda a grande multidão de mantras e mudrās aparecem imediatamente diante dele, caracterizadas pela absorção em seu próprio corpo”. Cruciais para entender o processo de samāveśa através da pronúncia (uccāra) do mantra são as ideias que cercam a noção śaiva de spanda (vida pulsante) que vê a realidade como composta por uma teia vibratória infinitamente complexa. O Śaivismo tântrico insiste que as energias vibratórias que compõem a realidade física são elas próprias manifestações condensadas da consciência suprema. A tradição Śaiva também sugere uma continuidade unificadora entre os reinos da realidade física, as atividades da percepção sensorial, e todas as formas de consciência interior. Todos são vistos como manifestações fenomenais da consciência última que existe enredada em uma complexa matriz vibratória.
Dentro do anuttara (supremo), ocorre continuamente uma pulsação sutil que não altera a quietude do absoluto. Este é o spanda que anima a consciência suprema. Empregando uma variedade de metáforas, a tradição explica spanda pelo termo sphuratta, o pulso cintilante da luz suprema que continuamente treme com sua própria incandescência inata. Em termos sonoros, o spanda é explicado como o nāda (vibração tonal), a ressonância sutil, mas poderosa, que ecoa através do supremo. Em uma importante mudança metafórica, a consciência suprema é comparada ao oceano de Soma (amr̥ta), o néctar da imortalidade fluindo em correntes ou ondas líquidas.
Em termos cosmogônicos, é o spanda primordial que manifesta continuamente a emergência do espaço e do tempo e de todos os universos visíveis. O spanda supremo libera um espectro vibratório de energias que se originam dentro do supremo (anuttara). À medida que a vibração infinitamente rápida do anuttara sistematicamente se aglutina e se condensa em vibrações progressivamente mais lentas e mais espessas, formas tangíveis e perceptíveis emergem do vazio sem forma da consciência última. Essas aparências aparentemente sólidas são chamadas de cognições (parāmarśa) e são entendidas como padrões complexos de interferência que surgem no turbilhão de energias que se misturam, criado pela interação da consciência vibratória em si mesma. De fato, na primeira parte do PTlv, Abhinavagupta se volta à explicação da matriz vibratória sônica em termos da estrutura fonêmica do sânscrito. É precisamente dentro desta ideologia de matrizes vibratórias que Abhinavagupta interpreta as śāktis originais – as mātr̥kās – como “a poderosa tropa das śākinīs” (śloka 15, PT). Assim spanda, que é a própria vida para a luz suprema da consciência unitária, anima e revela a multiplicidade de desdobramentos de fenômenos contidos na potencialidade infinita dessa luz.
Ao mesmo tempo, spanda unifica e engloba tudo o que emergiu dentro de seu abraço primordial e redobra infinitamente a totalidade manifestada de volta à luz suprema da consciência. A realidade que se desdobra/envolve é o hr̥daya, o Coração da consciência em expansão e contração, do qual todas as coisas fluem e refluem.
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Implícito no Śaivismo tântrico há uma variedade de metáforas espaciais que indicam o posicionamento relativo da atenção dentro desta matriz vibratória: “acima” e “dentro” indicam as formas mais sutis de vibração que correspondem à consciência absorvida internamente; “abaixo” e “fora” apontam para as formas mais grosseiras e condensadas do mundo físico. Do sutil mais íntimo acima, as formas externas são nutridas e sustentadas, enraizadas na vibração da fonte primordial. Conectando as formas externas à consciência última e sem forma, encontra-se a matriz vibratória ramificada, a teia de luz pulsante, ou som ressonante, ou energias de fluxo líquido, e são elas que compõem o corpo estendido da consciência do sādhaka. Assim, desde as atividades relativamente superficiais da percepção sensorial até as formas progressivamente mais sutis de consciência interior, estende-se um espectro unificado de níveis do spanda que conduz internamente até que os mais delicados e poderosos tentáculos da individualidade se fundem com a vibração infinitamente rápida da consciência última.
Todas essas ideias informam a noção da pronúncia do mantra, que leva à grande visão das śaktis e ao reconhecimento de Bhairava. Pronunciar o mantra, então, é começar a grande travessia interna desse espectro de frequências vibratórias que levará o sādhaka mais profundamente à absorção que revela a presença interior da multidão de poderes e que finalmente revela Bhairava – a suprema consciência indiferenciada – como a identidade mais profunda e autêntica do praticante.
Desta forma, na progressão tradicional de sādhana, Bhairava primeiro se torna acessível no estado enstático de turīya, que o yogi avançado estabiliza ganhando proficiência no nimīlana ou samādhi de olhos fechados. No entanto, ao contrário das noções yoguicas anteriores, para o Tântrico a jornada da consciência não termina nessa condição introvertida; na verdade, o praticante tenta atrair a consciência absoluta de seu estado auto-contido. O sādhaka deseja ativar uma felicidade dançante dentro do vazio inicial do plano da consciência pura e sem conteúdo. É claro que o comentário de Abhinabagupta sobre os versos do PT é informado, por exemplo, pelos ensinamentos do Vijñāna-bhairava-tantra (VBh), que prescreve os gestos secretos e sutis de consciência que se desdobrarão e expandirão magicamente a experiência deste samādhi contido.
