UM OU MUITOS DEUSES? Um ensaio sobre a teologia védica (Parte 4)

Na postagem passada vimos o conceito de brahman em sua complexidade polissêmica no corpus védico, culminando no paradigma vedantino. Vimos que brahman é o poder da palavra sagrada que jaz em ṛta e dela flui, o mantra, potência de conhecimento e ação que institui nome-e-forma ou individuação na criação, teologicamente encarnado na deusa Vāk. Vimos que brahman é também a mente, o vidente desse mantra e o agente do seu emprego sacrificial na ordenação do universo, teologicamente encarnada em Puruṣa-Prajāpati. Mente-palavra infinito, indivisível, silencioso constitui o domínio da transcendência imanifesta; mente-palavra finita, divisível, pronunciada constitui o domínio da imanência manifesta. Além disso, brahman é a sapiência conectiva da palavra que desvela laços de homologia, semelhança e participação entre os seres de distintas ordens da realidade; bem como a mente em que essa sapiência conectiva se fixa, o seu fundamento ontológico. Atando o imanifesto e o manifesto, brahman é também o divino soberano que, por seu mágico poder caleidoscópico, é uno e múltiplo, a forma de todas as contraformas, o “protótipo” refletido que habita o cerne de todos seus reflexos ou imagens como sua verdade originária. E por fim, brahman é a essa presença do princípio de tudo no coração do ser sensciente, o prodígio ou tesouro dourado do seu si-mesmo, cuja encarnação ritual é o sacerdote brahman.

Comentei também como, deste modo, todas as visões sapienciais sobre a realidade e o divino tenderam a confluir tradicionalmente no conceito de brahman, que predomina como o indicador por excelência de tudo o que é divino e sagrado. E a polivalência deste conceito, as suas múltiplas camadas de sentido, nos permitem vislumbrar a unidade do conteúdo das várias camadas dos Vedas e das disciplinas espirituais a elas associadas. Comentei como as diversas fases do modo de vida e do treinamento espiritual dos brâmanes espelha as várias camadas da conceituação de brahman: um modo de vida que envolve o ritual (ação corporal), a recitação de mantras (ação verbal) e as meditações nas equivalências simbólicas entre si e os deuses (ação mental), que são disciplinas em que se atenta ao brahman enquanto poder do ritual, poder do mantra, fundamento das homologias universais. Mais além, há as disciplinas de atenção ao brahman através do cultivo do insight da presença auto-luminosa, infinita e quiescente que, revelada no conhecimento do divino si-mesmo (daivātman) mais profundo, revela-se ser o fundamento incriado de tudo. Em todas essas disciplinas o brahman é o objeto da atenção e adoração, a essência de tudo o que é divino e sagrado.

Vimos também que o mundo dos mantras védicos compreende muitas dimensões e aspectos – como adhidaiva (referente à ordem do divino), adhiveda (referente à ordem dos textos sagrados), adhiyajña (referente à ordem do sacrifício), adhibhūta (referente à ordem do mundo objetivo), adhyātma (referente à ordem objetiva). Mas a constituição mesmo dessas ordens de sentido e a condição de sua mútua participação horizontal depende do Si-mesmo (ātman) único que é o habitante e governante interno de todas essas ordens. Todo o pensamento védico circula ao redor da realidade fundamental e universal, o ‘ekam sat’ (o Ser Uno), que assume múltiplas formas para os propósitos de devoção, contemplação ou visão; do mesmo modo, o corpus védico tem o Si-mesmo como seu núcleo adimensional. O que a Vedānta quer é que deixemos a periferia e entremos nesse centro.

Vimos como na abordagem hermenêutica vedantina da escola dualista, o Veda aporta três níveis distintos de sentido e adoração, em que nos atentamos primeiro à multiplicidade de divindades particulares, depois à divindade suprema tal qual habitando internamente aquelas divindades, e por fim às divindades particulares como constituindo nossa própria psique, e a divindade suprema como presidindo sobre o núcleo da nossa subjetividade como governante interna e protótipo de que somos imagem. Vimos também como na abordagem da escola não-dualista esse mesmo princípio da adoração do Uno através do múltiplo é apresentado, bem como o princípio da exaltação que recusa a redução do Uno ao múltiplo que lhe serve como suporte na adoração.

Em toda esta leitura da abordagem vedantina busquei manter viva a visão de como o papel da linguagem sagrada é fundamental na articulação desses níveis de sentido e prática. Comentei, por exemplo, como no sânscrito não há letras maiúsculas e minúsculas, o que facilita com que uma dada palavra seja lida como nome ou adjetivo: deste modo, aquilo que numa camada de sentido significa os nomes próprios das divindades particulares, noutra camada significa modos adjetivais de uma mesma divindade suprema. É precisamente este ponto que quero abordar neste texto atual, em duas fases: primeiro, na formulação de uma teologia dos nomes divinos; segundo, na apresentação da questão acerca da relação entre as divindades individuais ou entes dotados de jīvatva; e as divindades identificadas com brahman ou dotadas de brahmatva. Situarei ambas as questões no Brahma-Sūtras (na hermenêutica vedantina dos Vedas, portanto), depois introduzirei a passagem do hinduísmo védico ao pós-védico, e então tratarei das respostas que este último dá àquelas questões. Entre essas duas fases, introduzirei a passagem do hinduísmo védico para o hinduísm

SITUANDO A TEOLOGIA DOS NOMES DIVINOS NO BRAHMA-SŪTRAS

Como foi visto nos textos anteriores, o universo, consistindo dos deuses e demais seres, é originado das palavras do Veda, as quais emergem como visão interna na mente do criador, que posteriormente as enuncia no ato criativo. Enquanto tal, os mantras védicos são palavras eternas, incriadas. O Brahma-Sūtras reafirma esta doutrina nos versos 1.3.28-30, e busca defendê-la da seguinte acusação de contradição: sendo os deuses entes inseridos de algum modo no devir cósmico, e portanto em alguma medida impermanentes, não seria o caso que as palavras védicas que os designam também seriam impermanentes, refutando assim a eternalidade do Veda? A resposta do Brahma-Sūtras, tal como interpretada pelo comentador Śaṅkara, é pautada na compreensão filosófica de que as palavras significam primariamente um universal, e apenas quando inseridas num contexto significam um particular. Assim, as palavras védicas são eternas porque significam eternamente os universais que são nelas compreendidos, os quais são eternos; e apenas circunstancialmente é que se referem aos particulares mutáveis. Deste modo, como comenta Śaṅkara (no verso 1.1.28), “ainda que seja admitido o nascimento e morte dos deuses individuais, ainda assim suas características distintivas gerais não têm início.”

Deste modo, admite-se que o panteão dos deuses é, por um lado, como uma hierarquia de postos ou cargos, por assim dizer, que em eras distintas e mundos distintos são ocupados concretamente por indivíduos ou entes divinos distintos, que permanecem nessa função enquanto durar a potência acumulada que os qualificou para tal ou até que se elevem à libertação no imanifesto. No entanto, as características ou qualidades que caracterizam cada uma dessas funções, e o panteão em geral, são eternas: e é a esse aspecto eterno que os nomes divinos e as palavras védicas se referem primariamente. O comportamento e as qualidades compreendidas nos nomes divinos não têm descontinuidade em sua aplicação ao longo do tempo, ainda que os indivíduos que as encarnam e exercem sejam distintos em cada ciclo cósmico, pois mesmo a dissolução universal que finaliza um ciclo e precede o outro só dissolve a totalidade dos comportamentos empíricos particulares, mas não o poder latente da criação. Neste último se mantém intacto o padrão universal dos nomes e das palavras védicas como a sabedoria divina eterna,o que permite que numa próxima emergência do universo este continue a ser ordenado de modo que haja continuidade de sentido das palavras védica. Assim, deuses individualmente distintos em eras e mundos distintos encarnam as mesmas qualidades e comportamento que são designados pelos nomes divinos.

Também Ānandatīrtha concorda em princípio com a leitura que Śaṅkara faz desses versos do Brahma-Sūtras, embora enfatizando menos a questão do universal e do particular na linguagem. Ele diz em seu comentário a esses versos (1.1.28-30):

“… se os deuses mencionados nas escrituras não são eternos, e se a sucessão de outros indivíduos às várias fileiras dos deuses que entram no céu pode não ser uma regra invariável, há uma clara contradição ao dizer que as escrituras são eternas, enquanto as coisas mencionadas nas escrituras não são eternas. Essa contradição realmente não existe, pois, como evidenciado pelo texto: ‘O criador fez o sol e a lua como antigamente’ (Manu Smṛti, 1,38). ‘Assim como a regra é observada na revolução do tempo (ou seja, as mesmas eras [satya, treta, dvapara, kali yugas], etc., sucedendo-se na mesma ordem), do mesmo modo a regra se aplica exatamente à sucessão dos deuses, etc; portanto o mundo que procede do Senhor nunca será diferente deste (em características gerais)’. Os deuses se sucedem, sob a autoridade desta (escritura). Isso é uma questão de percepção direta para os grandes; outras pessoas também inferem que haverá deuses no futuro, como existe agora (e como existia no passado). (…) Pela mesma razão, ou seja, pela razão de a Palavra ser eterna, também é correto admitir a eternidade da série dos deuses (que regularmente se sucedem). (…) A contradição desaparece, pois, embora os deuses anteriores ao obter a libertação devam desocupar seus respectivos lugares, os deuses que antes ocupavam ou que agora ocupam ou que irão ocupar no futuro são sempre da mesma (descrição) em nome e forma, em suas respectivas estações. Pois o texto diz, ‘como antigamente, etc’. ‘No começo, por (…) (Brahman), a Palavra eterna que não tem começo nem fim foi revelada. O grande Senhor no princípio designou para os deuses, etc, os mesmos nomes e as mesmas formas das palavras das escrituras pelas quais eles são descritos.’”

Assim se explica com mais clareza o quadro em que os mesmos nomes divinos podem ser vistos de dois ângulos distintos, como foi dito no texto anterior: enquanto universais e eternos, esses são nomes adjetivais de Brahman; enquanto particulares e contextuais, são nomes próprios de entidades divinas individuais que encarnam as características daquele nome para um determinado mundo ou era. Temos aqui os princípios de uma teologia dos nomes divinos, que em certos aspectos se assemelha àquela que é desenvolvida no seio das três religiões abraamicas. Retomarei este assunto mais adiante.

SITUANDO O PROBLEMA DE BRAHMATVA E JĪVATVA NO BRAMA-SŪTRAS

Havíamos visto no texto anterior que é legítimo adorar ao supremo Brahman por intermédio dessas divindades que manifestam alguma parcela de seu esplendor e qualidades, isto é, que manifestam os seus nomes; e, ainda, que há uma hierarquia dentre essas divindades, relativamente ao nível em que manifestam o esplendor de Brahman. Vimos também uma citação de Śaṅkara em que ele explica como nessa adoração deve-se sobrepor os atributos do supremo Brahman à divindade venerada pelo princípio de exaltação – tal como alguém respeita o cocheiro do rei como se fosse o próprio rei –, sem que se reduza Brahman àquela divindade – tal como não se deve reduzir o rei ao cocheiro. Isso é uma indicação referente a um modo misto de adoração e veneração das deidades: em que, tendo a divindade individual diante de mim, ofereço a ela a adoração como se estivesse oferencendo-a ao Supremo, como se essa divindade fosse o Supremo – tal como na vida humana ofereço veneração à minha mãe como se fosse a Mãe Divina, e ao guru como se fosse o Supremo Onisciente. Esse é o modo apropriado de oferecer veneração a qualquer ente individual que não seja Brahman: venerando-o como veículo de Brahman, e assim exaltando-o a uma identidade com o próprio Brahman – ainda que Brahman não se identifique com esse ente.

De fato, em determinados textos sagrados vemos entes divinos individuais apresentarem-se como Brahman e o objeto supremo da adoração em primeira pessoa. O Brahma-Sūtras (1.1.28-31) trata também desta questão, adotando como o loco da discussão uma passagem do terceiro capítulo da Kauṣītaki Upaniṣad do R̥gveda, em que o sábio Pratardana, através de sua ascese, conquista a bênção da visão direta de Indra. Este, por sua vez, se apresenta ao sábio dizendo-se, em primeira pessoa (“eu sou”), ser o Supremo Brahman e o objeto supremo da adoração. Como vimos nos textos anteriores desta série, no período védico Indra de fato era concebido como a forma soberana de brahman ou Prajāpati; mas na tradição posterior ele já se encontra reduzido a uma entidade individual inferior, e essa a visão do Brahma-Sūtras a seu respeito. Portanto, a questão é: se Indra é apenas um ente individual, o que justifica que ele se apresente em primeira pessoa daquela forma?

Mesmo adotando posições filosóficas e teológicas bastante distintas entre si, os mais diversos comentadores ao Brahma-Sūtras (como Śaṅkara, Rāmānuja, Ānandatīrtha, Śrīkaṇṭha, Baladeva)estão fundamentalmente de acordo na resposta a esta questão, que é mais precisamente elaborada no verso 1.1.30 (1.1.31 no comentário de Rāmānuja). A ideia geral seria que o supremo Brahman sendo o habitante e governante interno de todos os seres, o sábio que realiza a sua presença no cerne da sua subjetividade descobre que, tal como os nomes divinos, também a palavra “eu” se refere em última instância ao Brahman, e apenas secundariamente ao ente individual. Um vedantino dualista postula a diferença ontológica entre o ente individual (enquanto ser dependente) e Brahman (enquanto ser independente), rejeitando a identidade ontológica entre eles; deste modo, entende que o primeiro depende do segundo mesmo para dizer “eu”. Esse “eu” refere-se ao próprio ente individual, mas na medida em que indica a presença interna do Supremo que o capacita a ser sujeito, também pode indicar, noutra camada de sentido, o próprio Supremo. Assim, o iluminado pode anunciar o Supremo em primeira pessoa, como o “Si do seu si”, como se o seu próprio “eu” fosse um corpo habitado pelo espírito divino que é Brahman. Naturalmente, para o não-dualista o ente individual não tem um “si” que lhe seja próprio senão no domínio da aparência.  

Neste sentido, que uma entidade divina individual se anuncia como o Supremo em primeira pessoa é indício de sua condição iluminada, que reconhece-O como o “Si do seu si”, seu habitante e governante interno. Cito aqui o comentário de Rāmānuja a este verso do Brahma-Sūtras (1.1.31), por ser bastante claro e elucidativo (lembrando, aqui, que ele não pertence a uma corrente não-dualista como a de Śaṅkara):

“Este ensinamento, que, nas declarações – ‘Conheça a mim apenas’ (Kauṣītaki Upaniṣad 3.1) e ‘Adore a mim’ (ibid.), é dado no sentido de que seu próprio ‘si’ é o Brahman que deve ser adorado, não é derivado do autoconhecimento obtido de outros meios de conhecimento (que não as escrituras), mas, ao contrário, é o resultado do autoconhecimento derivado das próprias escrituras. De acordo com as seguintes e outras passagens semelhantes, a saber: – ‘Entrando junto com esse eu individual, que é (também) o mesmo que Eu, evoluo as diferenciações de nome e forma’ (Chāndogya Upaniṣad, 6.3.2), ‘Tudo isso tem Aquele como seu si-mesmo’ (Chāndogya Upaniṣad, 6.8.7), ‘Aquele que entrou (no interior dos seres) é o governante de todas as coisas que nascem e é o Si de todos’ (Taittirīya Āraṇyaka 3.21), ‘Ele que, residindo no eu, que está dentro do eu, a quem o eu não conhece, cujo corpo é o eu e que internamente governa o eu’ (Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, 3.7.22), ‘Ele é o Si-mesmo interno de todos os seres, Ele é desprovido de pecado, Ele é o Senhor Divino, Ele é Nārāyaṇa’ (Subāla Upaniṣad, 7.1), ele (ou seja, Indra) tinha em mente que o Si Supremo possui o eu individual como Seu corpo, e sabia também que as palavras ‘eu’, ‘tu’ e outras que denotam o eu individual incluem o próprio Si Supremo dentro de seu sentido; e além disso, por meio das declarações das escrituras – ‘Conheça a mim apenas’ (Kauṣītaki Upaniṣad 3.1) e ‘Adore a mim’ (ibid.), ele ensinou que ninguém além do Ser Supremo, que tem (Indra) como Seu corpo, é o objeto de adoração. ‘Como no caso de Vāmadeva’. Ou seja, (o r̥ṣi) Vāmadeva percebeu que o Mais Alto Brahman forma o Si interno de todas as coisas e que todas as coisas formam o Seu corpo, e que aquelas palavras que denotam as encarnações incluem o encarnado em seu sentido; e então ele indicou o Brahman Mais Alto que tem a si mesmo (isto é, Vāmadeva) como seu corpo pela palavra ‘Eu’; e (por último) ele ensinou, com a ajuda de uma equação gramatical com isso (‘eu’), que ele (ele próprio) era Manu, o Sol, etc. (…). E (o devoto) Prahlāda também diz a mesma coisa: ‘Como o Infinito habita internamente em todos, ele também constitui meu ‘eu’; todas as coisas procedem de mim, eu sou todas as coisas e todas as coisas existem em mim que sou eterno’ (Viṣṇu Purāṇa, 1.19.85).”

Ora, esta abordagem termina por abrir um leque de possibilidades. Porque, por exemplo, Vaiṣṇavas em geral consideram que Kṛṣṇa, que anuncia-se em primeira pessoa como a Divindade Suprema na Bhagavad-Gītā, de fato é Brahman; mas alguns Śaivādvaitins entendem que Kṛṣṇa é um indivíduo (jīva) que está ali proclamando sua realização de Brahman, que na verdade é Śiva. De modo similar, alguns Vaiṣṇavas interpretam alguns textos que louvam a supremacia de Śiva como se tratando de um louvor a Viṣṇu na condição de governante interno do ente individual que é Śiva.

Então afinal, as divindades são todas apenas entes individuais (jīvas)? Ou pode ser também que alguma(s) seja(m) o próprio Brahman? Caso a resposta para essa última seja positiva, quais são essas divindades e quantas elas são? Essa é uma problemática teológica que poderíamos traduzir, seguindo um uso da terminologia heideggeriana feita por Henry Corbin, por: uma divindade ter a natureza do Ser (brahmatva) ou ter a natureza de um ente (jīvatva). Para responder a essas questões, precisaremos antes realizar a transição do hinduísmo védico para o clássico e medieval.

O HINDUÍSMO PÓS-VÉDICO

A composição do corpus védico (incluindo aqui as Upaniṣads mais antigas), segundo a datação acadêmica ocidental, ocorre entre cerca de XV a.C. e III a.C. Por volta do final deste ciclo, o corpus já se encontra completo e fechado, com exceção da porção upaniṣadica que viria a continuar recebendo novas adições até o final do período medieval. Por volta do século III a.C., portanto, já temos toda uma vasta tradição de hinos sagrados, ritos hieráticos, práticas contemplativas e meditações sapienciais que compõem o hinduísmo védico. Emergiram nessa fase de consolidação da tradição védica os grandes épicos (itihāsas): o Mahābhārata e o Rāmāyaṇa, que encarnam profundas contemplações da vida humana e dos seus valores a partir da ótica dessa tradição.