O VBh exorta o yogi a estar alerta durante as situações cotidianas – ouvindo as notas de uma música, observando o fluxo da respiração ou emoções poderosas (por exemplo, medo, raiva ou grande felicidade) ou quando a vigília cede ao sono; pode ocorrer uma expansão repentina e intermitente, uma eflorescência crescente da consciência que é a manifestação de Bhairava. Como os Śiva Sūtras afirmam (I.5), udyamo bhairavaḥ (Bhairava é a expansão crescente). Assim, em seu comentário, Abhinavagupta dirige-se ao yogi avançado que cultivou um samādhi interior e contido e o incita a uma postura mais ousada de abertura à presença oculta de Bhairava que reluz dos lugares mais inesperados. A abertura iniciará a segunda fase do samāveśa sādhana. Aqui o praticante cultiva o samādhi de olhos abertos que amadurecerá na bhairavīmudrā, no qual o yogi se banha em todos os momentos na percepção da consciência ilimitada.
Assim, o samāveśa sādhana aconselha uma alternância de estados introvertidos – nos quais Bhairava é descoberto como oculto nas profundezas mais íntimas – com condições extrovertidas que revelam a descoberta da onipresença de Bhairava. Desta forma, diz-se que o sādhaka emula a pulsação essencial do rudrayāmala, da expansão e contração da díade de Rudra [e Raudrī] à medida que se abraçam no Coração da realidade.
O corpo torna-se a morada de todas as divindades, diz-nos o texto. Todos os mantras e mudrās vêm morar dentro do corpo daquele que pronuncia o mantra do Coração. Assim, neste uso a noção de corpo abrange muito mais do que o corpo físico; ela se expande para conter o conjunto das energias sutis da fala, da mente e da respiração vital que conectam o corpo físico à consciência absoluta.
(…) O kula se torna leve, diz Abhinavagupta. A estrutura opaca e limitante do corpo, respiração e sentidos é invadida pela luz em expansão do Coração. Animado e transformado pela essência vivificante da consciência (o novo significado do líquido sacrificial oferecido às Deusas), o liberto torna-se Bhairava encarnado em quem até as atividades dos sentidos e do corpo são radicalmente despertadas e divinizadas.
Assim, na interpretação de Abhinavagupta, samāveśa refere-se à apreensão interior da Śakti que abre o sādhaka a um estado de identidade com Bhairava. Ao unir-se com a Deusa, diz-se que o sādhaka “nasce do Coração da Yoginī”, isto é, renasce como Bhairava. Tomado em uma série de experiências macrantrópicas, o sādhaka realmente incorpora o cosmos. Nesse estado, a capacidade de experimentar objetos finitos não é perdida; em vez disso, os objetos agora são corretamente percebidos como “luminosos com o jogo que confere a fragrância do Si-mesmo”. O espanto dessa experiência envolve a descoberta de Bhairava como a verdadeira identidade interior e a percepção desconcertante de que essa consciência indiferenciada está simultaneamente em jogo como uma luminosidade inerente a todos os objetos externos. Desta forma, o jīvanmukta (o liberado) “se move no Coração”, “move-se no vazio” e experimenta todas as coisas como estando dentro da realidade onipresente do Coração de Bhairava. O desperto está cercado por Bhairava por todos os lados. O que antes era percebido e impropriamente avaliado como objetos separados e finitos (incluindo o corpo, os sentidos e a mente) agora revelaram seu verdadeiro status como o próprio Bhairava. Cumprindo o significado de bhukti (prazer) e mukti (libertação), o siddha (aquele com poderes supranormais) habita neste estado feliz da consciência não-dual englobante e abrangente.
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São afirmações curiosas que parecem indicar um movimento na direção da transcendência da necessidade de um ritual elaborado. Neste contexto particular, pelo menos, a necessidade de rigor e o complexo ritual do Tantra Hindu parecem ser obviados. No entanto, no próprio PTlv uma seção inteira do comentário é dedicada a uma descrição dos procedimentos rituais (vidhi), incluindo sacrifício (yāga, yajana), adoração (pūjā) e oblação (homa). Em seu comentário sobre esta passagem, Abhinavagupta se concentra quase exclusivamente na noção de apropriação (svīkaraṇa). Para ele, o significado do ritual é que ele envolve um processo de redução dos constituintes externos do ritual a um estado de identidade com a realidade última do Coração.