Além disso, nesse mesmo período, temos a maturação dos textos mais antigos dos Vedāṅgas, Upavedas e Upaṅgas, que formam o conjunto das ciências auxiliares ao Veda. Nestes, temos as primeiras mostras da maturação das formas de racionalidade hindu: através das ciências como o Nirukta, que se dedicavam a interpretar os textos sagrados, temos o desenvolvimento da racionalidade hermenêutica (mīmāṁsā), cujas formulações mais antigas conhecidas são as de Yāska (VI a.C.) e Jaimini (c. III a.C.); através das ciências linguísticas, o desenvolvimento da racionalidade gramatical (vyākaraṇa), cuja formulação mais antiga conhecida é a de Pāṇini (c. V a.C.); como desenvolvimento formal das discussões sagradas védicas (brahmodyas e vākovākya), temos o desenvolvimento da racionalidade lógica (nyāya) e dialética (tarka), cuja formulação mais antiga conhecida é a do Nyāya-Sūtras, que tem, da perspectiva acadêmica, suas porções mais antigas atribuídas a Akṣapāda Gautama (c. VI a.C.) e as mais recentes a revisores entre os séculos V e II a.C. A partir do desenvolvimento dessa tríplice forma de racionalidade, emergem diversas escolas de pensamento (darśanas) que a aplicam na defesa e fundamentação argumentada de teses. Aquelas escolas de matriz védica viriam a se desenvolver dialeticamente ao longo dos séculos, em debates entre si e com os adversários extra-védicos, formando as conhecidas seis escolas clássicas (algumas das quais são dotadas de sub-escolas): Nyāya, Vaiśeṣika, Sāṁkhya, Yoga, Pūrva Mīmāṁsā e Vedānta. Haveriam ainda outras muitas escolas que se consolidariam no período medieval, pós-clássico, a partir dos inúmeros desenvolvimentos conceituais herdados daquelas seis.

Mas paralelo a essa consolidação da tradição védica, emerge também o formato pós-védico da tradição hindu: uma explosão de correntes devocionais (bhakti) que adotam e desenvolvem a concepção e o culto de algumas divindades do panteão védico em conjunção com tradições regionais do subcontinente indiano. Aqui inúmeras vertentes religiosas começam a se desenvolver, compreendendo desde suas expressões mais populares no vernáculo às expressões de ‘alta cultura’ sânscrita. Todas essas vertentes desenvolvem-se de forma relativamente autônoma, mas o fazem a partir das concepções do divino, da metafísica, da cosmologia, da linguagem, da alma, dos fins soteriológicos, do sacrifício e das práticas espirituais do vasto repertório da tradição védica. Essas vertentes não apenas se apropriam daquele repertório e nele se baseiam, mas também o traz muitas linhas de aprofundamento, explorando e levando às últimas consequências as suas sementes. Com esta passagem, muitas transformações rituais profundas ocorreram, bem como desdobramentos teológicos e filosóficos profundos.

Barbara Holdrege, em sua obra “Bhakti and Embodiment – Fashioning Divine Bodies and Devotional Bodies in Kṛṣṇa Bhakti” (pp. 49-53), oferece uma excelente caracterização da emergência deste formato da tradição hindu. Trago aqui uma longa citação das páginas supracitadas desta obra, por sua enorme relevância e didática:

“O período entre 200 a.C. e 200 d.C. marca a transição do período védico para o período pós-védico, no qual emergiu uma nova síntese bramânica – aquela ‘federação de culturas popularmente conhecida como hinduísmo’ -, que tentou reunir e reconciliar diversas vertentes de pensamento e prática indianas. Embora certas correntes proto-bhakti possam ser encontradas nas tradições védicas, é apenas no período entre 200 a.C. e 200 d.C. que vemos o surgimento de movimentos populares de bhakti. A corrente bhakti, cujas correntes subterrâneas talvez estivessem reunindo forças há séculos, subitamente explode em certas áreas do subcontinente indiano nos últimos séculos antes da Era Comum, encontrando expressão no surgimento de movimentos devocionais sectários centrados nas divindades Viṣṇu e Śiva e no surgimento do vernáculo multiforme tradições que veneram uma panóplia de deusas no nível da vila local.

“A mudança histórica das tradições védicas para as tradições bhakti pós-védicas é acompanhada por uma mudança de noções abstratas, translocais de divindade para noções particulares, localizadas de divindade e uma mudança correspondente de tradições anicônicas para icônicas e de arenas de sacrifício temporárias para locais de templo estabelecidos. R. K. Ramanujan forneceu um encapsulamento eficiente de vários recursos que definem essa mudança histórica:

“‘A mudança (das tradições védica para bhakti) é paralela a outras mudanças religiosas: do não-icônico para o icônico; do não-local para o local; dos rituais de fogo de sacrifício (yajña e homa) destinados a serem realizados apenas por especialistas védicos para a adoração (pūjā) por quase todos; de rituais nos quais uma parcela de terreno é temporariamente isolada e transformada em espaço sagrado por especialistas em um ritual de consagração, a adoração em templos, localizados, nomeados, abertos a quase toda a sociedade hindu. Essas mudanças são acompanhadas de uma mudança da divindade absoluta, o brahman impessoal das Upaniṣads, para os deuses das mitologias, com rostos, tez, famílias, sentimentos, personalidades, personagens. Os poemas de Bhakti celebram deus como local e translocal, e principalmente como o nexo dos dois.’

“Eu argumentaria que as várias transformações que caracterizam essa mudança histórica das tradições védicas para as tradições bhakti pós-védicas são uma conseqüência direta dos discursos do corpo recém-emergentes nas tradições bhakti, nas quais proliferam construções da personificação divina, celebrando a noção de que uma divindade, embora permaneça translocal em sua natureza essencial, pode aparecer em múltiplas formas corporais e assumir vários tipos de presença concentrada em diferentes épocas e localidades em diferentes planos de existência. Essas novas construções da encarnação divina podem ser distinguidas das formulações védicas anteriores de sete maneiras.

Corpos Divinos Particularizados. Em contraste com os textos védicos, que fazem alusões formulaicas aos corpos de deuses e deusas, enquanto evitam descrições individualizadas de suas formas corporais, as tradições bhakti desenvolvem descrições elaboradas e particularizadas dos corpos das deidades. O surgimento das tradições bhakti é acompanhado pela elaboração de tradições iconográficas e mitológicas, nas quais cada uma das principais divindades se associa a um repertório padronizado de formas particularizadas, com posturas, gestos e emblemas distintos.

Encarnação do Divino no Tempo. O surgimento das tradições bhakti é acompanhado pelo desenvolvimento de noções pós-védicas de ‘descendência divina’ – designadas pelos termos avatāra, avataraṇa ou outras formas substantivas derivadas da raiz tr̥̄ + ava, ‘descender’ – na qual certas divindades são representados como descendendo de suas moradas divinas para o reino material periodicamente e encarnando-se em formas manifestas – sejam divinas, humanas, animais ou híbridas – em diferentes ciclos cósmicos.

Encarnação do Divino no Lugar. Nos yajñas védicos, uma arena de sacrifício é temporariamente isolada e divindades particulares são invocadas para se tornarem presentes no local do sacrifício e receber as oblações oferecidas no fogo sacrificial, após o qual as divindades são convidadas a partir e a arena de sacrifício é destruída. Em contraste com as construções temporárias do espaço sagrado e as noções translocais de divindade associadas às tradições védicas, as tradições bhakti promovem discursos e práticas locativas centradas em locais sagrados, ou tīrthas (da raiz tr̥̄, ‘atravessar’), que funcionam como ‘ locais de travessia’ nos quais as divindades se incorporam em locais específicos. Como contrapartida da noção de avatāra, o conceito de tīrtha abrange os múltiplos lugares da Terra para os quais as deidades descendem de suas moradas divinas, assumindo formas localizadas em caracterizações geográficas específicas, como rios, montanhas, florestas, afloramentos rochosos e cavernas, ou infundindo sua presença divina na paisagem de uma região inteira. Tīrthas, como centros de presença divina concentrada se associam com divindades particulares, são representados de várias formas como manifestações da divindade, partes do corpo da divindade, moradas especiais (dhāmans) da divindade ou locais do jogo divino da divindade (līlā). As comunidades bhakti desenvolvem uma variedade de meios para visivelmente marcar lugares como sagrados – em particular, através da construção de estruturas arquitetônicas, como templos e santuários, para marcar os locais de presença divina e, depois, investir essas estruturas construídas no status de tīrthas. Além disso, à tīrthayātrā, peregrinação a tīrthas, é atribuída primazia no complexo emergente das práticas de bhakti como uma alternativa ritual aos yajñas védicos, que é, em princípio, aberta às pessoas em todos os níveis da hierarquia sociorreligiosa.

Encarnação do Divino na Imagem. Em contraste com a orientação anicônica da tradição védica, nas tradições bhakti a noção de avatāra, descendência divina no tempo, e a noção de tīrtha, instanciação divina no lugar, convergem em concepções de encarnações de imagens nas quais imagens rituais (mūrtis ou arcās) são reverenciadas como modalidades localizadas da divindade.

Encarnação do Divino no Nome. Concepções védicas da linguagem, nas quais os nomes (nāmans) contidos nos mantras védicos são considerados correlatos sonoros que contêm a essência e a estrutura sutis das formas (rūpas) que eles significam, são estendidos e reformulados nas formulações bhakti relativas aos nomes (nāmans), nos quais o nome é exaltado como a forma sônica da divindade.

Encarnação do Divino no Texto. Construções védicas das escrituras, nas quais o corpo do criador Prajāpati ou o corpo de Brahman-Ātman são constituídos pelos mantras védicos, são apropriadas e reinterpretadas nas tradições bhakti com referência aos seus próprios textos sagrados. Em certas reformulações de bhakti, a divindade é celebrada como encarnada em uma variedade de diferentes tipos de textos sagrados, variando de textos sânscritos smṛti que imitam o paradigmático Veda a hinos vernaculares que são reverenciados como encarnações da divindade. Além disso, a noção de encarnação divina se estende além dos textos orais para incluir também textos escritos, nos quais o livro concreto é visto como uma forma encarnada da divindade que deve ser adorada em conformidade.

Encarnação do Divino em Forma Humana. As tradições bhakti promovem uma variedade de noções em que a divindade assume uma forma corpórea no corpo humano. Em tais concepções, certos seres humanos – em particular, gurus realizados, santos poetas e bhaktas exaltados – são reverenciados como encarnações localizadas da divindade. A divindade também é considerada como descendendo e tornando-se temporariamente instanciada em corpos humanos específicos através de uma variedade de práticas corporificadas, incluindo posse ritual, dança e performances dramáticas.

“Essa constelação de noções pertencentes aos corpos divinos – juntamente com as práticas associadas através das quais os corpos devocionais são constituídos em relação a esses modos de encarnação divina – é configurada de várias maneiras nas primeiras tradições bhakti. Várias dessas noções e práticas são encontradas de forma incipiente no Mahābhārata (c. 200 a.C. – 100 d.C.) – o primeiro trabalho sânscrito a alocar um lugar significativo para bhakti – e são mais cristalizadas e expandidas no Harivaṁśa (c. 200 d.C.), o apêndice aos Mahābhārata e no início dos Purāṇas que derivam do período Gupta (c. 320 – 550 CE). Certas tradições épicas e purânicas pertencentes a esses vários modos de encarnação divina são, por sua vez, seletivamente apropriadas e reimaginadas nos primeiros movimentos completos de bhakti, dos quais temos testemunho textual na forma de poesia devocional: os santos-poetas tâmeis Vaiṣṇava conhecidos como Āḷvārs e os seus homólogos tâmeis Śaiva, os Nāyaṇārs e Māṇikkavācakar, que floresceram nas áreas de língua tâmil do sul da Índia entre os séculos VI e IX d.C.

“Uma exploração das conexões entre bhakti e encarnação pode, assim, servir para iluminar várias transformações que caracterizam a mudança histórica das tradições védicas para as tradições bhakti pós-védicas. Além disso, eu sugeriria que tal investigação seja crítica para a nossa compreensão das inúmeras formas que bhakti assumiu historicamente até o presente momento, pois a encarnação é parte integrante das dimensões oral-auricular e performativa das práticas devocionais através das quais os bhaktas engajam a divindade em suas várias formas corporificadas: tīrtha-yātrā, peregrinação aos lugares sagrados em que a presença da divindade é considerada instanciada; pūjā, oferendas rituais às encarnações de imagem da divindade em templos e santuários; nāma-kīrtana, cantar os nomes divinos como um meio de se envolver nas formas sonoras da divindade; paṭhana, recitação das escrituras e hinos devocionais que são reverenciados como encarnações da divindade; līlā-kīrtana, cantando e recontando as histórias do jogo divino da divindade em várias formas corporais; e rāsa-līlā e nṛtya, performances dramáticas e de dança nas quais os artistas são reverenciados como formas vivas (svarūpa-s), ou instanciações temporárias da divindade. Todas essas práticas são práticas corporificadas – práticas através das quais os corpos dos bhaktas engajam as formas corporificadas da divindade.

“[…] Eu sugeriria que uma investigação da encarnação como o ‘verdadeiro epicentro’ de bhakti pode iluminar correlações entre o conjunto de ontologias, modos devocionais, objetivos e práticas encontrados nas tradições de bhakti. Nesse contexto, eu postularia, como um dispositivo heurístico, um espectro de tradições bhakti caracterizado por graus variados de encarnação, com tradições altamente encarnadas em uma extremidade do espectro e tradições menos encarnadas na outra. Tradições bhakti altamente corporificadas tendem a ser correlacionadas com ontologias que celebram as múltiplas formas da Deidade, modos de bhakti que favorecem expressões de devoção mais apaixonadas e extáticas e formulações do objetivo da vida que enfatizam o estado de união-na-diferença em que o bhakta saboreia o abraço da divindade no relacionamento eterno. (…) Tradições bhakti menos encarnadas tendem a ser correlacionadas com ontologias que enfatizam a não-forma da Divindade em sua natureza essencial, modos de bhakti que favorecem formas mais contemplativas de devoção e formulações do objetivo da vida que enfatizam o estado de unidade indiferenciada sem dualidade na qual o bhakta se funde com a divindade.”

No período védico do hinduísmo haviam inúmeras sucessões discipulares ou iniciáticas (paramparā) que se filiavam originariamente a algum r̥ṣi ou outro, e que se organizavam em śākhās (linhagens), cada qual era especialista num ou outro ramo do conhecimento sagrado (Veda), ao qual se dedicavam a preservar e transmitir. No hinduísmo pós-védico, as sucessões discipulares agora se ordenariam em inúmeras tradições (sampradāyas), que qualificariam como religiões à parte se seguíssemos definições ocidentais. Textualmente, essas sampradāyas contam com uma literatura purânica e uma literatura tântrica que lhes são próprias enquanto textos sagrados – além de toda as respectivas literaturas autorais, de teólogos, filósofos, poetas, santos etc daquela tradição.

O Purāṇa era no período védico uma tradição narrativa oral que acompanhava os sacrifícios rituais, e constituía de lendas e mitos, alguns dos quais estão registrados no corpus védico também (especialmente nos Brāḥmaṇas); no período pós-védico, essa tradição narrativa se desdobra em inúmeros Purāṇas distintos, que continuam sendo transmitidos oralmente por bardos (sūtas) mas também em escrito. Segundo a contagem tradicional, há 18 Mahāpurāṇas e 18 Upapurāṇas. Cada um deles é uma “bíblia” em seu próprio direito, aportando inúmeras narrativas míticas e legendárias sobre os deuses, os reis, os sábios e ascetas, além de ensinamentos médicos, gramaticais, rituais, contemplativos, devocionais, sapienciais. O mais extenso texto desta classe é o Skānda Purāṇa, que traduzido ao inglês é constituído de 20 volumes; um dos mais curtos é o Viṣṇu Purāṇa, que em inglês tem entre 400 e 500 páginas. Os Purāṇas são tradicionalmente considerados tradição lembrada (smṛti) e literatura auxiliar aos Vedas (upaṅga). Cada Purāṇa é comumente dedicado a uma deidade central, que é nesse texto considerada brahman, o supremo: há os purāṇas vaiṣṇavas, os śaivas, os śāktas, os gaṇapatyas e sauras, que adoram, respectivamente, Viṣṇu, Śiva, Devī, Gaṇeśa e Sūrya. Os Purāṇas dedicados a uma ou outra dessas deidades são considerados sagrados principalmente por aquelas sampradāyas que adoram a sua respectiva divindade como central. Consequentemente, essas sampradāyas é que preservarão, desenvolverão e transmitirão seus respectivos Purāṇas. No entanto, tradicionalmente se atribui a autoria de todos esses textos a um mesmo autor: r̥ṣi Vyāsa, o compilador, que seria um sábio védico. Isso nos evidencia como esses textos formam uma ponte imprescindível entre a tradição védica e a pós-védica, pois aqui ambas são conjugadas: os sábios e ensinamentos dos Vedas são apresentados inextricavelmente fundidos com aqueles das correntes pós-védicas. Mas também nos mostra como o paradigma védico de inclusivismo permite que essas várias linhagens se mantivessem integradas numa vasta “federação” religiosa, que é o que chamamos hinduísmo (ainda que muitas vezes o façamos ingenuamente).

Além disso, muitas dessas sampradāyas têm sua própria literatura tântrica. Enquanto os Purāṇas constituem seus smṛtis, tradição lembrada, os Tantras constituem seus śruti, tradição revelada. Isso aponta para o seguinte fator: que embora os Vedas sejam os textos sagrados revelados por excelência, para o hinduísmo a era das revelações nunca se fecha, de modo que ao longo dos muitos séculos no período pós-védico inúmeros outros textos sagrados revelados emergiram nas distintas sampradāyas. Tal como os Vedas, esses textos serão concebidos como encarnações da palavra e conhecimento eterno, e compreenderão camadas rituais/litúrgicas, contemplativas e sapienciais. Segundo uma contagem tradicional, na vertente tântrica Vaiṣṇava há mais de 200 textos revelados, na vertente tântrica Śaiva mais de 60, e na Śākta cerca de 70 (embora alguns sejam partilhados entre essas duas últimas). Mas há ainda vários outros que não constam nessa contagem. Quanto ao conteúdo, os Tantras são esotéricos, e não apenas aportam novos insights e perspectivas, mas também transmitem o legado védico e purânico em níveis extraordinários de sofisticação. Frequentemente, Purāṇas posteriores apresentam doutrinas advindas dos Tantras e as conciliam com aquelas advindas dos Vedas.

No hinduísmo tradicional nos períodos medieval, moderno e contemporâneo, é comum que cada sampradāya tenha como seu cânone sagrado alguns textos védicos, alguns textos purânicos e alguns textos tântricos. Além disso, é comum que apresentem a sua linhagem iniciática ou discipular (paramparā) como constituindo de uma fase em que sua tradição era transmitida entre deuses, então dos deuses aos r̥ṣis védicos, e então aos sábios e santos históricos posteriores (pós-védicos), e desses até os dias de hoje. Vislumbramos aqui algo da complexa rede de interconexões que fazem do hinduísmo um verdadeiro caleidoscópio religioso, uma encarnação da “teia de Indra” em que cada joia reflete em si todas as demais.

Compartilho aqui uns esquemas que apresentam algumas das principais sampradāyas (não todas) do hinduísmo pós-védico, elaborados por Gavin Flood em seu livro “Introduction to Hinduism”:

UM OU MUITOS DEUSES NO HINDUÍSMO PÓS-VÉDICO

Havíamos visto no primeiro texto desta série uma discussão que transparece no Nirukta de Yāska (c. VI a.C.), em que três posições teológicas distintas se pronunciavam como formas de interpretação do panteão das divindades védicas: a da pluralidade divina (nānātva), a da trindade divina (tritva) e a da unidade (ekatva). Foi dito ainda que cada uma dessas posições se dedicavam a uma disciplina espiritual distinta: os pluralistas ao ritualismo, os trinitaristas à contemplação teológica por intermédio da etimologia dos nomes divinos, e os unitaristas ao conhecimento. Pode-se dizer que essas três posições não desapareceram e continuaram assumindo outras formas ao longo do desenvolvimento da tradição. Como não é possível classificar a doutrina teológica de todas as sampradāyas do hinduísmo pós-védico, eu abordarei alguns exemplos apenas de doutrinas que poderiam ser classificadas em uma daquelas três posições.

Nānātva

Creio que o caso mais relevante do pluralismo é a escola do Sāṁkhya clássico. Sua doutrina dualista compreende duas categorias centrais: puruṣa (a consciência, o ser auto-consciente) e prakṛti (a matriz ou “natureza”, o domínio do Ser, que é insensciente na ausência da iluminação advinda dos seres conscientes). Esta escola interpreta os conceitos upaniṣadicos ātman e brahman como sinônimos, respectivamente, daquelas duas categorias; e a intenção é distingui-los e não uni-los. Haveriam infinitos puruṣas mas uma só prakṛti. Em si mesmo cada puruṣa é transcendente e quiescente, isto é, puro ato desprovido de qualquer devir; mas quando a diferença entre os dois princípios não é discernida, puruṣa como que se identifica com prakṛti e suas categorias, e assim, nela refletido, assume a condição de um ente racional (jīva ou vijñānātman) transmigratório.Todas as divindades (mesmo Prajāpati, Brahmā, Viṣṇu e Śiva) são entes individuais (jīvas) que assumiram a condição (ou “cargo”) de deuses graças às suas ações e contemplativas rituais passadas, ou graças à conquista de certos estados meditativos yoguicos. Essas posições são evanescentes ou acidentais, uma vez que a verdadeira natureza eterna de cada um desses deuses é como puro puruṣa, e enquanto tal eles não são deuses; assim como nossa verdadeira natureza também é o puruṣa quiescente e enquanto tal não somos humanos. Aqui todos os nomes védicos das divindades são características eternas da natureza (prakṛti), de modo que indivíduos distintos são chamados por aqueles nomes em mundos e eras distintas na medida em que se identificam com as suas qualidades.

Então seguindo a terminologia vedantina no problema de qual divindade tem brahmatva e qual jīvatva, poder-se-ía dizer que a posição do Sāṁkhya é que todos os deuses são apenas entes individuais; embora todos os entes individuais sejam absolutos em sua verdadeira natureza quiescente (o que os põe fora da esfera da teologia, isto é, como não-deuses). No entanto, o Sāṁkhya (tal como testemunhado em comentários como o Yuktidīpikā e o Sāṁkhya-pravacana-bhāṣya de Vyāsa) também reconhece um Īśvara: não uma divindade no sentido de exercer qualquer função soberana sobre a natureza, mas como o guru primordial, aquele que nunca esteve sob a ignorância e é o primeiro na linhagem discipular de instrutores.

Tritva

A totalidade da literatura purânica e tântrica reconhece a doutrina do trimūrti: Brahmā, Viṣṇu e Śiva como três aspectos da divindade suprema em sua função criadora, sustentadora e destruidora. Essa trindade é concebida como a forma vyaṣṭi, desagregada ou seccionada, da divindade única. Por isto, é contrastada com a sua forma samaṣṭi, agregada, que seria a forma unitária da divindade suprema para além da sua divisão em qualidades e funções. É essa forma agregada que é propriamente Brahman. No entanto, Purāṇas associados a sampradāyas distintas identificam essa forma agregada com divindades distintas. A Maitrāyaṇīya Upaniṣad (5.2)do Kṛṣṇa Yajurveda identifica Prajāpati como a forma agregada/Brahman do trimūrti; textos de filiação vaiṣṇava a identificam com Mahāviṣṇu ou Nārāyaṇa, que seria Brahman e a divindade suprema que assume os nomes e funções do trimūrti em seus atos; os textos de filiação śaiva, por sua vez, identificam a forma agregada/Brahman com Sadāśiva, que, igualmente, assume a forma do trimūrti em seus atos. Alguns textos de filiação Śākta como o Devī Mahātmya e seus auxiliares explicativos (Pradhānika Rahasya, Vaikṛtika Rahasya, Mūrtirahasya), identifica a forma agregada/Brahman com Caṇḍī, que contém internamente a tríade Mahālakṣmī, Mahākālī e Mahāsarasvatī (todas as quais possuindo brahmatva enquanto idênticas a Caṇḍī); e essas por sua vez emanam os pares divinos do trimūrti, que possuiriam jīvatva: Brahmā/Sarasvatī, Viṣṇu/Lakṣmī, Śiva/Kālī. É relevante notar aqui o modo como um mesmo nome divino pode ser apontado como brahman ou jīva dependendo das suas qualificações: Mahāviṣṇu x Viṣṇu, Sadāśiva x Śiva, Mahālakṣmī x Lakṣmī etc.

Uma forma interessante de tritva é encontrada no Kūrma Purāṇa e desenvolvida pela escola do Śaivādvaita, por autores como Śrīkaṇṭha e Appayya Dīkṣita. Sigo aqui a elaboração desta doutrina elaborada por esse último, em seu tratado Ratnatrayaparīkṣā, “a investigação sobre as três joias”. A doutrina seria o seguinte: Brahman, que um apenas e indiviso (sem partes), assume por māyā uma divisão interna em dharma e dharmin, o atributo e o sujeito em que aquele inere. O dharmin, o sujeito, seria Śiva; seu dharma ou atributo seria a devī (deusa) Umā ou Ambikā, a qual é identificada com o paramākāśa (espaço supremo) que é infinito deleite e o poder de volição, conhecimento e ação. Em outros termos, a deusa é o poder de causalidade eficiente que pertence a Śiva. Esse poder, quando engajado ativamente no processo criativo, toma a forma de um puruṣa cósmico que é a forma constitutiva dos mundos criados, que seria Viṣṇu. Assim, Śiva, a Devī e Viṣṇu todos têm brahmatva, o primeiro como dharmin (sujeito) e os outros dois como dharma (atributo). Essa doutrina parece-me ter grande continuidade com aquela da cosmogonia védica, em especial aquela que eu citei no texto anterior a partir do Gopatha Brāhmaṇa do Atharvaveda, que descreve o Brahman superior emanando de si o suor que é sua sabedoria pela qual tudo é criado e sustentado, fitando a qual ele vê seu próprio reflexo, que é a sua semente, o Brahman inferior, identificado com o Sacrifício. Evidentemente, essa antiga perspectiva está aqui interpretada de modo a favorecer a superioridade de Śiva; mas é de grande interesse que seja uma trindade constituída de Śiva, Devī e Viṣṇu pois essas divindades são mais centrais ao hinduísmo clássico tardio, medieval e contemporâneo do que aquela do trimūrti, uma vez que Brahmā é pouco adorado e considerado um jīva por grande parte das sampradāyas mais recentes.

Ekatva

Todas essas posições acima são formas de uma trindade que é compreendida e subsumida por uma unidade divina, e, portanto, poderiam já serem tratadas como modelos de ekatva também. No entanto, reservei para comentar aqui aquelas posições que são mais unitaristas ainda.

A começar, poderia citar o Śaiva Siddhānta e a Śrīvaiṣṇava Sampradāya (em sua vertente do norte), em que a divindade suprema é um duo inseparável: Śiva – Śakti e Viṣṇu – Lakṣmī, respectivamente. São estritamente monoteístas, ainda que reconhecendo um deus supremo dual, e tratam todo o restante do panteão de divindades como jīvas, inclusive o trimūrti.

Vertentes como a do Trika Śaiva e a Gauḍīya Sampradāya do Vaiṣṇavismo são um tanto complexas para serem abordadas aqui, mas também caracterizariam uma forma de ekatva, ainda que compreendendo nesta unidade uma certa pluralidade. No caso do Trika, devido às múltiplas formas assumidas pela Śakti de Śiva; e no caso dos vaiṣṇavas Gauḍīya, além de também compreender a pluralidade da Śakti  de Kṛṣṇa, devido à distinção hierárquica que eles fazem entre Brahman, Paramātman e Bhagavan atribuem brahmatva tanto a Mahāviṣṇu e Sadāśiva, ao mesmo tempo em que os mantêm submissos à divindade suprema (Bhagavan) que é o duo Kṛṣṇa – Rādha. Porém, ambas essas vertentes também atribuem jīvatva ao trimūrti e demais deidades do panteão védico.

Mais estritamente monoteístas ainda, no entanto, seriam a Brahma Sampradāya e a Śrīvaiṣṇava Sampradāya (em sua vertente do sul): para essas duas vertentes, Viṣṇu apenas é Brahman, e até mesmo sua consorte Lakṣmī é um jīva.

Por fim, há também uma forma de ekatva apofaticista, que compreende que a divindade suprema dotada de brahmatva é uma só, mas que é inominável, livre de nome-e-forma. Lembrando de um princípio de que tratei no primeiro texto desta série, que o nome-e-forma de uma divindade é determinada por sua ação, Brahman sendo transcendente a toda ação e devir em sua natureza essencial é transcendente a todo nome-e-forma; mas em sua natureza “acidental” (pela falta de uma tradução melhor) é o senhor (īśvara) de toda a ação universal e, portanto, possuidor de todos os nomes-e-formas divinos.  Deste modo, Brahman não pode ser um objeto direto de adoração em sua natureza essencial, mas em sua natureza “acidental” pode ser objeto de adoração indireta através de qualquer nome-e-forma divino – desde que este seja compreendido como nome-e-forma do Brahman único. Essa posição tende a conceber a adoração a essas divindades nomináveis como limitada, devendo ser cultivada até certo ponto e depois abandonada em prol da contemplação direta do inominável. Uma versão desta abordagem ocorre na Maitrāyaṇīya Upaniṣad (4.5-6) do Kṛṣṇa Yajurveda, em que é dito:

“Discípulo: Ó Reverendo preceptor […]. Agni, Vāyu, Āditya, Kāla, Prāṇa, Brahmā, Rudra, Viṣṇu: alguns meditam em uns, alguns em outros. Diga-nos qual deles é o melhor para nós. Mestre: Esses são apenas formas principais do supremo, imortal e incorpóreo Brahman. A qualquer um que cada homem é devotado aqui, em seu mundo ele regozija. Pois já foi dito, ‘em verdade, este mundo inteiro é Brahman’. Em verdade, (sobre) estas, que são suas principais formas, deve-se meditar, adorar e descartar. Pois com estas se move cada vez mais alto nos mundos. E quando todas as coisas perecem (na dissolução universal), alcança-se a unidade (com) o Puruṣa, sim, do Puruṣa.”

Essa perspectiva predomina na vertente Smārta do hinduísmo. Esta comumente adota uma forma de adoração conhecida como pañcāyatana pūjā, a adoração do altar das cinco deidades purânicas (Gaṇeśa, Sūrya, Devī, Śiva,Viṣṇu), de modo que em cada templo ou lar em que esse altar é adotado, uma ou outra deidade ocupa a posição central e as outras quatro a circunda. Segundo os seus adeptos, esta vertente é a mais universal, não-sectária e inclusiva do hinduísmo – de fato, os seus membros costumam falar em nome do hinduísmo de uma forma que as demais não fazem tanto. Por outro lado, segundo seus críticos, ela alcança essa abrangência sob o custo de uma indesejável abordagem reducionista em relação às deidades. De qualquer modo, eis uma passagem da introdução do Mantra Yoga Saṁhitā, texto tântrico de orientação Smārta, em que esse tipo de ekatva apofaticista não-sectário é bem pronunciado:

“Saudações ao Onipresente, Saccidānanda (Ser-Consciência-Deleite), Paramātmā (Supremo Si-mesmo) de quem se originou este universo inteiro, que é o protetor desse universo, e em quem esse universo é ultimamente dissolvido no tempo da dissolução final. Saudações ao Senhor que, apesar de Onipresente e Sem-forma, ainda assim é adorado pelos Vaiṣṇavas na forma de Viṣṇu, pelos Gāṇapatyas na forma de Gaṇapati, pelos Śāktas na forma de Śakti, pelos Sauryas na forma de Sūrya, e pelos Śaivas na forma de Śiva. Saudações àquele Paramātmā que é Sem-forma e além da Fala e da Mente, mas que pelo benefício dos sādhakas assume a Forma que os conduz à mais elevada morada: que é sem um segundo, e apesar de ser separadamente determinado pela Bhagavad Gītā, Bhagavatī Gītā, Gaṇapati Gītā, Āditya Gīta e Śiva Gītā, ainda assim é Um.”

O princípio do iṣṭa-devatā

Diante da exposição dessas diversas vertentes, uma questão se põe: como é possível conciliar a doutrina de certas escolas śaivas que admitem brahmatva de Śiva apenas com a doutrina de certas escolas vaiṣṇavas que admitem brahmatva de Viṣṇu apenas? A resposta é: não é possível conciliá-las. De fato, historicamente, elas têm posições que são mesmo divergentes, e em diversas ocasiões históricas é possível identificar conflitos entre elas chegando até às vias de fato.

No entanto, mesmo nestas divergências o mais frequente é que exista um mútuo respeito no seguinte sentido: ainda que o śaiva considere o vaiṣṇava como estando engajado numa forma de adoração e doutrina que é inferior e mais ignorante, ele não pensa que o vaiṣṇava vai para o inferno ou algo assim; ao contrário, ele acredita que a sua adoração lhe renderá bons frutos, e que Śiva os abençoa através da forma de Viṣṇu (como seu governante interno), e mesmo que a religião vaiṣṇava é manifestada por Śiva para a bênção daqueles que devotos de capacidade inferior (os vaiṣṇavas). Este śaiva “sectário” inclusive participará de algumas observâncias pertencentes às datas sagradas do calendário religioso vaiṣṇava. Da mesma forma, ainda que o vaiṣṇava considere o śaiva como estando engajado numa forma de adoração e doutrina que é inferior e impura, ele não pensa que o śaiva vai para o inferno ou algo assim; ao contrário, ele acredita que a sua adoração lhe renderá bons frutos, e que Viṣṇu os abençoa através da forma de Śiva (como seu governante interno), e assim por diante.

Muita literatura contemporânea aponta para o princípio de iṣṭa-devatā como via de resolução: a ideia de que cada devoto pode escolher uma deidade do seu coração, seu ideal de perfeição, que será por ele adorada como suprema, enquanto as demais serão veneradas como submissas àquela que foi escolhida. Inclusive, além da escolha individual há também a divindade escolhida da família, o kula-devatā. Outra forma de enxergar este princípio não é tanto que o devoto escolhe a deidade, mas que a deidade escolhe o devoto: é a forma do divino que habita o coração do devoto como a sua aspiração mais profunda.

No entanto, distintas sampradāyas se relacionam com este princípio de formas distintas.

Aquelas que são mais “sectárias” não compreendem que esta escolha seja aberta a qualquer deidade: por exemplo, uma vertente vaiṣṇava pode considerar que o devoto pode adotar uma ou outra forma de Viṣṇu como sua deidade escolhida: Rāma, Kṛṣṇa, Narasiṁha, Nārāyaṇa etc. Uma vertente śākta, por outro lado, compreenderia que uma ou outra forma da Deusa pode ser adotada enquanto tal. É só numa perspectiva Smārta que o âmbito desta escolha é realmente aberto a todas as deidades do cânone purânico (Gaṇeśa, Sūrya, Devī, Śiva,Viṣṇu), bem como as suas “sub-formas”. Para essa vertente Smārta do hinduísmo, todas as passagens sectárias de diferentes textos e vertentes não são mais que atitudes devocionais que visam tornar o coração do devoto unifocal, e não devem ser lidas como dotadas de validade discursiva. Diz Śrī Candraśekharendra Sarasvatī, Śaṅkarācārya de Kañcipuram e grande autoridade da vertente Smārta, em seu “Introduction to Hindu Dharma”:

“Cada Purāṇa é principalmente dedicado a um devatā em particular. No Śiva Purāṇa, afirma-se: ‘Śiva é o Ser Supremo. Ele é a autoridade máxima para criação, sustentação e dissolução. É a seu pedido e sob ele que Viṣṇu funciona como protetor. Viṣṇu é um mero bhogin, preso em Māyā. Śiva é um yogin e jñāna encarnado. Viṣṇu está sujeito a Śiva e o adora. Uma vez, quando se opôs a Śiva, sofreu humilhação em suas mãos’. Contam-se histórias para ilustrar tais afirmações. Nos Purāṇas vaiṣṇavas, você vê o contrário. Eles contêm histórias para apoiar a visão de que Viṣṇu é superior a Śiva. ‘É Śiva um deus, aquele que mora nos campos crematórios e em companhia de espíritos e duendes?’, perguntam esses Purāṇas. Em cada Purāṇa, portanto, uma divindade específica é exaltada sobre outras. Pode ser Subrahmānya, Gaṇapati ou Sūrya. Cada uma dessas divindades é declarada como o Deus Supremo e diz-se que todas as outras o adoram. Quando, por orgulho, eles se recusam a adorá-lo, ficam humilhados.

“Surgem dúvidas em nossas mentes sobre esses relatos contraditórios. ‘Qual dessas histórias é verdadeira?’, estamos inclinados a perguntar. ‘E o que é falso? Eles não podem ser todos verdadeiros. Se Śiva adora Viṣṇu, como é lógico que Viṣṇu adore Śiva? Se Ambā é superior aos Trimurti (Brahmā, Viṣṇu e Maheśvara), como pode estar certo dizer que ela permanece submissa a Parameśvara como seu consorte dedicado? Os Purāṇas não podem ser todos verdadeiros. Ou são todas mentiras?’ O pensamento lógico parece apontar para a conclusão de que todas as histórias purânicas não podem ser verdadeiras. Mas, de fato, elas são. Uma divindade que sofre derrota nas mãos de outra numa ocasião, emerge triunfante em outra ocasião. E um deus que adora outra divindade é ele próprio o objeto de adoração em outros momentos. Como é isso e por quê?

“O Paramātman (Si-mesmo supremo) é um e apenas um. Ele é que cria, sustenta e destrói. E é ele quem esfolia como as muitas divindades diferentes. Por que ele faz isso? Ele não moldou as pessoas no mesmo molde. Ele os criou de maneira diferente, com atitudes diferentes, com o objetivo de tornar os assuntos do mundo interessantes dando variedade a eles. O próprio Paramātman assume formas diferentes para se adequar ao temperamento de pessoas diferentes, de modo que cada um o cultue da forma que gosta e obtenha felicidade. Esta é a razão pela qual o único Paramātman se manifesta como tantas divindades diferentes.

“Todos devem ter firme fé e devoção por sua divindade escolhida. Ele deve aprender a acreditar que essa divindade é o Paramātman, que não há poder superior. Essa é a razão pela qual cada manifestação ou forma da Suprema Divindade se revela superior às outras formas ou manifestações. É assim que essas outras formas demonstram que a adoraram ou sofreram derrota em suas mãos. No total, significa que cada divindade adora outras divindades e, por sua vez, é adorada por outras. Além disso, cada deus sofre derrota nas mãos de outros deuses e, ao mesmo tempo, inflige derrota neles. Nos Purāṇas śaivas, todos os aspectos que proclamam a glória de Śiva são reunidos. Da mesma forma, no caso dos Purāṇas vaiṣṇavas que lidam com Viṣṇu. Amba, Subrahmānya e outras divindades são tratados de maneira a mostrar que ele é o mais alto entre os devatās.