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O ritual tântrico é aqui revelado como um mecanismo para estimular a produção da forma fluida da consciência que ultrapassa os níveis finitos e os transforma no que já são em essência – a consciência suprema. Para cumprir este propósito esotérico do ritual, o herói tântrico (vīra) já deve ter recebido a śaktipāta iniciática que desconstrói sua consciência. Abhinavagupta afirma que somente quando a contração do eu finito (aṇu) cessou é que o vīra está totalmente qualificado para realizar, em seu sentido mais verdadeiro, o ritual. Assim, em um sentido geral, esses rituais servem ao vīra como um estágio que estende sua visão interior da unidade de todas as coisas dentro de Bhairava-que-é-consciência. É precisamente apropriando-se de todas as coisas ao Coração que a visão da unidade interior se estende para fora. Nesses rituais, o vīra encontra uma arena para solidificar a visão unitiva adquirida durante a absorção meditativa e para estender e expandir essa visão interna de unidade para incluir todos os constituintes externos do ritual. O ritual serve como um contexto dentro do qual o vīra eventualmente atingirá a forma avançada de realização meditativa conhecida como samādhi extrovertido (unmīlana samādhi).
Como resultado, no sādhana tântrica descrita por Abhinavagupta, a relação de meditação e ritual parece ser de interdependência simbiótica. A prática bem-sucedida de um aprofunda e potencializa o desempenho do outro. Alimentando-se sinergicamente uma da outra, as duas asas da prática tântrica, externa e interna, avançam o vīra ao longo do caminho do sādhana. Ao fazê-lo, ritual e meditação convergem, fundindo-se um com o outro, até que a fronteira entre as duas categorias desapareça e a distinção entre práticas externas e realizações internas se esfume.
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Para alcançar a condição de Bhairava, o siddha emprega meditações ritualizadas e rituais meditativos que servem como arenas para manifestar o estado de identificação com Bhairava. Essas práticas tornam-se o contexto dentro do qual o siddha exerce e testa a autenticidade da obtenção dos poderes de manifestação, manutenção e reabsorção do universo.
Assim, Abhinavagupta descreve a prática de uma absorção sutil em duas fases que consiste em uma alternância repetida entre uma contração de deglutição do universo manifestado na consciência testemunha silenciosa e a expansão da liberação do universo outra vez desse vazio da consciência. Descrevendo a estrutura essencial do sādhana tântrico e a postura daquele que permanece em Bhairava, a bhairavīmudrā, Abhinavagupta diz:
“Dessa forma, toda a multidão de caminhos é dissolvida sem esforço na grande roda de Bhairava que está contida na consciência, grande roda que gira e é o transbordamento do verdadeiro Eu. Por causa da dissolução de tudo o que poderia ser queimado, e por causa da destruição até mesmo das impressões latentes restantes, o praticante deve meditar nessa roda como se tornando calma, depois como pacificada, então como a própria quietude tranquila. Por este método de meditação, todo o universo é dissolvido na roda, nessa consciência. A consciência então brilha sozinha, livre de objetos. Então, por causa da natureza essencial da consciência, a manifestação ocorre novamente. Essa consciência é a grande Deusa. Continuamente fazendo com que o universo seja absorvido em sua própria consciência, e continuamente emitindo-o novamente, o praticante se torna o eterno Bhairava.”
Assim, é na relação dialética entre meditação e ritual, na repetida alternância entre as práticas internas e externas, que o samāveśa sādhana se move em direção ao seu objetivo unificador.
O Tantra Hindu gera e funciona dentro de numerosas e poderosas oposições: pureza e impureza; popular e elitista; alto e baixo; interno e externo; forma e sem forma; ritual e meditação; possessão e absorção yoguica; dharma e adharma; o secretamente transgressor e o abertamente conformista; a busca de bhukti e mukti; a busca de kāma e mokṣa; os estados de ordem e desordem; para citar apenas alguns. A condição da divindade encarnada, o estado deificado da bhairavīmudrā, busca precisamente superar essas múltiplas oposições.
Diz-se que aquele que experimenta a iluminação incorporada habita na bem-aventurança universal (jagadānanda) enquanto permanece na postura espiritual na qual a consciência é completamente introvertida e completamente extrovertida. A postura descreve o estado que alcança a iluminação incorporada, o jīvanmukta. Descreve a degustação do néctar da bem-aventurança de Bhairava que é descoberta pelo jīvanmukta nas profundezas mais íntimas e nos limites mais externos da experiência sensorial. De fato, a bhairavīmudrā é importante porque representa a extensão mais completa possível da consciência. Nesta condição, o que o jīvanmukta saboreia nas profundezas da consciência é idêntico ao que é encontrado como a essência de todas as experiências sensoriais do chamado mundo objetivo. Usando os métodos do Tantra, o praticante encontra uma maneira de atrair a pulsação divina da consciência para se revelar em todos os momentos, em todas as experiências e em todas as circunstâncias.