“O objetivo de exaltar uma deidade específica sobre a outra não é depreciar a última. A ideia subjacente é que uma pessoa que adora seu deus escolhido tem uma fé inabalável nele e se torna totalmente dedicada a ele. Essa devoção exclusiva é chamada “ananyabhakti”. A ideia aqui, no entanto, não é considerar os outros devatās inferiores à própria divindade escolhida – um exemplo de “nahi ninda nyāya”. Aqueles que são capazes de considerar todas as divindades como a manifestações do único e único Paramātman não têm motivos para devoção exclusiva a nenhuma delas. Somente quando pensamos que uma divindade é separada de – ou estrangeira para outra – surge a questão de renunciar uma à outra. Se percebermos que todos são os diferentes disfarces da Realidade Única, os vários deuses e deusas apresentados nos Purāṇas, com todas as diferenças entre eles, serão entendidos como nada além do līlā ou esporte do Ser Supremo. É o Único que parece dividido em múltiplas entidades. Isso é para ajudar homens de várias atitudes e temperamentos.

“Se essa verdade for reconhecida, seremos capazes de ver as histórias nos Purāṇas – histórias que parecem contraditórias – à luz verdadeira. Na história de Banāsura, vemos que Śiva é vencido por Krsna. Mas na história de Tiruvannamalai, Viṣṇu encontra o fracasso em encontrar os pés de Śiva. Ambas as histórias devem ser tratadas como verdadeiras. O primeiro é fazer com que os devotos de Krsna o adorem como o Paramātman e o segundo com que os devotos de Śiva o adore da mesma forma. Embora pensemos que um é vencedor e o outro o perdedor ou que um é superior ao outro ou inferior a ele, os dois sabem que são um. É possível que alguém triunfe sobre si mesmo – ou inflinja derrota a si mesmo? Então, tudo isso é esporte. O Paramātman se entrega ao esporte assumindo formas variadas.

“O objetivo dos Purāṇas é mostrar às pessoas o caminho certo. Patīvratya (devoção total) é uma virtude da maior importância. A própria Ambā exemplifica isso. O Paraśakti, o Poder Supremo que ela é, permanece sujeito ao marido. A fé e a devoção devem crescer no mundo e, para isso, o próprio Senhor deve mostrar o caminho. É por isso que em alguns templos Viṣṇu é representado como um adorador de Śiva e em outros santuários, Śiva é visto como um devoto de Viṣṇu. O mesmo com outras divindades. Eu falei mais sobre Śiva e Viṣṇu desde que o śaivismo e o vaiṣṇavismo são as duas principais divisões.

Resumindo, se uma divindade é glorificada nos Purāṇas e as histórias contadas em seu apoio, é para criar devoção exclusiva a ela como o Paramātman. E, se algum deus é considerado inferior a outro, o verdadeiro propósito não é denegri-lo, mas desenvolver fé inabalável neste último. O mesmo Paramātma se manifesta como deidades diferentes. Cada devoto desenvolve um apego particular a uma forma particular de Deus. Para fortalecer esse apego de cada devoto, o Paramātma subordina uma qualidade específica em algum momento, em preferência a outra, e enfatiza um aspecto particular.”

A TEOLOGIA DOS NOMES DIVINOS NO HINDUÍSMO PÓS-VÉDICO

Havíamos tratado no segundo texto desta série a respeito da litania de cem nomes de Rudra no Yajurveda, o Śatarudrīya. Esta foi, na verdade, apenas a primeira de muitas outras coletâneas de nomes divinos. No Mahābhārata ocorrem os primeiros sahasranāma-s: as coletâneas dos mil nomes de Viṣṇu e os mil nomes de Śiva. Na literatura purânica posterior, por sua vez, se encontram inúmeros sahasranāma-s dedicados às mais diversas divindades do panteão hindu. Segundo Śaṅkara, no nono verso de bendição em seu Viṣṇu-Sahasranāma-Bhāṣya, essas coletâneas apresentam mil nomes porque o supremo Puruṣa tem mil formas, olhos, faces, pés e braços – uma imagem reminiscente do Puruṣa Sūktam do R̥gveda. Em cada uma dessas coletâneas, a divindade respectiva é adorada como Brahman, e se revela nas mais diversas facetas, qualidades, características, ações, atributos. Alguns dos nomes a louvam na qualidade da sua individualidade particular; outros, a louvam enquanto dotada de características gerais de Brahman em sua natureza “acidental”; e outras a louvam segundo a natureza essencial de Brahman. Em seu Viṣṇu-Sahasranāma-Bhāṣya (1.12), Śaṅkara diz que esses nomes são poderes, e que são efetivos cada um em seus respectivos domínios; além disso, baseado na perspectiva teológica Smārta cujos princípios tratamos anteriormente, diz que Brahman em sua natureza essencial incondicionada não pode ser dito segundo as categorias fundamentais que estruturam a linguagem, embora em sua natureza “acidental” “condicionada” seja, de fato, o conteúdo último de todo discurso. Em suas palavras:

“O Viṣṇudharma (41.10-12) diz: ‘Ouça, ó primeiro entre os nascidos duas vezes, os vários nomes do único e onipresente Brahman que serve para ajudar os homens. Seus efeitos variam de acordo com os objetos visados pelo recitador. Repetindo os nomes, os resultados correspondentes são acumulados. Qualquer poder que pertença a um nome é eficaz, seja para o bem ou para o mal, apenas nessa esfera’. Embora não exista espaço no incondicionado para nenhuma daquelas energias potenciais que dão origem a expressões que denotam relação, qualidades, ações, classe e termos convencionais, contudo, no que diz respeito ao Brahman condicionado (saguṇa) sujeito a modificações, essas expressões são possíveis, como é o Si-mesmo de todos. Portanto, todo discurso tem como conteúdo o supremo Puruṣa.”

Um ponto de grande interesse nessas coleções de mil nomes é que é comum que, por exemplo, os nomes de Śiva, Prajāpati e outros sejam incluídos como nomes de Viṣṇu na coletânea de mil nomes deste último; e, da mesma forma, Viṣṇu e Prajāpati são nomes de Śiva. Não apenas essas, mas várias outras deidades partilham seus nomes entre si, de tal modo que aquela deidade cujos nomes recito é abordada como encarnando em si a totalidade dos atributos divinos e mesmo o panteão de deuses.

No entanto, os teólogos hindus não derivam disso a conclusão de um politeísmo em que cada deus é em si absoluto: a discussão se pauta pelos princípios de brahmatva e jīvatva como vimos antes. Assim, simplesmente, para os devotos de certas divindades as coleções de mil nomes de outras divindades podem simplesmente não terem a mesma canonicidade, pois só a sua divindade é dotada de brahmatva e portanto compreende em si a totalidade do divino e do panteão. Em outras palavras, pode haver reivindicações conflitantes entre vertentes distintas. Ou então, aceita-se a coleção de mil nomes de outra divindade sob o princípio que os nomes que a indicam como Brahman sejam referências à divindade suprema como governante interna (antaryamin) da divindade menor a que se dedica a coleção de mil nomes. Por outro lado, adotando uma postura Smārta, as várias divindades a que se dedicam essas coleções são formas do mesmo absoluto Brahman. Uma visualização interessante disso pode ser alcançada através de uma reflexão sobre os yantras (diagramas sagrados) śāktas, que são “o corpo geométrico” da respectiva deusa. Vejamos, por exemplo, esses yantras das deusas Kālī e Tripurāsundarī (texto segue abaixo da imagem):

Um yantra apresenta diagramaticamente o universo inteiro emanando do centro (o Princípio), em distintas camadas de formatações geométricas (níveis metafísicos), até a superfície externa (o mundo físico). Em cada um dos cantos de cada uma das formas geométricas estão localizados mantras de todo um panteão de divindades. Mas o yantra da esquerda aqui é a deusa Kālī, que aparece aqui como absoluta, a totalidade do divino, manifestando em si todo o universo e o panteão de deuses a seu modo particular; enquanto o yantra da direita é a deusa Tripurāsundarī, que aqui aparece igualmente absoluta e manifestando em si o universo e os deuses a seu modo. No entanto, em ambos os casos o ponto central, o Princípio, é o mesmo: e esse é o Brahman incondicionado, o Si-mesmo supremo. O Brahman “condicionado” é a deidade cuja forma é o yantra, e sob o qual está subsumido o panteão dos deuses individuais e seus nomes e atributos. Há, ainda, yantras de várias outras deusas; mas na medida em que o Si de todas é um mesmo ponto, elas são compreendidas como sendo formas desse mesmo Si, todas elas dotadas de brahmatva. Por outro lado, os nomes divinos são realmente poderes e individuações, de modo que a adoração de Kālī e aquela de Tripurāsundarī são bastante distintivas. As duas são e não são a mesma deusa, e é possível ora enfatizar a diferença e ora a identidade entre essas duas formas, ora reduzir a unidade à pluralidade (principalmente com fins rituais) e ora reduzir a pluralidade à unidade (principalmente com fins contemplativos). E esses são princípios são perfeitamente aplicáveis em outros contextos que não o śākta.

Trago aqui uma uma muitíssimo elucidativa passagem de Bhāskararāya Makhin (c. XVIII), um Śāktācārya (mestre śākta) de grande prominência e autoridade em sua tradição, que ocorre na sua introdução ao segundo capítulo do Lalitā Sahasranāma. A sua orientação teológica é śākta, centrada na adoração à Devī(a Deusa, o divino feminino); e ao longo de seu comentário a este texto, ele adota uma síntese da metafísica da Advaita Vedānta (que é predominante na passagem que citarei adiante) e aquela do Śivaísmo da Caxemira, como é comum no Śāktismo. Mas de todo modo, os fundamentos da sua apresentação da teologia dos nomes divinos aqui é aplicável a diversas correntes teológicas e posições filosóficas no hinduísmo (comentários entre colchetes de minha autoria):

“Brahman tem dois aspectos, ‘com partes’ (sakala) e ‘sem partes’ (niṣkala) [em suas definições acidental e essencial, respectivamente, como elaborei no texto anterior]. O śruti (Muṇḍaka Upaniṣad, 1-4) diz: ‘Dois tipos de Brahman devem ser conhecidos, o Supremo (para) e o inferior (apara).’ Isso é repetido nos smṛtis também. ‘Com partes’ é o aspecto inferior (apara). Ele é de dois tipos, um sendo o governante do universo [causa eficiente, ou a inteligência governante], e outro o próprio universo [causa material ou constituinte, – “material” aqui sendo uma tradução comum mas problemática]; é dito ‘pois Ele é o senhor do universo e o próprio universo’. Novamente, em outra parte, é dito ‘Śiva é o agente, Śiva é o experienciador, Śiva é todo este universo. Devī é a doadora, e a experienciadora, e Devī é todo este universo.’ ‘Ele é a causa da criação e destruição do Universo e ele é o próprio universo.’ O Śruti também (Taittirīya Upaniṣad 2.6), ‘Ele desejou, que Eu me torne muitos.’ A palavra ‘desejou’ indica a causalidade instrumental (nimittakāraṇa) ou Brahman, e ‘que eu me torne’ indica a causalidade material (pariṇamakāraṇa). Essa é a visão sustentada por Vyāsa em seu Brahma-Sūtra (1.4.23) […]. Brahman enquanto universo [ou em sua causalidade constituinte do efeito] é de dois tipos: móvel e imóvel. Esses dois são novamente divididos em 1) Hiraṇyagarbha e outros deuses, 2) homens e outros animais. O Senhor do Universo [ou em sua causalidade eficiente, distinta do efeito] também é multiforme devido às suas funções de criação, preservação, destruição, ocultação e graça, como Brahmā, Viṣṇu, Rudra, etc.; e as formas dessas deidades são infindáveis, pois cada uma delas, desejando abençoar seus devotos, assume muitas outras formas de acordo com as concepções dos devotos e com a ação (ritual em questão). Assim as formas são infindáveis. O Suprabheda diz: ‘Por sua Māyā Ele toma muitas formas para a meditação e adoração dos ascetas, sábios e yogis.’ O Kālikā Purāṇa também diz: ‘A única Māyā (Devī) assume múltiplas formas tais como Kamalā, Sarasvatī, correspondendo às diferentes funções dos seres; ela é Sāvitrī e Sandhyā.’ Brahma Nāradīya Purāṇa também diz, referindo-se à Śakti, a causa do universo: ‘Alguns dizem que ela é Umā, outros a chamam de Lakṣmī; outros, ainda, dizem que ela é Bhāratī; Girijā, Ambikā, Durgā, Bhadrakālī, Daṇḍī, Māheśvarī, Kaumārī, Vaiṣṇavī, Vārāhī, Brāhmī, Vidyā, Avidyā, Māyā, Prakṛti e Parā. Assim dizem os grandes Ṛṣis.’ Novamente o Śruti Brahmabindu Upaniṣad, diz, ‘Ela é vista como una, e como muitas, tal como a lua (refletida em distintas poças) d´água.’ […]

Brahman sem partes (niṣkala) é um apenas.Tudo isso é explicado a Himavat pela Devī no Kūrma Purāṇa: ‘Se você for incapaz de meditar na minha forma Eterna e Suprema, fixe sua atenção na minha forma qualificada (sakalarūpa), e essa, que é infinitamente cambiável com tempo e circunstância, pode ser apreendida pela mente. Qualquer forma minha que sua mente seja capaz de apreender, medite sobre ela. Ó pai, identifique-se com ela, adore-a. Mas minha forma niṣkala, consciência pura e calma, livre de todos atributos, uma apenas, eterna e suprema; aquela morada suprema só pode ser atingida pelo conhecimento (jñāna) e com grande dificuldade.’ Sendo assim, encontrará que diferentes nomes são aplicados diretamente sem contradição ao Brahman Qualificado [em sua forma ‘catafática’ dada na definição acidental], porque este contém todas as qualidades a ele atribuídas. Com referência ao Brahman Não-Qualificado [ou sua forma ‘apofática’ dada na definição essencial], todos os epítetos são aplicados indiretamente, uma vez que existe uma relação de similaridade [ou analogia] (tādātmya) entre o qualificado e o não-qualificado. No Brahman incondicionado, apesar de que essa relação seja de uma natureza ilusória, há aquela qualidade em Brahman que permite uma relação como aquela do pote com seu passado e seu futuro [uma metáfora para a analogia entre o catafático e o apofático]. Portanto, no Triśatī é dito, ‘Epítetos são aplicados diretamente e indiretamente à Devī (em seus aspectos saguṇa e nirguṇa).’ Por isso, os epítetos aplicados à Devī são sem fim […]’. O Devī-Bhagavata Purāṇa também diz, ‘O que posso dizer? Devī tem incontáveis nomes, que foram compostos por Brahmā e outros devatās, de acordo com Suas diferentes qualidades e feitos.’ O que mais queremos? O próprio Brahman é Śabda (palavra). […]

Aqui um objetor poderia dizer: essa coleção particular de mil nomes (da Devī) é inútil, pois todas as palavras de um modo ou de outro denotam Brahman. A resposta é, entre todos os outros nomes pelos quais os grandes e virtuosos devotos de Devī a louvaram, e assim atingiram seus propósitos e realizaram seus objetos almejados, esses nomes a Devī declarou serem dotados de poder e capazes de conferir bênçãos; e os próprios devotos abençoaram estes nomes […]. O Viṣṇu-Dharmottara diz, ‘Escute, ó primeiro dos iniciados, a multidão dos nomes do uno e todo-permeante Brahman são os meios para ajudar o homem. De acordo com os objetos visados, os poderes são diferentes. Repetindo tais nomes, os resultados correspondentes são obtidos. Qualquer poder que pertença a um nome, naquela esfera apenas ele é efetivo, seja para o bem ou para o mal.’ […] apesar de que cada nome produz resultados correspondendo ao seu poder específico, ainda assim ele também pode produzir um resultado geral. […] O Kālikā Purāṇa diz: ‘Ó mãe do universo, aqueles que a adoram pelas palavras Ambikā, Jaganmayī e Māyā, obterão tudo.’ No Viṣṇu Purāṇa, Viṣṇu diz à Devī, ‘Aqueles que prostrando seus corpos adoram-te pelas palavras Māyā, Durgā, Vedagarbhā, Ambā, Bhadrā, Bhadrakālī, Kṣemyā, Kṣemaṃkarī, às manhãs e noites, obterão todos seus desejos pela minha graça.’ […] Assim, de acordo com as Escrituras qualquer um dos nomes da Devī pode ser repetido, mas se alguém deseja algum objetivo particular a ser realizado, ele deve invocar a deusa pelo nome correspondente.”

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As discussões entre religiões acerca de “politeísmo”, “monoteísmo” etc podem muitas vezes serem profundamente confusas. Supondo que o sentido de “divino” esteja resolvido entre as partes, e uma discussão seja pautada sob a pergunta “quantos entes divinos há?”, é evidente que todas religiões aceitarão uma pluralidade deles. Mesmo, por exemplo, os monoteísmos abraamicos aceitam toda uma hierarquia de entes angélicos cuja natureza é definida de modo consideravelmente exaltada e divina. Então é uma pergunta confusa cuja resposta não clarifica muito as coisas. Se, ao invés disso, fixarmos a discussão na questão: “quantos entes divinos são dignos de adoração?”, aí sim teremos respostas mais significativas. Porque, por exemplo, aquelas hierarquias angélicas dos monoteísmos abraamicos não são dignas de adoração em si mesmas – não são o objeto central de culto ao qual se ergue templos etc –, o que se expressa teologicamente na ideia de que são entes cuja existência e atributos divinos dependem de uma divindade única superior, que não é só um ente mas o próprio Ser. Como vimos, diversas são as vertentes hindus que adotam essa mesma abordagem. Outra possibilidade interessante de intercâmbio teológico entre o hinduísmo e as tradições abraamicas é a teologia dos nomes divinos, que é uma arma poderosa para superar o abismo entre os motivos do monoteísmo e do politeísmo. A obra de Henry Corbin, em especial suas reflexões sobre o “Paradoxo do Monoteísmo” me parecem muitíssimo adequadas a um diálogo profundo com a teologia hindu, na qual também encontramos muitos dos problemas, discussões e soluções apontadas por Corbin no contexto do Islã.

No entanto, diferentemente das tradições abraamicas, no hinduísmo o monoteísmo (só uma divindade suprema é digna de adoração em si mesma) e a teologia dos nomes divinos (os nomes dos vários deuses vistos como modos adjetivais de um mesmo sujeito nomeado) não anulam o culto plural: há templos e ritos dedicados às mais diversas deidades de uma forma que é completamente estranha às tradições abraamicas. Vimos no texto anterior desta série como essa pluralidade é justificável e aceitável mesmo na perspectiva de vertentes monoteístas no hinduísmo, sob a noção do antaryamin (a divindade suprema como habitante e governante interna da divindade menor) e do princípio de exaltação (a divindade menor pode ser exaltada e reverenciada como a divindade suprema, embora o inverso não seja aceitável).

Relativamente às tradições politeístas puras como as dos adeptos das religiões do mundo antigo mediterrâneo, muito intercâmbio teológico é possível também: teofanias locais e naturais, abundância de narrativas míticas e teogônicas como loco de revelação das características particulares dos deuses, grande diversidade ritualista e doutrinária, dentre muitas outras características que encontramos em ambos os mundos. Inclusive, politeísmos monárquicos e henoteísmos não são nada infrequentes entre os antigos povos do Mediterrâneo, o que abre outras linhas de aproximação também. Porém, ao contrário deles, o hinduísmo realmente desenvolve muito mais na linha da visão da unidade divina.

Ao longo dessa série de quatro textos busquei trazer passagens que demonstram a grande complexidade da visão do divino apresentada no interior da tradição hindu, ressaltando certas continuidades de problemas e abordagens ao longo de períodos distintos de sua história. Espero ter ficado evidente o quão difícil é fazer o hinduísmo se encaixar em designações prontas como “politeísmo”, “monoteísmo”, “henoteísmo” ou o que seja. Verdadeiramente, todas essas e outras formas de entender o divino encontram algum lugar (de primazia ou subordinação variáveis) no interior desta vasta tradição, e muitas vezes se sobrepõem mutuamente de forma muito orgânica. Politeístas europeus, cristãos trinitaristas, monoteístas puros: todos encontram, nos distintos estratos da tradição hindu, perspectivas, desenvolvimentos e argumentos teológicos semelhantes aos seus próprios, inclusive atitudes devocionais semelhantes. E dentro do hinduísmo essas perspectivas todas muitas vezes coexistem entre si na vida de um mesmo devoto.

UM OU MUITOS DEUSES? Um ensaio sobre a teologia védica (Parte 3)

No percurso feito até aqui, na medida em que refletia sobre os deuses a partir de seus nomes e qualidades, alguns dos conceitos centrais do pensamento védico foram enunciados como subjazendo a concepção do divino. O primeiro deles é o conceito de tapas, o ardor ascético, que é poder, pureza e o brilho da cognição superior. Pensado como divindade o Ardor é Agni, que em sua forma universal abrange os três mundos e se revela como o Si-mesmo de todos os seus deuses, bem como de todos os seres em geral. O segundo é o conceito de Sacrifício (Yajña), que é a ação universal na qual os seres têm sua origem, sustentação e dissolução. Pensado como divindade, o Sacrifício é o supremo Puruṣa, a pessoa divina de infinito poder volitivo, cognitivo e conativo (“mil cabeças, mil olhos, mil pés”). Seu poder (Virāj ou māyāśakti) é a Palavra (Vāk) através da qual enuncia a si próprio, e assim ressoando no infinito (Aditi) espaço luminoso de seu coração (paramākāśa) é a origem, sustentação e dissolução de tudo. Deste modo, tal qual formulado no hinduísmo clássico (com raízes profundas no Veda que busquei explicitar na postagem anterior), temos que o Sacrifício em sua função cosmogônica é Prajāpati-Brahmā; em sua função sustentadora, Viṣṇu-Nārāyaṇa; e em sua função destruidora, Rudra-Śiva. Além de conceber o Sacrifício no que tange às suas funções, o Veda também contempla aquilo que é sua verdade (ṛta) interna, seu coração ou Si, constituindo-se da qual os deuses são deuses. Essa que em si mesma é a verdade ou o ser do Sacrifício, relativamente ao mundo se revela como “dever-ser”, o dharma, o ritmo universal da mútua reciprocidade de todos os seres. Foi mencionado que essa verdade é conhecida quando, tal como o Puruṣa, o sacrificador oferece seu próprio si a todos os seres e todos os seres ao si, e assim faz-se da substância mesma do Sacrifício e se une a ele, que é o Senhor da Imortalidade. Por fim, também vimos como o conhecimento do sentido interno dos ritos esotéricos é o poder que concede eficiência ao ritual, e que, portanto, é em si mesmo suficiente para a consecução do seu fim, mesmo na ausência da execução concreta daquele. Isto quer dizer que o sacrifício não é apenas aquele que se realiza na ação, mas também aquele que se realiza pelo conhecimento (vidyā), ambos sendo formas de tapas (ardor ascético): deste modo abre-se o caminho para a via sapiencial desde o interior da via sacrificial do Veda. Quando por esse conhecimento o luminoso ardor do Si-mesmo no coração do homem reconstrói em si o corpo integral do Sacrifício universal, lhe advém a conquista da verdade da unidade transcendente do Incriado, e o homem se transfigura na divindade e a anuncia em primeira pessoa (ātmastuti).

Com tudo isso, parece estar faltando uma definição daquele que talvez seja o conceito védico mais comumente reconhecido pelo público em geral: brahman. Buscarei explorar esse conceito agora, e na medida em que o faço, os conceitos acima enunciados como que se reunirão e, além disso, abriremos as portas para a compreensão do paradigma da Vedānta.

BRAHMAN COMO MANTRA OU O PODER DA PALAVRA SAGRADA

O Sacrifício é o si-mesmo de todos os seres e de todos os deuses, diz o Śatapatha Brāhmaṇa (14.4.2.1)do Śukla Yajurveda. Como foi dito há pouco, pode-se pensar o Sacrifício em suas funções (gerador, sustentador e destruidor), mas também em sua verdade interna (ṛta). De fato, ṛta é talvez o mais importante dos conceitos védicos. Ele é traduzido de múltiplas formas, dentre os quais: ordem divina, verdade eterna, justiça, santidade, sacrifício, lei formativa de um embrião ou de um poema.  Elizarenkova (“Language and Style of the Vedic Ṛṣis“, pp. 282-283) comenta que todas essas camadas de sentido são variantes contextuais de uma mesmo significado central do termo ṛta, que é pensado como “verdade eterna” num contexto teorético, ou como “sacrifício” num contexto operativo, e que assume formas adjetivas quando se diz de algo que é conforme à sua lei – ‘apropriado’, ‘bom’, ‘sagrado’, ‘verdadeiro’, ‘piedoso’. De fato, o traço distintivo desse conceito é conter em si o sentido declarativo de algo que “é” (tattva) ou que “é verdadeiro” (satya); quanto o sentido prescritivo daquilo que ordena, unifica e harmoniza (dharma) as coisas ao conformá-las a si por sua operação (o sacrifício). É notável que as duas principais escolas exegéticas do Veda (Pūrva e Uttara Mīmāṁsā-s) o abordam segundo uma dessas duas camadas de sentido de ṛta: enquanto princípio ordenador, na via teúrgica; e enquanto princípio do real, na via gnóstica.

(Seguirei aqui A. Sandness, “On Ṛta and Brahman – Visions of existence on Ṛgveda”, pp. 61-62, 64-69, 71-77). 

De forma bastante ampla, portanto, ṛta é a própria sabedoria divina, pensada em si mesma ou em sua relação ordenadora com o mundo. Os hinos védicos a representam como as águas primordiais das quais, uma vez ativadas, fluem correntes ininterruptas ao mundo como ofertas, de modo que todos os seres nela têm a sua subsistência. Ela, no entanto, nunca é dita como sujeito de um verbo, pois não é concebida como uma agente independente, se atualizando através dos condutos do seu fluxo. É dito que os deuses existem nesse fluxo: eles têm seu dhāman – seu poder, natureza, essência – na sua lei (dharma), no modo em que manifestam ṛta. Também os demais seres, humanos inclusive, têm sua essência e potência no modo em que a atualizam. Neste sentido ela é una (em si) e múltipla (em todas as coisas que a ela se conforma), o princípio eterno que subjaz toda a existência e a concede estabilidade e continuidade.

Os deuses subsistem no fluxo de ṛta; mas os seus condutos é que condicionam esse fluxo. Na ordem ritual, os dois condutos dessas correntes divinizantes são o rito sacrificial e o a fala sagrada ou hinos mântricos, ambos sendo ditos encarnações da verdade. No plano divino, o Sacrifício nasce do assento de ṛta nas águas primordiais como Agni, a língua dos deuses, que jazendo no ventre de sua mãe e brilhando no espaço inexaurível ilumina o céu (R̥gveda Saṁhitā, 6.16.35-36); e Soma, o néctar, que é aquele que a manifesta sob a forma da fala criativa, que dela flui em ondas nectarinas purificantes. Soma é o vidente dessa luz, o pai dos hinos sagrados que porta a visão de ṛta aos poetas-videntes, que a recebem como num influxo repentino de sacralidade e entendimento extraordinário. Agni, em sua forma solar, é identificado com um cisne (haṃsa) que reside no céu saboreando o néctar de Soma, que emana de ṛta sob uma forma mântrica (Śukla Yajurveda, Vājasaneyi Saṁhitā, 19.74). É dito no Atharvaveda Saṁhitā (10.8.19) que é pela verdade (satya) que esse haṃsa brilha no céu, e por brahman que fita o mundo desde aquela elevada estação.

No R̥gveda Saṁhitā, brahman é fundamentalmente o próprio hino ou fórmula mântrica, ou o poder sagrado da palavra. Nos sūtras ou manuais rituais que formam o Vedāṅga (ciência auxiliar) chamado Kalpa, brahman é o sacrifício e o seu poder efetivo. De fato, brahman é o poder que causa e conduz o fluxo das correntes de ṛta, e por isso é identificado com Agni e Vāk, o sacrifício e a palavra, pelo Śatapatha Brāhmaṇa (2.1.4.10) do Śukla Yajurveda. Além disso, no entanto, brahman é também um com ṛta,  a semente que nela jaz, razão por que ambos são também identificados um com o outro pelo mesmo texto (4.1.4.10). Brahman é pensado como a luz solar, intrínseca à sua fonte (o ventre da verdade) e dela emanando (Vājasaneyi Saṁhitā, 23.48). Desta forma, abrangendo a verdade imanifesta e sua expressão, brahman é uno e múltiplo, a tudo permeia e conecta. Diz Sandness (p. 77) que ṛta e brahman “são ambos aspectos de uma única imagem que os poetas ou videntes do Ṛgveda viram e retrataram (…). o princípio eterno que é ṛta e o brahman em seu interior formam uma única unidade cognitiva, vista pelo poeta visionário como uma única imagem.” No entanto, ao contrário de ṛta, que nunca ocorre associada a um verbo, brahman ocorre tanto como sujeito quanto objeto de verbos, isto é, como sujeito e objeto do irradiar das correntes da verdade.

(Seguindo aqui Barbara Holdrege, “Veda and Torah”, pp. 231-234) No plano humano o sábio ou vidente é aquele a quem a Palavra se revela. É dito que ele se eleva ao plano luminoso onde habitam os mantras védicos, na divina morada do Imperecível (akṣara) além do céu (R̥veda Saṁhitā, 1.164.39), onde eles “descobriram a luz oculta e geraram a aurora com os verdadeiros mantras” (ibi., 7.76.4), de modo que suas visões inspiradas tomam forma no seu coração e são expressas em forma vocálica pela fala em cadências poéticas. Esses mantras são descritos como “plenos de ṛta” (ibid., 8.95.5),  formas sonoras iluminadas cobertas em bela vestimenta branca (ibid., 3.39.2), brilhantes como a chama do fogo (8.6.7), expandindo-se como a luz celestial quando recitados (ibid., 1.173.1) pelos videntes que irradiam a sua luz radiante como o Sol (ibid., 7.33.8). E todo este processo é concebido como a Deusa da Palavra (Vāk) tomando-os e revelando-os a Sua natureza oculta, e assim concedendo-os o poder de brahman e fazendo-os sábios (ibid., 10.71.34; 10.125.5). Assim, a palavra sagrada revelada aos poetas-videntes é cheia de ṛta e potente com brahman. Essa potência é tanto poder de ação quanto de conhecimento; isto é, instrumento de aplicação ritual e objeto de entendimento. Inseparável do mantra na sua recepção e transmissão é o brāhmaṇa, a instrução (upadeśa) a respeito do seu sentido interno, que também pode ser aplicado para as finalidades do ritual ou contemplado enquanto objeto de entendimento (em qual caso é também chamado de upaniṣad). De fato, a palavra sagrada é especialmente dita potente com brahman na medida em que tem a forma de um “enigma”, que oculta e revela simultaneamente. Explica Sandness (pp. 71-73, 77) que a forma enigmática da palavra indica que ela compreende em si o silêncio e o som, o imanifesto e o manifesto; isto é, o modo como a potência de brahman jaz no Imperecível (akṣara), a morada de ṛta, e simultaneamente a manifesta diversamente no mundo. (Mais adiante retomaremos esse aspecto enigmático da palavra e a sua relação com o brāhmaṇa ou instrução.)

Mantra e brāhmaṇa assim formam um par análogo ao de Vāk e Prajāpati, a Palavra e a Mente. O sentido primário de brahman é a Palavra sagrada, que é expressa (nirukta) e não-expressa (anirukta), pois habita na verdade, uno com ela, mas também a diz. Nesse sentido brahman é o próprio Veda (singular), no sentido do conhecimento (vid) divino, do qual os Vedas (plural) são uma manifestação. A deusa Vāk, o Veda e o brahman são uma e a mesma coisa neste contexto. Num sentido secundário, brahman designa também o sacrifício, cujo poder eficiente é a palavra sagrada ou mantra. Pensado enquanto deidade o Sacrifício é o Puruṣa (Prajāpati), que tendo brahman por seu próprio corpo e fundação, é chamado também de Brahmanaspati, o senhor de brahman; ou de veda-puruṣa, a pessoa que é constituída do Veda (R̥gveda, Aitareya Āraṇyaka, 3.2.3; Śāṅkhāyana Āraṇyaka, 8.3). Em outros termos, se a Palavra é o instrumento da agência ritual, Prajāpati é mente agente; se a Palavra é o conhecimento e a sabedoria divina, Puruṣa-Prajāpati é a mente que conhece. Ele é o sacerdote primordial (Agni) e o vidente primordial (Soma). Nele a palavra verdadeira habita, e nascendo através dela (expressando-se) ele é o duplo conduto da manifestação da sua verdade ordenadora no mundo. Por isso se diz a seu respeito no Śatapatha Brāhmaṇa (7.3.1.42) do Śukla Yajurveda, que “Prajāpati é a totalidade (sarva) de brahman”, e também que “o brahman é Prajāpati, pois Prajāpati tem a natureza do brahman” (13.6.2.8).

(Seguindo aqui Barbara Holdrege, “Veda and Torah”, pp. 47-50, 53-54, 56, 57-60, 62)

Nas narrativas cosmogônicas da porção Brāhmaṇa dos Vedas, algumas passagens das quais foram mencionadas nas duas primeiras partes desta série, vemos com frequência a imagem que relaciona aqueles dois – Prajāpati/Mente e sua consorte Vāk/Palavra. Comumente esses textos atribuem precedência do primeiro sobre a segunda, nos planos humano e divino, na medida em que a mente é compreendida ser não-expressa (anirukta) e ilimitada (aparimita) relativamente à palavra, que por sua vez é dita ser o contrário (nirukta e parimita). No entanto, outras passagens reconhecem ambas dimensões na própria palavra, que então é dita possuir os aspectos não-expresso/ilimitado e expresso/limitado. O aspecto ilimitado é identificado com o Veda, o conhecimento divino em sua infinitude indivisa, figurado como as águas primordiais, enquanto o seu aspecto limitado é compreendido como sendo a elocução mântrica do Veda sob a forma dos Vedas, mantras esses que são dotados de potência cosmogônica. Esta dupla natureza é apresentada, por exemplo, num trecho que descreve como Prajāpati “escava” a Palavra das profundezas silenciosas do oceano da mente (que é a forma não-expressa/ilimitada da palavra) e então a dá a expressão vocálica dos mantras védicos (Śatapatha Brāhmaṇa, 7.5.2.52).

Reunindo as distintas narrativas a este respeito, Holdrege sintetizou essa cosmogonia como um processo de duas fases, marcados pela passagem da unidade imanifesta e indiferenciada para a manifestação diferenciada, em ambas as quais Prajāpati e Vāk participam. No primeiro estágio, Prajāpati deseja se reproduzir e se une a Vāk, a Palavra em sua transcendência infinita/imanifesta, e nela deposita sua semente, a sua concepção. Esta se torna um embrião dourado, que é a totalidade do universo em estado seminal. Este primeiro estágio se dá no silêncio meditativo da mente, em que a fala é dita estar contida. No segundo estágio, desse embrião emerge a forma nascida de Prajāpati, o qual então fala, enuncia as palavras criadoras em uma série de atos discursivos. Essa sua fala é a segunda fase da Palavra/Vāk, expressa e diferenciada, por meio da qual o embrião é dividido sob a forma dos três mundos e seus seres. No primeiro estágio a Palavra é o Veda, o brahman que serve como fundação ao próprio criador; no segundo estágio ela toma a forma dos mantras dos três Vedas hieráticos (R̥g, Yajur, Sāma), cada um dos quais é o modelo sutil o plano interno de cada um dos três mundos respectivamente (terrestre, atmosférico, celeste), as palavras sagradas que revelam e constituem a sua estrutura subjacente.

A essência de cada um dos três Vedas hieráticos é representada por três sílabas, os vyāhṛtis ou enunciações sagradas, das quais emergem todos os mantras dos respectivos Vedas, que por sua vez dão origem aos três mundos. Essas sílabas são bhūḥ (correspondente ao mundo terreno e ao R̥gveda), bhuvaḥ (correspondente ao mundo atmosférico e ao Yajurveda) e svaḥ (correspondente ao mundo celeste e ao Sāmaveda). Ora, no ritual védico três sacerdotes distintos eram responsáveis pela enunciação dos mantras desses três Vedas: o sacerdote hotṛ enunciava os versos (ṛcs) do R̥gveda, sendo o responsável por invocar as divindades; o sacerdote adhvaryu enunciava as fórmulas rituais (yajus) do Yajurveda, sendo o responsável pelos atos sacrificiais; e o sacerdote udgatṛ enunciava as canções (sāmans) do Sāmaveda, sendo o responsável pela elevação contemplativa do rito ao mundo celeste. Pois o Prajāpati nascido das águas é representado nos Brāhmaṇas como o vidente primordial a quem os vyāhṛtis dos três Vedas são revelados (R̥gveda, Aitareya Brāhmaṇa, 2.16; Sāmaveda, Pañcaviṁśa Brāhmaṇa, 7.5.1; Jaiminīya Brāhmaṇa, 1.116), bem como o sacerdote primordial que os enuncia ritualmente (R̥gveda, Aitareya Brāhmaṇa, 4.23; 5.32; Sāmaveda, Pañcaviṁśa Brāhmaṇa, 4.1.4), de quais enunciações se manifestam os mantras védicos (versos, fórmulas e canções), dos quais emergem cada um dos três mundos. Prajāpati é o sacerdote hotṛ que enuncia a sílaba bhūḥ, da qual se manifestam os versos do R̥gveda, e destes o mundo terrestre: nesta capacidade ele é o deus Agni qua regente do mundo terreno, e suas várias agências rituais e mântricas são os vários deuses terrenos que são as formas de Agni. Prajāpati é o sacerdote adhvaryu que enuncia a sílaba bhūvaḥ, da qual se manifestam as fórmulas do Yajurveda, e destas o mundo atmosférico: nesta capacidade ele é Vāyu, o deus regente do mundo atmosférico, e suas várias agências rituais e mântricas são os vários deuses atmosféricos que são as formas de Vāyu. E Prajāpati é o sacerdote udgatṛ que enuncia a sílaba svaḥ, da qual se manifestam os cânticos do Sāmaveda, e destes o mundo celeste: nesta capacidade ele é o deus solar (Sūrya/Āditya), regente do mundo celeste, e suas várias agências rituais e mântricas são os vários deuses celestes que são as formas de Sūrya/Āditya.

De forma mais abstrata, diz o Taittirīya Brāhmaṇa (3.12.9.1-2) do Kṛṣṇa Yajurveda que os versos (ṛcs), fórmulas (yajus) e cânticos (sāmans) védicos são as fontes da forma (mūrti), da moção (gati) e da luz (tejas); e conclui que “tudo isso (sarvam idam) de fato é manifesto por brahman (a Palavra)”. Temos aqui talvez a versão mais antiga da doutrina clássica das três qualidades (guṇas) da natureza: inerte (tamas), dinâmica (rajas) e luminosa (sattva), de modo que cada um dos três mundos seja de fato composto pelas três, mas com predominâncias distintas.

Em outras passagens (e.g., R̥gveda, Aitareya Brāhmaṇa, 5.32), as três sílabas da enunciação sagrada – bhūḥ, bhuvaḥ, svaḥ – são condensadas em três letras (a, u, m). Combinadas indivisivelmente, as letras ‘a’ e ‘u’ formam o som ‘o’, e a letra ‘m’ lhe acrescenta nasalização, formando assim a sílaba Oṁ. Essa sílaba é considerada a forma mais concentrada da essência do Veda (Sāmaveda, Jaiminīya Brāhmaṇa, 1.322; 1.336), a sílaba (akṣara) imperecível (akṣara), a forma imanifesta, infinita, indivisa da divina Palavra. A essa sílaba corresponde o quarto sacerdote do rito védico, chamado Brahman, e que com o tempo veio a ser associado ao Atharvaveda, que também é chamado de Brahmaveda (falarei mais a respeito deste quarto sacerdote mais adiante). Vejamos alguns trechos do corpus védicos que enunciam algo dessa visão geral que foi aqui apresentada (notando que a ordem das manifestações é dada de modos distintos):

“Prajāpati desejou, ‘que eu me torne muitos, que eu reproduza’. Ele meditou silenciosamente em sua mente; o que estava em sua mente, isso se tornou o bṛhat (saman) [o conteúdo]. Ele pensou, ‘esse meu embrião (garbha) está oculto; eu o manifestarei através da palavra (Vāk).’ Ele emitiu a fala. A fala se tornou rathantara [a expressão do conteúdo].” (Sāmaveda, Pañcaviṁśa Brāhmaṇa, 7.6.1-3)

“Prajāpati apenas era (no início); a Palavra era sua única (possessão): a Palavra era o segundo (existente). Ele pensou: ‘Que eu emita esta Palavra, para que ela permeie o todo’. Ele emitiu a Palavra e ela permeou este todo. Ela elevou-se como um fluxo contínuo de água. (…) Prajāpati dividiu a Palavra, que era uma sílaba (ekākṣara), em três partes. Estas se tornaram os mundos.” (Sāmaveda, Pañcaviṁśa Brāhmaṇa, 20.14.2; 20.14.5)

“(Dizendo) ‘bhūḥ’, ele extraiu a essência do R̥gveda. Aquele se tornou este mundo terrestre. A essência daquele que fluía se tornou Agni, a essência da essência. (Dizendo) ‘bhuvaḥ’, ele extraiu a essência do Yajurveda: este se tornou o mundo atmosférico. A essência daquele que fluía se tornou Vāyu, a essência da essência. (Dizendo) ‘svaḥ’, ele extraiu a essência do Sāmaveda. Este se tornou o mundo celeste além. A essência tornou-se Āditya, o Sol, a essência da essência. Agora, com apenas uma sílaba (akṣara), ele não foi capaz de extrair a essência: Oṁ, somente isso. Isso se tornou essa Vāk. ” (Sāmaveda, Jaiminīya Upaniṣad Brāhmaṇa, 1.1.1-7)

“Prajāpati desejou ‘que eu possa ser propagado’; que eu possa ser multiplicado’. Ele exerceu o ardor; havendo exercido o ardor, ele criou estes mundos: a terra, a atmosfera, o céu. Ele meditou sobre esses mundos; desses mundos, quando sobre eles meditou, nasceram os luminares: Agni nasceu da terra, Vāyu da atmosfera, Āditya do céu. Ele meditou sobre esses luminares. Meditando sobre esses, nasceram os três Vedas: o R̥gveda nasceu de Agni, o Yajurveda de Vāyu, o Sāmaveda de Āditya. Ele meditou sobre esses Vedas; desses (Vedas) quando sobre eles se meditou nasceram três puros (sons): bhūḥ do R̥gveda nasceu, bhuvaḥ do Yajurveda, svaḥ do Sāmaveda. Ele meditou sobre esses puros (sons): destes quando sobre eles se meditou nasceram três sons: a letra ‘a’, a letra ‘u’ e a letra ‘m’. Ele as reuniu; isso fez (a palavra) oṁ. Assim com o oṁ se diz o Praṇava. Oṁ é o mundo celeste; oṁ é aquele excelso ardor. Prajāpati ofereceu o sacrifício; ele o tomou; com ele sacrificou. Ele exerceu a função do (sacerdote) Hotṛ apenas com os R̥c (versos), (a função do sacerdote) Adhvaryu com os Yajus (fórmulas), (a função do sacerdote) Udgātṛ com os Sāmans (cânticos). Ele exerceu a função do (sacerdote) Brahman com a pura (parte) do conhecimento tríplice.” (R̥gveda, Aitareya Brāhmaṇa, 5.32)

“Existem, seguramente, duas formas de Brahman, a com forma (mūrtaṁ) e a sem forma (amūrtam). (…) Na verdade, essa (sem forma) veio a ter ‘auṁ’ como seu si. Ela se dividiu em três partes (a, u, m). Por meio destas tudo isso (mundo) é tecido, urdido e tramado, sobre (brahman). […] Existem, na verdade, dois brahman a serem meditados, o sonoro e o não-sonoro. Pelo sonoro apenas o não-sonoro é revelado. (…) Lá (no imanifesto não-sonoro) eles (os sons) são indescritíveis e indistinguíveis, como os vários sucos que atingiram a condição de mel. Pois assim foi dito: “existem dois brahman a serem conhecidos, o brahman sonoro e o superior. Aqueles que conhecem o brahman sonoro chegam ao brahman superior (…) (que) é tranquilo, silencioso, sem medo, sem tristeza, feliz, satisfeito, firme, imóvel, imortal, inabalável, duradouro”. (Kṛṣṇa Yajurveda, Maitrāyaṇīya Upaniṣad, 6.3; 6.22-23)

Temos assim que a Palavra em sua indivisibilidade é o brahman supremo, Veda não-expresso, infinito, que é a fundação do supremo Puruṣa anterior à criação do mundo e representado pela sílaba Oṁ. Por outro lado, a Palavra enunciada em três Vedas, sílabas ou letras em sua divisibilidade é o brahman inferior, que é a potência de conhecimento e ação do Puruṣa nascido, que é o vidente e sacerdote que ordena o cosmos em conformidade com ṛta.

Vimos que os três sacerdotes que presidem sobre a enunciação da Palavra ou brahman inferior são aqueles responsáveis por entoar os versos (ṛcs) que invocam os deuses, as fórmulas (yajuses) que acompanham as ações sacrificiais, e os cânticos (sāmans) que elevam o rito à contemplação. O quarto sacerdote, por sua vez, será aquele que corresponde à Palavra ou brahman superior, impronunciada e infinita. Henk W. Bodewitz (“Vedic Cosmology and Ethics”, p. 54) comenta que, no simbolismo numérico dos Vedas, quando um elemento é acrescentado a uma totalidade ele é apresentado como aquele que transcende, resume e compreende a totalidade daquela série à qual é acrescido. Isto é, este elemento extra forma uma dualidade com aquela totalidade, da qual se distingue, mas também a inclui e permeia. Esta é a natureza do quarto sacerdote relativamente aos outros três, bem como do Oṁ relativamente aos vyāhṛtis dos três mundos (bhūḥ, bhuvaḥ, svaḥ). No rito sacrificial, ao contrário dos outros três sacerdotes que se engajam na fala e na ação, este quarto sacerdote mantem-se em silêncio e inativo, como uma presença passiva atenta. Enquanto cada um dos outros três sacerdotes é conhecedor apenas do seu respectivo Veda, o quarto sacerdote conhece a todos os Vedas, e é por esse conhecimento completo apenas que sua contribuição ao rito se dá, pois por sua atenção silenciosa os erros dos demais sacerdotes são ritualmente retificados.

As funções dos três sacerdotes que são homologadas aos três mundos e aos três Vedas hieráticos, também são homologadas no domínio subjetivo com certas faculdades (Śukla Yajurveda, Śatapatha Brāhmaṇa, 12.3.4.7-10; Sāmaveda, Jaiminīya Brāhmaṇa, 1.326; Jaiminīya Upaniṣad Brāhmaṇa, 1.9.2, 3.34.1): a fala, associada ao mundo terreno, ao princípio da forma (mūrti) e aos versos (ṛcs) védicos; a força vital ou a mente sensorial, associada ao mundo atmosférico, ao princípio do movimento (gati) e às fórmulas (yajus) védicas; e a visão ou a mente intelectiva, associada ao mundo celeste, ao princípio da luz (tejas) e aos cânticos (sāmans). Mas ao sacerdote brahman corresponde a Mente pura que tem por fundação o silêncio infinito da Palavra ou brahman superior, aquela a respeito da qual diz o Śatapatha Brāhmaṇa (10.5.3.1-2) que era no princípio, antes que o ser e o não-ser fossem. Se os outros três sacerdotes correspondem ao Puruṣa nascido das águas, o vidente e sacerdote primordial que é conduto das correntes de ṛta, o sacerdote brahman é o análogo ritual do Puruṣa não-nascido, supracósmico ou pré-cosmogônico. E assim como esse sacerdote é dito ser o coração do sacrifício (ibid., 12.8.2.23), assim também aquela mente pura é, no domínio subjetivo, o coração ou ātman. Bodewitz (sp., p. 59) apresenta alguns dos elementos dessa distinção categorial entre o sacerdote brahman e os outros três:

Cosmos triádicoTotalidade supracósmica
Sacerdotes especializadosSacerdote Brahmán
Sentidos específicosMente (ātman)
DiferenciaçãoTotalidade indiferenciada
O brahman com forma (mūrtaṁ)O brahman sem forma (amūrtaṁ)
FalaSilêncio

Essa distinção geral, como foi dito, corresponde no plano teológico àquela distinção mítica entre o Puruṣa/Prajāpati não-nascido, pré-criação, transcendente e quiescente; e aquele que nasce das águas e é ativo, abarcando toda a criação e os seus deuses. Ambos são na verdade um e o mesmo, se distinguindo enquanto o sujeito da Palavra (brahman) superior silenciosa e enquanto sujeito da Palavra inferior pronunciada. Essa dupla natureza da divindade relativamente aos estados manifesto e imanifesto da palavra, se espelha no domínio subjetivo como uma dupla natureza do si-mesmo de cada um.

A Muṇḍaka Upaniṣad (3.1.1-3) do Atharvaveda fala de dois pássaros residindo numa mesma árvore (brahman), um pássaro estando com ela engajado na experiência diversa e sua dualidade de prazer e dor; enquanto o outro apenas a testemunha silenciosamente. Até que o primeiro pássaro, tomado pela alternância que envolve a dor, se volta ao segundo pássaro glorioso e nele reconhece a fonte daquele brahman. Esses dois ‘eus’ em nosso interior são análogos àqueles dois estados relativos do Puruṣa: o ativo que, como os três sacerdotes, é associado às qualidades dos três mundos que vimos acima (forma, moção e luz); e o quiescente, a forma interna do sacerdote Brahmán. A Maitri Upaniṣad (2.4-5; 3.1-3; 2.7) do Kṛṣṇa Yajurveda fala do si-mesmo puro, destacado daquelas três qualidades, tranquilo, livre de desejos, infinito, independente, não-nascido, que habita em sua própria glória. Seu nome é puruṣa, e é dele que advém a inteligência que desperta o corpo. O outro, o si-mesmo inferior, é aquele que é afetado pelas qualidades da manifestação, pelas boas e más ações, que assim entra em distintos ventres (que é sujeito ao renascimento) e ascende e descende a escada dos seres. Ele é, em outras palavras,  o agente das ações que toma múltiplas formas ao longo do seu devir, caracterizado pela confusão e ignorância a respeito do ‘eu superior’, e chamado de bhūtātman (o si elemental). No entanto, realmente falando, é o puruṣa livre e puro que brilha em meio às qualidades como se fora o agente nelas envolvido, enquanto em verdade se mantém livre, puro, quiescente, livre de desejo, uma testemunha fixada em sua própria luz. As Upaniṣads prescrevem meditação sobre o Oṁ no espaço interno do coração a fim de realizar aquele puruṣa, uma vez que esta é a sílaba símbolo do brahman superior, a Palavra ou Veda infinito e silencioso, o sujeito do qual é aquele eu superior. Retomaremos este tema do autoconhecimento mais adiante.

Para fechar esta primeira seção do texto, trago algumas passagens do Gopatha Brāhmaṇa (1.1.1-4; 1.1.39; 1.1.16; 1.1.25; 1.1.30) do Atharvaveda, em que encontramos uma expressão sintética dos elementos tratados até aqui. Vemos a dupla natureza de Puruṣa-Prajāpati, a eterna e a nascida, designadas como brahman; vemos as águas descritas como a sabedoria do brahman superior, ṛta, pela qual ele reflete sobre si (vê-se a si mesmo) e assim concebe o brahman inferior, o seu “eu” ativo, que é identificado com o Sacrifício. É dito que a sílaba Oṁ é o brahman, a semente ou sílaba imperecível que a tudo contém de forma infinita (indiferenciada), e cujos componentes sonoros são identificados com as três formas do Sacrifício vistas no texto anterior (Brahmā, Viṣṇu, Śiva). Conhecendo este brahman (Oṁ) pela meditação e pelo raciocínio correto composto de perguntas e respostas, é obtido o fruto supremo do espírito interno e eleva-se ao estado imortal:

“Oṁ. Este Brahman, de fato, no início era o único Auto-existente apenas. Ele refletiu: ‘Eu sou o grande Yakṣa (o espírito divino), um apenas. Ó, que eu crie de mim uma segunda Deidade de igual medida comigo mesmo.’ Ele exerceu-se, aqueceu-se, aqueceu-se completamente. Da testa deste (Brahman) (…) suor e umidade foi gerado. Este ficou encantado com isso, e disse-se: ‘Eu, o grande Yakṣa, conheci o bom conhecimento.’ (…) Aquilo que é (realmente) bom conhecimento misticamente eles chamam de suor. (…) Ele (o Brahman) exerceu-se ainda mais, aqueceu-se ainda mais, aqueceu-se ainda mais completamente. De todos os poros do cabelo daquele (…) várias correntes de suor escorreram. Por meio delas, ele ficou encantado. Ele disse (para si mesmo): ‘com estas (correntes de suor) eu apoiarei tudo isso, seja o que for (que deve ser apoiado); com estas, criarei tudo isso, o que quer que seja (que deve ser criado); (e) com essas, obterei tudo isso, seja o que for (que deve ser obtido)’. (…) a partir daí as águas passaram a existir. (…) Ele (o Brahman), tendo criado essas águas, continuou olhando-as, nelas fitou sua própria imagem. Dele (o Brahman) que estava olhando essa (imagem), a semente caiu por vontade própria, e permaneceu nas águas. […] daí Prajāpati surgiu; é por isso que Prajāpati tem o seu nome. Prajāpati, de fato, é o Atharvan (o vidente). […] Quanto ao verso, ‘As águas que produzem um embrião’. Puruṣa (o Brahman) é um embrião das águas; ele (de fato) é o Sacrifício. O Sacrifício manifesto por meio das águas é propagado (…). Este Puruṣa é o Brahman, e isso é uma satisfatória doutrina védica; de fato, graças a esta, ele conhece essa flor de lótus como Puruṣa. (…) Aquele (Brahman) que é a flor (expansão), (é a) forma e espaço aberto das águas e que é o superior e mais sagrado […]. O Brahman (neutro.), de fato, criou o Brahman (masc.) sobre uma folha de lótus. Ele, o Brahman tendo sido criado, de fato, engajou-se em pensamento: ‘Por qual sílaba posso perceber tudo (o que é) desejável, todos os mundos, todos os deuses, todos os Vedas, todos os sacrifícios, todas as palavras, todas as frutificações (auroras), todos os seres imóveis e móveis?’ Ele observou o celibato. Ele percebeu a sílaba ‘Oṁ‘ – de duas letras, quatro moras (unidades de som), Brahman onipresente, preeminente e imutável, o vyāhṛti (enunciação sagrada) pertencente ao Brahman e tendo o Brahman como sua divindade. Com isso (vyāhṛti Oṁ), ele percebeu (tudo o que é) desejável, todos os mundos, todos os deuses, todos os Vedas, todos os sacrifícios, todas as palavras, toda a fruição (aurora), todos os seres imóveis e móveis. […] “Eles dizem que as duas sílabas ‘a’ e ‘u’ têm metade das quatro moras (que são pronunciadas como) as agudas (e) no som ‘m’ há uma consoante. Aquela que é a primeira mora, tem Brahmā como sua divindade e sua cor é vermelha. Quem medita sobre essa (mora), sempre vai para a morada de Brahmā. Aquela que é a segunda mora, tem Viṣṇu como sua divindade e sua cor é escura (azul). Quem medita sobre essa (mora), sempre vai para a morada de Viṣṇu. Aquela que é a terceira mora, tem Īśāna (Śiva) como sua divindade e sua cor é marrom. Aquele que medita sobre essa (mora), sempre vai para a morada de Īśāna. Aquilo que é a meia-mora além das três [a ressonância silenciosa após o Oṁ], tem todos os deuses como sua divindade – manifesta, ela vagueia pelo céu e sua cor é como puro cristal. Aquele que medita sobre essa (meia-) mora sempre vai para a morada inominável. (…) Ela tem Rudra como sua divindade. Essa é então a (natureza da) sílaba ‘Oṁ‘ dos Vedas. […] “A sílaba ‘Oṁ‘ é o espírito supremo, a cura do si, a salvação do si. Tendo cessada a ansiedade acerca das criaturas, (que é) a única (via de) união (com Oṁ), ele deveria pensar sobre o (supremo). Tendo cruzado (estudado) os Vedas, ele obtém fruto pleno do supremo espírito (interno), este é o propósito (da sílaba Oṁ). Aquele que raciocinou bem sobre a sílaba apropriada (Oṁ), (cujo raciocínio) consiste de conhecimento por perguntas e respostas, quem conhece o contexto ou o texto, torna-se fortalecido e especialista em todas as discussões sagradas (vākovākya).”

BRAHMAN COMO BRĀHMAṆA OU O CONHECIMENTO SAGRADO

A cosmogonia expressa nos Brāhmaṇas dos Vedas concebe a criação do mundo como uma emissão da totalidade plural dos seres (viśva) a partir da totalidade indivisa do divino (sarva). Esta, no entanto, é apenas uma emissão ou criação “natural”, que não constitui ainda um cosmos ou totalidade ordenada (samāna). Consequentemente, o mundo emitido é concebido como uma espécie de caos em sua existência natural, sobre o qual a segunda criação é exercida sob a forma de um ritual sacrificial ordenador que adequa o mundo a ṛta, assim “encarnando” esta última. Enquanto tal, a segunda criação sacrificial é, na verdade, um dever-ser, dharma, com o qual colaboram os deuses e os homens em suas ações sacramentais. Do mesmo modo, na concepção védica da antropogonia, uma criança nascida não é ainda um ser humano, mas apenas uma criação ou emissão natural a ser completada pela construção ritual do ser humano através dos ritos sacramentais (os saṁskāras), que consagram aquele ser natural “nascido da carne” num ser espiritual “duas vezes nascido” (dvija).

De todo modo, é interessante observar aqui que a emissão primária ou criação natural do mundo é descrita nos textos védicos como compondo duas formas distintas de caos, que representam excessos metafísicos opostos a serem curados pela ação consagrante ou sacramental que é o rito sacrificial dos deuses e dos homens. Um deles é o chamado jāmi: o caos pelo excesso metafísico da semelhança, da uniformidade, da redundância, em que a totalidade plural (viśva) dos seres é emitida de tal forma que eles se encontram como que amorfos. A cura desse excesso metafísico é pela introdução ritual de nāmarūpa (nome-e-forma) no mundo, o que é feito pelo poder sagrado do mantra (brahman) que concede às coisas o seu nome noumênico, e assim os dá individuação. O outro é chamado pṛthak, o caos do excesso metafísico da diferença, isolamento, multiplicidade fragmentada, variedade não-relacionada. Se no primeiro caos os seres careciam de limites e contornos individuantes, agora esses são tão excessivos que resulta num mundo de átomos incomensuráveis entre si. A cura desse excesso metafísico se dá pela inserção ritual no mundo de analogias ou homologias universais, por laços de mutualidade e reciprocidade. Isso também é uma função da Palavra, que é capaz de expressar e referir a coisas de ordens distintas pelo mesmo nome, ou referir a distintos indivíduos pelo mesmo nome; em outros termos, que é capaz de expressar um universal. Se a primeira cura se dava pelo mantra, esta segunda se dá pelo brāhmaṇa, o segundo aspecto fundamental da constituição do Veda/Vāk. Ambos mantra e brāhmaṇa são as potências de brahman que jazem em ṛta, a verdade incriada, e que a atualiza no mundo ao fazer com que este a ela se adeque. (cf. Brian Smith, “Reflections on Resemblance, Ritual, and Religion”, pp. 50-69)

Na seção anterior começamos explorando o brahman como o poder da palavra sagrada que se revela como mantra, e que no domínio teológico é a deusa Vāk. Vimos sua natureza superior e a inferior, imanifesta e manifesta. Também foi apontado, a partir daí, que brahman também se refere àquele que é o sujeito da palavra sagrada, à mente que se revela como brāhmaṇa (a instrução) ou o portador do sentido do mantra, e que no domínio teológico é Prajāpati. O Veda (brahman) é, de fato, mantra e brāhmaṇa inseparavelmente. Para que compreendamos plenamente o sentido originário do conceito de brahman nos é necessário, portanto, atentar-nos à natureza fundamental daquele gênero literário interno ao corpus védico (os Brāhmaṇas) que propõe um paradigma epistêmico específico pelo qual os mantras podem ser aplicados e/ou entendidos. Este paradigma, que Brian Smith (“Reflections on Resemblance, Ritual, and Religion”, p. 73) chamou de “programa epistemológico do Vedismo” (como um todo), se apresenta resumidamente na seguinte questão posta pelo R̥gveda Saṁhitā (10.130.3): “Qual era o protótipo (pramā), qual era a contraforma (pratimā), e qual era a conexão (nidāna) entre eles?”

Os dois primeiros termos estabelecem o vocabulário fundamental do que é chamado de “exemplarismo védico”: pramā (ou rūpa)é o protótipo, o paradigma, o exemplar, o arquétipo; e pratimā (ou pratirūpa) é a a contraforma, a imagem, o exemplo, o éctipo. Na tradição posterior, essas duas ideias frequentemente são expressas pelos termos bimba (refletido)e pratibimba (reflexo), uma metáfora conceitual que toma por ‘domínio fonte’ o fenômeno do reflexo visual de um objeto sobre um espelho ou uma superfície aquosa. O modelo de pensamento que esses pares indica é como aquele da ideia e sua instanciação no Platonismo (cf. Asko Parpola, “On the Symbol Concept”, p. 148). A misteriosa conexão entre eles, que os ata em laços de semelhança e homologia, é chamada nidāna, bandhu ou upaniṣad. Essas conexões de “participação” ocorrem tanto horizontalmente, entre entes de um mesmo plano, quanto verticalmente, atravessando planos distintos – sendo que o termo nidāna especialmente designa as conexões verticais. Os vínculos de ordem vertical seriam, nas palavras de Parpola (sp, p. 150), “a conexão misteriosa ou relação entre entidades deste mundo e entidades ‘ideais’ transcendentais do mundo divino, que são a fundação e origem das coisas perceptíveis”. Que o conhecimento acerca deste tipo de conexão era considerado um componente fundamental da visão que faz um R̥ṣi nos é dito no R̥gveda Saṁhitā (10.129.4), que anuncia: “os antigos videntes descobriram em seus corações o bandhu (vínculo) do manifesto no imanifesto”.

Os Vedas (e.g., R̥gveda Saṁhitā, 6.47.18; Śukla Yajurveda, Śatapatha Brāhmaṇa, 11.1.8.3, 12.6.1.1) fundamentalmente apresentam Puruṣa-Prajāpati como a forma original da qual todo o universo em todas as ordens – objetiva, subjetiva, divina, sacrificial, escritural – são contraformas (pratimā/pratirūpa). Em especial, são os fenômenos uniformes (ekarūpa) que melhor manifestam a forma original (Smith, sp, pp. 73-76). Esse todo ordenado por mútua semelhança e em participação com o protótipo divino de tudo é o Sacrifício, é a atualização de ṛta, a segunda criação que faz do mundo natural um cosmos ou imagem da verdade divina.

O rito a que se dedicam os humanos é nada mais que uma imagem (pratimā) daquele sacrifício paradigmático, uma ação que visa constituir uma ordem de coisas em conformidade com aquele paradigma. E de fato, é essa correlação que permite ao rito humano ter sua eficácia e eficiência: na medida em que por homologia se faz presente no sacrifício aqueles elementos de distintas ordens da realidade, que de outra forma estariam além do nosso alcance, é possível que a ação ritual esteja em relação com forças mais amplas, ou que o sacrificador através daquelas participe no Sacrifício universal. Além disso, como foi mencionado na postagem anterior, com frequência os Vedas nos apresentam a perspectiva de que esse conhecimento é em si suficiente para a alcançar os frutos da ação ritual, mesmo independentemente da execução daquela: disso temos a transição da via ritual para a contemplativa e sapiencial, em que o foco se desloca da ordem sacrificial (adhiyajña) para a ordem subjetiva (adhyātma). Neste caso, também, as homologias permitem que esteja acessível e disponível na subjetividade da consciência os elementos das distintas ordens da realidade. De modo geral, portanto, as homologias que estão no centro do ‘paradigma epistêmico do Vedismo’ realizam uma função central, como o diz Brian Smith (sp, pp. 80-81):

“É essa capacidade de vincular a contraparte visível, manifesta e portanto limitada ao seu protótipo invisível, transcendente e ilimitado que é o mais espetacular dos supostos efeitos de se fazer conexões. (…) A “ilimitação” (aniruktatva) do transcendente é acessível por aquelas conexões que se estendem a partir do sacrifício (…). Assim, as conexões reúnem o imanente e o transcendente de tal maneira que o inacessível é tornado acessível pelo jogo das semelhanças, e o manifesto encontra sua completude pela participação no transcendente. Os elementos universais, emitidos pelo Uno universal, atingem sua realidade plena e atual somente quando ligados um ao outro e ao seu ponto de origem. (…) Cada ‘nome e forma’ em particular pode realizar sua verdadeira natureza apenas encontrando seu lugar nessa cadeia de semelhança – ou melhor, sendo vinculado com todas as suas contrapartes sob o guarda-chuva do protótipo. A semelhança universal mantém separado enquanto unifica.”

Neste contexto, um brahman é aquele aspecto da Palavra que ata os existentes entre si por vínculos de similaridade, uma fórmula enigmática que expressa uma correlação, uma homologia ou uma identificação por semelhança entre elementos de distintos domínios da realidade: adhibhūta (a ordem do mundo objetivo), adhidaiva (a ordem do divino), adhiveda (a ordem dos textos sagrados), adhiyajña (a ordem sacrificial), adhyātma (a ordem subjetiva), dentre outros. De fato, ao longo deste texto que agora escrevo o uso dessas correlações foi frequente, pelas quais passávamos de considerações sobre a ordem dos textos sagrados e do sacrifício às ordens do divino e do subjetivo, por exemplo. No entanto, esse mesmo brahman é também o fundamento ontológico que possibilita essas homologias universais ou que sustenta esse poder conectivo da Palavra:

“Brahman é a base ou fundamento de um universo de coisas e seres mutuamente semelhantes, uma fundação na qual a interação perpétua de semelhanças encontra sua fonte, condição de possibilidade, apoio e fim. (…) Brahman é, portanto, a fonte e o fundamento de tudo o que existe – o nexo de todas as conexões cósmicas – e a própria força construtiva que está por trás de todo conhecimento e ação que constrói formas ontologicamente viáveis. É a fonte e o término de todas as correspondências potenciais e realizadas, a condição de possibilidade para a totalidade, assim como para o todo em si. Brahman, em suma, é a energia conectiva que fica entre elementos aparentemente (e naturalmente) díspares e torna eficaz a ação ritual que forja esses elementos à unidade.” (Brian Smith, “Reflections on Resemblance, Ritual, and Religion”, pp. 71-72)

Esse fundamento do poder conectivo da Palavra (brahman) é Prajāpati, o que já se encontra expresso de forma seminal no Puruṣa Sūktam (Ṛgveda Samhitā, 10.90.13-14), que anuncia o seu sacrifício cosmogônico mental (sutil) e grosseiro do seguinte modo:

“Chandra foi gerado de sua mente, e de seu olho nasceu Sūrya. Indra e Agni nasceram de sua boca, e Vāyu de seu alento. De seu umbigo veio a atmosfera; o céu foi formado de sua cabeça; A Terra de seus pés, e de sua audição as regiões do espaço. Assim foram formados os mundos.”

Esta passagem primeiro descreve uma homologia entre a mente, a visão, a fala e o alento do Puruṣa e as divindades Candra, Sūrya, Indra, Agni e Vāyu. Ora, essas divindades possuem ainda seus correspondentes no mundo objetivo: a lua, o sol, o raio, o fogo e o vento. Todo o vínculo de similaridade entre as ordens subjetiva, objetiva e divina aqui tem seu suporte no Puruṣa, e a partir dessa descrição podemos intuir aquelas faculdades em nossa própria subjetividade como homólogas a esses domínios universais que repousam no Puruṣa. Em seguida, o texto védico descreve uma homologia entre o corpo universal da divindade e as várias esferas que compõem o mundo e sobre as quais reinam as divindades previamente listadas: e aqui, também, intuímos a homologia da nossa própria corporeidade com essa corporeidade divina.

Os hinos védicos que expressam o brahman, ou o enigma das homologias universais, são aqueles derivados dos brahmodyas, as reflexões sagradas dos r̥ṣis. Louis Renou os chamou de “hinos especulativos”, embora o correto seria denominá-los “hinos sapienciais”, preservando o sentido tradicional da cognição supernatural dos videntes desses textos. Três hinos especiais desta natureza ocorrem no décimo livro do Atharvaveda Samhitā (10.2, 10.7, 10.8), nos quais se desdobra uma profunda contemplação sobre a natureza de brahman como o fundamento ontológico, e que, como observa Renou, contêm as Upaniṣads em semente.

(Sigo aqui o resumo que Luis Renou faz desses três hinos, em “Hymnes Spéculatifs du Véda”, pp. 260-265)

O hino 10.2 do Atharvaveda é uma versão distinta do Puruṣa Sūktam, em que, como parte de uma ampla formulação de questões acerca da origem do homem, o hino enumera de baixo para cima diversos membros do corpo humano como numa anatomia simbólica, bem como sensações e faculdades intelectuais. Pouco a pouco, a imagem do homem é transfigurada na imagem do divino Puruṣa, ao qual se sobrepõe, em resposta às questões em busca pelo princípio original, a designação de brahman. Por fim, a conclusão deste hino sapiencial é dada ao anunciar que aquele princípio supremo adentrou o corpo humano (“a cidadela de brahman”), no qual reside um baú luminoso que cobre o ātman (o Si-mesmo divino), o conhecimento do qual caracteriza os conhecedores de brahman.  Dizem esses versos finais do hino (Atharvaveda Samhitā, 10.2.29-33):

“Aquele que em verdade conhecesse essa cidadela de brahman, recoberta de imortalidade, o brahman e as (essências) emitidas do brahman lhe concedem a visão, o alento, a descendência. (…) Nessa cidadela inexpugnável dos deuses, de oito círculos e nove portais, reside um cofre de tesouro dourado, celeste, recoberto de luz. Dentro deste cofre de ouro de três cordas e três receptáculos, há um prodígio, consistindo no Si-mesmo (ātman): esse é conhecido pelos conhecedores de brahman. Nesta cidadela de ouro, da cor do soma, que resplandece à distância, toda coberta de glória – o brahman entrou, nesta (cidadela) inexpugnável.”

Observa Renou (sp, p. 263) acerca do hino 10.8 do Atharvaveda que a contemplação do princípio supremo proposta neste hino consiste em “mostrar as arbitrariedades da visão comum, a traçar sob a forma de paradoxos a presença de brahman por detrás das aparências fenomenais”. Além disso, o hino louva o princípio como o Uno, imanifesto e manifesto, o não-nascido que nasce em todas as formas, que tem sua morada na plenitude transcendente, o loco em que todos os seres se fixam, que se presentifica na consciência dos seres e é perceptível como o si-mesmo em cada um. Nas palavras do texto védico (Atharvaveda Saṁhitā, 10.8.1, 6, 12-13, 15, 25, 28b, 29, 34, 37-38, 41b, 43-44):

“Aquele que preside sobre todas as coisas, o que foi e o que será, aquele cujo céu é o bem apenas, homenagem a este todo-poderoso brahman! (…) Embora manifesto, ele subsiste em segredo (imanifesto). Esta é a grande morada do Princípio. É aqui que tudo isso (universo) é fixado, que é estabelecido (tudo) que se move e respira. (…) Aquele que é infinito, estendendo-se em muitos lugares, o que é infinito e finito ao mesmo tempo, … o guardião do firmamento o discerne, quem sabe o que foi e o que será. Prajāpati subsiste no interior da matriz. Sendo invisível, ele toma vários nascimentos. Com a metade (de si mesmo), ele gerou o universo inteiro. Quanto à (outra) metade, qual é o seu sinal distintivo? (…) Ele habita distante na plenitude, ali é sem deficiência: um grande prodígio do universo, os portadores do império lhe prestam homenagem. (…) O Uno é mais minúsculo que um fio de cabelo, nem sequer é visível; e (ainda assim) essa divindade que me é querida é mais vasta que isso (universo). (…) o deus único entrou na consciência; primeiro nascido, ele subsiste (ainda) no interior da matriz (não-nascida). Da plenitude ele verte a plenitude; o pleno se dissemina com o pleno. Gostaríamos de saber de que fonte assim se dissemina? (…) O loco onde as divindades e os homens estão fixados, como os raios (da roda) no eixo, – onde, por um poder sobre-humano, foi colocada a Flor das águas, – pergunto qual é (este loco). (…) Aquele que conhece o fio tensionado no qual estão tecidas as criaturas que aqui estão, aquele que conhece o fio do fio, conhece a grande essência do brahman. Eu conheço o fio tensionado no qual as criaturas aqui estão tecidas; Eu, eu mesmo, conheço o fio do fio e, consequentemente, a grande essência do brahman. (…) Onde o não-nascido é perceptível? (…) O lótus de nove portas, coberto com três cordões (guṇas), no qual reside o prodígio que consiste no Si-mesmo (ātman), – os conhecedores do brahman o conhecem. Ele não teme a morte, aquele que conhece o Si – sábio, livre da velhice, (sempre) jovem, – (ele será) sem desejo, sábio, imortal, existindo por si mesmo, cheio de seiva, livre de todas as deficiências.”

No hino 10.7, por fim, o Atharvaveda exalta o princípio chamado Skambha, o Pilar divino que é o eixo da existência. Seguindo o modelo do Puruṣa Sūktam, esse Pilar é apresentado como um corpo humano ou o corpo do supremo Puruṣa, concebido como uma grande “árvore da vida” (v. 38) que compreende em si a fonte imanifesta e o mundo manifesto (v. 10). O hino inicia com uma série de interrogações que buscam localizar a fonte dos vários componentes das diversas ordens da realidade nos membros dessa suprema pessoa ou nos “galhos” do pilar que é a “árvore da vida”. Em outras palavras, o Puruṣa aqui é o brahman, o fundamento ontológico de todas as ordens da realidade e a possibilidade das correlações e homologias universais que as atam em mútua semelhança. Adiante, no entanto, a pluralidade de membros é reduzida a um só (vs. 9, 25-26), o coração: uma dissolução da totalidade complexa na totalidade indivisa que é um tema védico comum, de que falei na postagem anterior. Neste hino, este coração é identificado com a raiz imanifesta daquela “árvore da vida” (v. 25), e tratado como o prodígio ou tesouro dourado protegido pelos deuses (v. 38) – o ātman, o si-mesmo do Puruṣa, sua forma eterna ou não-nascida. A passagem da imagem do corpo ou árvore com muitos membros ou galhos para a imagem do coração ou raiz, é a passagem da imagem do eixo vertical que sustenta o mundo para a imagem do centro no qual tudo está fixado, e do qual irradiam, tal como numa roda, os vários raios da totalidade complexa. Esse centro é identificado com Indra (vs. 29-30), a forma de Prajāpati na condição de soberano do universo pela posse māyā/virāj (cf. Atharvaveda Saṁhitā, 11.5.16). É anunciado, ainda, que aquele que conhece esse princípio ele próprio se torna Prajāpati (v. 41).

Que o coração ou núcleo desse Pilar divino seja identificado com Indra, o aspecto soberano ou real de Prajāpati, é um ensinamento desenvolvido num texto da porção āraṇyaka do Sāmaveda, o Jaiminīya Upaniṣad Brāhmaṇa (1.28-29; 1.43.8-12; 1.44). Este texto descreve o espaço incriado primordial como sendo Indra, possuído de seus sete raios – que consistem nos poderes da fala, mente, visão, audição, alento, alma e matéria. É dito que esses poderes se expandem através de todos os seres (que exercem esses poderes através de Indra), manifestam os mundos e deidades regentes, de modo que Indra, por sua māyā caleidoscópica, se torna a forma de todas as contra-formas, assim se multiplicando “dez vezes, cem vezes, mil vezes, dez mil vezes, cem mil vezes, milhões de vezes, dez milhões de vezes, cem milhões de vezes, bilhões de vezes, dez bilhões de vezes, cem bilhões de vezes, trilhão de vezes”. É dito que este Indra é Prajāpati, refulgente além do céu e adorado como o todo, mas que também habita o interior do homem como regente interno daqueles poderes. Aquele que o conhece torna-se brilhante com o esplendor da luz do entendimento, tranquilo, firme, auto-controlado, todo-permeante, imperecível, dotado do poder de Indra.

Esta meditação sapiencial está fundada sobre a concepção de brahman como fundamento ontológico das homologias universais, e expressa em sua forma mais antiga no R̥gveda Saṁhitā (6.47.18), que diz: “Ele é o paradigma de todas as formas; este (mundo) é a sua forma (manifesta para) nossa observação. Indra move multiforme por seus poderes mágicos (māyā), pois dez mil corcéis lhe são associados.” Essa meditação tem sua culminação dentro do corpus védico no Madhū Vidyā, a “sabedoria do mel” ou a visão da “teia (ou māyā) de Indra”, revelada no Sāmaveda, Chāndogya Upaniṣad (3.1-5) e no Śukla Yajurveda, Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad (2.5.1-19). O primeiro verso da sua versão que ocorre neste último texto citado diz:

Esta terra é (como) mel para todos os seres, e todos os seres são (como) mel para esta terra. Essa pessoa brilhante, imortal que está nesta terra e ‘em referência a si’ (ou na ordem subjetiva, adhyātma), esta brilhante e imortal pessoa que está no corpo, ela, de fato, é este si-mesmo (ātma). Este é imortal, este é brahman, este é tudo.”

Os versos de 2 a 14 repetem o mesmo parágrafo, trocando “terra” por: água, fogo, ar, sol, as direções, lua, relâmpago, nuvem, o espaço, o dharma, a verdade, a humanidade, a alma. E a conclusão nos versos 18 e 19 diz:

“Este, de fato, é o puruṣa habitando em todos os corpos. Não há nada que não seja coberto por ele, nada que não seja permeado por ele. Este, de fato, é o mel que Dadhyan, versado no Atharvaveda, declarou aos dois Aśvins. Vendo isto, o vidente disse ‘Ele se transformou de acordo com cada forma. Esta sua forma era com a finalidade fazê-lo conhecido. Indra se mostra em muitas formas por suas māyās, pois a ele estão unidos os corcéis, centenas e dezenas. Ele, de fato, é os corcéis. Ele, de fato, é dezenas e milhares, muitos e incontáveis. Este brahman é sem anterior e posterior, sem interior e exterior. Este brahman é o si-mesmo (ātma), o todo-vidente. Este é o ensinamento.”

Pensado em termos da relação entre a abelha e o mel que esta produz por concentrar a essência de muitas flores, o ponto aqui é que todos os seres causam-se ou produzem-se mutuamente, contêm-se mutuamente, implicam-se mutuamente, num vasto caleidoscópio em que o todo está contido totalmente em cada parte, e cada parte no todo. A tradição budista posteriormente desenvolveria esta visão da “teia de Indra” através da imagem de uma vasta teia que possui uma joia em cada canto, de modo que cada joia reflita em si todas as outras. Esta é uma visão amplíssima da interdependência de todas as coisas pensada em termos das homologias que atam todos os seres em laços de simpatia universal. No entanto, para a visão védica essa teia de entrelaçamentos horizontais depende de uma participação vertical de todas as ordens num princípio comum, tal como na geometria os lados e dimensões incomensuráveis são atados em laços de proporção quando partilham de uma mesma razão. Deste modo, o cerne e razão de todas essas homologias, o eixo da roda universal, é o Puruṣa empoderado pela caleidoscopia mágica de māyā, nessa condição chamado de Indra: ele é o Si-mesmo Supremo que, habitando igualmente todos os seres como sua verdade interna, os faz mutuamente proporcionais e homólogos entre si. E o cerne de nossa própria subjetividade, nosso si, é a sua imagem, e através dela devemos conhecê-lo.

UPANIṢADS: BRAHMAN E A VEDĀNTA

Em suma, brahman é o poder da palavra sagrada que jaz em ṛta e dela flui, o mantra, potência de conhecimento e ação que institui nome-e-forma ou individuação na criação, teologicamente encarnado na deusa Vāk; brahman é também a mente que é o vidente desse mantra e o agente do seu emprego sacrificial na ordenação do universo, teologicamente encarnada em Puruṣa-Prajāpati. Mente-palavra infinita, indivisível, silenciosa constitui o domínio da transcendência imanifesta; mente-palavra finita, divisível, pronunciada constitui o domínio da imanência manifesta. Além disso, brahman é a sapiência conectiva da palavra que desvela laços de homologia, semelhança e participação entre os seres de distintas ordens da realidade; bem como a mente em que essa sapiência conectiva se fixa, o seu fundamento ontológico. Atando o imanifesto e o manifesto, brahman é também o divino soberano que, por seu mágico poder caleidoscópico, é uno e múltiplo, a forma de todas as contraformas, o “protótipo” refletido que habita o cerne de todos seus reflexos ou imagens como sua verdade originária. E por fim, brahman é a essa presença do princípio de tudo no coração do ser sensciente, o prodígio ou tesouro dourado do seu si-mesmo, cuja encarnação ritual é o sacerdote brahmán.

É evidente que teologicamente o conceito de brahman e da divindade em geral está, em boa parte dos textos do corpus védico, associado principalmente com Prajāpati e sua consorte. No entanto, conectando essas camadas de sentido de brahman com a postagem anterior em que tratei das sementes da concepção de outras divindades a partir da teologia de Prajāpati, poder-se-ia dizer que a tradição tendeu a assimilar mais fortemente o caráter ritual de brahman a Prajāpati, nessa capacidade reduzida sendo nomeado muitas vezes como Brahmā; tendeu a assimilar o caráter de eixo da roda universal, antes identificado com Indra, a Nārāyaṇa-Viṣṇu; e tendeu, por fim, a assimilar a sua presença como fundamento da subjetividade a Rudra-Śiva. A Deusa, Vāk, é assimilada ao Oṁ, a forma imperecível da palavra, o símbolo supremo do infinito primordial, e em cujas unidades sonoras estão estabelecidos Brahmā, Viṣṇu e Śiva – como é dito na passagem do Gopatha Brāhmaṇa do Atharvaveda que citei anteriormente neste texto.

De todo modo, todas as visões sapienciais sobre a realidade e o divino tenderam a confluir no conceito de brahman, que predomina como o indicador por excelência de tudo o que é divino e sagrado. E a polivalência deste conceito, as suas múltiplas camadas de sentido, nos permitem vislumbrar a unidade do conteúdo das várias camadas dos Vedas e das disciplinas espirituais a elas associadas. Joël André-Michel Dubois, em seu livro “The Hidden Lives of Brahman”, fez um estudo dessas disciplinas espirituais que informam a vida de um brâmane, a partir dos comentários de Śaṅkara às Upaniṣads e também da observação das práticas contemporâneas nas comunidades bramânicas smārta na Índia. Ele observa como as diversas camadas do modo de vida e do treinamento espiritual nessas comunidades espelha as várias camadas da conceituação de brahman: um modo de vida que envolve o ritual (ação corporal), a recitação de mantras (ação verbal) e as meditações nas equivalências simbólicas entre si e os deuses (ação mental), que são disciplinas em que se atenta ao brahman enquanto poder do ritual, poder do mantra, fundamento das homologias universais. Mais além, há as disciplinas de atenção ao brahman através do cultivo do insight da presença auto-luminosa, infinita e quiescente que, revelada no conhecimento do divino si-mesmo (daivātman) mais profundo, revela-se ser o fundamento incriado de tudo. Em todas essas disciplinas o brahman é o objeto da atenção e adoração, a essência de tudo o que é divino e sagrado.

Também metafisicamente e teologicamente o brahman reunirá em si a essência de tudo o que é divino e sagrado. As Upaniṣads, textos que compõem a porção final do corpus védico, são concebidas como aquelas que reúnem a essência de tudo o que as porções anteriores daquele corpus disseram sobre o divino e o sagrado, sob a forma de meditações sapienciais sobre brahman. Por esta razão, essa classe de textos é também chamada de Vedānta, a conclusão do Veda. O scholar Franklin Edgerton, em seu artigo, “Sources of the Philosophy of the Upaniṣads” (pp. 202-203), em que havia proposto um projeto de traçar as fontes das contemplações upaniṣadicas às porções anteriores do corpus védico, faz algumas observações relevantes sobre essa relação entre o corpus védico e a sua conclusão nas Upaniṣads:

“… não há quase nada nas Upaniṣads mais antigas que também não seja encontrado – às vezes de forma mais primitiva – nos textos filosóficos da literatura védica mais antiga. Para mostrar quão extensivamente isso é verdade, estou preparando uma espécie de cartão-índice das idéias e expressões filosóficas dos Saṁhitās védicos, Brāhmaṇas e Upaniṣads mais antigos. (…) [Minha coleção que reúne passagens que] lidam com as tentativas de chegar ao conceito do Uno, será esta: primeiro enumerarei e citarei as tentativas de formular o Ser Uno em relação ao mundo empírico – com subdivisões como estas: Relações temporais (o Primevo, o Mais Antigo; incluindo em si próprio Passado, Presente e Futuro; Tempo em si; unidades concretas de tempo, como Ano, Dia e Noite, etc.); Relações espaciais (Supremo, Mais Alto; Fundação, Suporte, Base; Todo-inclusivo, estendendo-se além tudo; vasto, Infinito); Relações causais (Causa Efficiens ou Criador; Causa Materialis ou substância; Não-causado, Não-Nascido, Autoexistente etc.); Relações de soberania (Governante, Controlador, Senhor, etc.); Relações teológicas ou deístas (Deus único; Doador de vida, força e outros benefícios); Relações intelectuais (Conhecedor de tudo; Onisciente; Vidente etc.); e, finalmente, a Relação de identidade, ou monismo estrito (o Uno é Tudo). – Em segundo lugar, a coleção retomará as tentativas de formular o Uno como absoluto Ding an Sich [‘coisa em si’] – para atingir sua própria natureza em termos de si mesma, e não em relação a outras coisas. Aqui encontraremos as subdivisões de acordo com as seguintes linhas: Conceitos físicos como primeiros princípios (água, fogo [com sol, calor], vento ou ar, espaço – e, finalmente, combinações de mais de um elemento físico como partes componentes do universo); Conceitos psicológicos ou quase-psicológicos (Homem, Puruṣa; Desejo; Mente, etc; Prāṇa; e outros, que culminam em Ātman); Conceitos ritualísticos (Discurso Sagrado, Vāk; Bṛhaspati [senhor da palavra sagrada]; tapas [ardor ascético]; Sacrifício; animais sacrificiais e outras ofertas; Brahmacārin [celibatário] e outros, que culminam em Brahman); Conceitos metafísicos e místicos (Ser e Não-ser; o Uno; Aquele [Tat]; Idam e Sarvam, isto, tudo; Yakṣa, ‘Maravilha’; Segredo etc.)”.

Que eu saiba Franklin Edgerton nunca chegou a realizar plenamente esta coleção a que se propôs. Mas esse anúncio aqui contém alguns elementos de grande auxílio para nossa compreensão da tradição védica. Em primeiro lugar, assim como a tradição hermenêutica, Edgerton distingue entre as concepções de brahman que são indicadoras de suas relações com o mundo – aquilo que os vedantinos chamam de tataṣṭha-lakṣaṇa, a “definição acidental”; e as concepções de brahman que são indicadoras de sua realidade em si, aquilo que os vedantinos chamam de svarūpa-lakṣaṇa, a “definição essencial”. Sob a primeira, Edgerton identifica uma miríade de concepções que designam brahman segundo noções de relações temporais, espaciais, causais, teológicas, intelectuais, bem como relações de soberania e identidade: aqui, as várias categorias centrais do pensamento que é ordenador do mundo empírico encontram seu absoluto em brahman. Sob a segunda, Edgerton identifica empregos de conceitos físicos como conceituações da natureza essencial de brahman – evidentemente no seu sentido transfigurado, como já vimos acerca do fogo pensado como ardor ascético, as águas como a sabedoria causal incriada, o espaço como a plenitude indivisível (nesse aspecto, temos uma linha do pensamento védico que se assemelha àquela dos primeiros pré-socráticos na Grécia). Além disso, ainda sob as definições essenciais, Edgerton cita os conceitos psicológicos (culminando em ātman), os conceitos sacramentais (culminando em brahman), os conceitos metafísicos (culminando no Ser) e os conceitos místicos (culminando no Uno). De todas essas formas o divino e o sagrado é dito nas diversas camadas do corpus védico, e a destilação da essência de todas essas visões seria o conteúdo das Upaniṣads.

Os Advaita Vedāntins resumem todas essas concepções também em dois grupos. Reunindo várias passagens upaniṣadicas sob “definição acidental”, brahman é dito ser aquilo que é a causa eficiente (inteligente ou onisciente) e material da originação, sustentação e dissolução de tudo; bem como o soberano (īśvara) e governante interno (antaryamin), o “protótipo” refletido que habita o cerne de todos seus reflexos ou imagens como sua verdade originária. Reunindo outras várias passagens upaniṣadicas sob a “definição essencial”, brahman é concebido como absoluto Ser/Verdade (sat/satya), Consciência/Cognição (cit/jñāna), Infinitude/Plenitude/Deleite (ananta/ānanda) – uma tríade que deve ser pensada como simultânea, para que não se conceba um ser ou infinitude insenscientes, ou um ser e cognição finitos – i.e. determinados em relações de exterioridade.

Nas porções anteriores do corpus védico, dizer que uma divindade é dotada de “mil olhos, mil braços e mil pés” (em referência ao primeiro verso do Puruṣa Sūktam) é o traço distintivo pelo qual aquela é distinguida das divindades finitas, e identificada com a divindade suprema, o Puruṣa. Vimos na postagem anterior como Prajāpati, Viṣṇu-Nārāyaṇa e Rudra-Śiva são apresentados desta forma, o que constitui uma semente da doutrina do trimūrti. Na tradição pós-upaniṣadica, no entanto, o traço que identifica uma divindade como sendo a suprema, distinta dos deuses finitos, é que ela é brahman: Ser-Consciência-Deleite absoluto; Causa eficiente e material da originação, sustentação e dissolução de todos os fenômenos; soberano(a) e governante interno(a) dos seres senscientes.

O BRAHMA-SŪTRAS OU A VEDĀNTA ENQUANTO PARADIGMA HERMENÊUTICO

(Sigo aqui S. K. Ramachandra Rao, “R̥gveda Darśana – vol. II, Interpretations”, pp. 207, 209, 212, 215, 217-218, 221, 225-229, 238-241, 244-245. Em especial nas porções sobre Ānandatīrtha.)

O primeiro sentido do termo ‘Vedānta’, como foi dito na seção anterior, é uma referência às Upaniṣads, classe de textos que incorporam os ensinamentos finais e secretos de todo o corpus védico, constituindo sua conclusão. No entanto, o segundo sentido do termo ‘Vedānta’ diz respeito à interpretação das Upaniṣads; na medida em que há distintas interpretações do seu ensinamento, se pode dizer que há distintas escolas de Vedānta (cuja conta pode passar de 15, segundo alguns estudiosos). Neste segundo sentido do termo, o texto fundamental é o Brahma-Sūtras, cuja forma final é datada aproximadamente do século V d.C. Este texto propõe uma aplicação das regras da racionalidade hermenêutica (mīmāṁsā) à interpretação sistemática das Upaniṣads. Seu primeiro capítulo se dedica exatamente a argumentar e ordenar detalhadamente a seguinte proposição: que todas as meditações sapienciais das Upaniṣads têm Brahman por objeto apenas, tal como faz Franklin Edgerton em sua coleção de conceituações do divino e do sagrado dos Vedas (guardadas as devidas proporções, evidentemente). Deste modo, o Brahma-Sūtras visa estabelecer a unidade de sentido e propósito das Upaniṣads como fundamento de sua interpretação.

Como vimos anteriormente, o mundo dos mantras védicos compreende muitas dimensões e aspectos – como adhidaiva (referente à ordem do divino), adhiveda (referente à ordem dos textos sagrados), adhiyajña (referente à ordem do sacrifício), adhibhūta (referente à ordem do mundo objetivo), adhyātma (referente à ordem objetiva). Mas a constituição mesmo dessas ordens de sentido e a condição de sua mútua participação horizontal depende do Si-mesmo (ātman) único que é o habitante e governante interno de todas essas ordens. Todo o pensamento védico circula ao redor da realidade fundamental e universal, o ‘ekam sat’ (o Ser Uno), que assume múltiplas formas para os propósitos de devoção, contemplação ou visão; do mesmo modo, o corpus védico tem o Si-mesmo como seu núcleo adimensional. O que a Vedānta quer é que deixemos a periferia e entremos nesse centro. (RAO, sp, pp. 217-218).

No entanto, nem todas as meditações sapienciais das Upaniṣads (e das porções anteriores do corpus védico de que derivam) explicitamente têm brahman por objeto. À primeira vista, essas meditações parecem ter uma plêiade de objetos divergentes, que expressam ideias distintas, do mesmo modo como na coleção de Franklin Edgerton acima múltiplas concepções estão listadas. Isto quer dizer que há espaço para dúvidas, e para leituras que vêm as Upaniṣads como tratando de tópicos desconexos, designados muitas vezes por termos que têm um sentido ordinário (não-metafísico) bem definido – usando como exemplo alguns dos que discuti, temos as “águas”, o “espaço”, o “fogo”, etc. São essas dúvidas que o Brahma-Sūtras visa remover para fixar o sentido unitário dos textos. Um dos comentadores ao Brahma-Sūtras, Ānandatīrtha (também conhecido como Madhvācārya), explica como que para Jaimini, uma das autoridades citada nos sūtras, não há contradição em palavras como Vaiśvānara, Agni, etc, terem um sentido nas transações ordinárias e outro no contexto espiritual, pois a linguagem do corpus védico seria precisamente uma peculiar mas efetiva mistura do uso convencional das palavras e o seu emprego extraordinário. A hermenêutica vedantina aplica aqui uma distinção que eu mencionei no primeiro texto desta série, entre os aspectos eterno e cambiante do som, a partir da qual se propõe uma distinção entre a fala comum (bhāṣā/vyavahārārtham loke) e a fala sagrada (anvadhyāya). Eu havia dito, ainda, que os textos sagrados formam uma combinação destes dois tipos de linguagem, de tal modo que seja fala comum em sua superfície, mas fala sagrada em sua “essência”.

Um princípio importante dessa hermêutica vedantina é, portanto, essa polissemia das palavras empregadas pelo texto sagrado. Por exemplo, o Brahma-Sūtras (1.1.31) cita uma tríplice meditação baseada na palavra “prāṇa”(força vital): num primeiro nível, prescreve a atenção à própria alma enquanto ser vivente (jīvopāsanam); num segundo nível, a atenção à divindade regente da força vital central que preside sobre a constituição da vitalidade dos seres (mukhya-prāṇopāsanam); e num terceiro nível, a atenção à realidade absoluta ou divindade suprema, o brahman (brahmopāsanam), que ao ser dito pelo termo prāṇa é concebido como o spiritus, a partir da sua eficiência causal. Para a mente ordinária, o sentido “empírico” de prāṇa é o mais real, o sentido “ideal” é o mais “metafórico”; para a mente iluminada, ao contrário, é o sentido ideal que é real, e o sentido empírico que é metafórico. Temos aqui uma instância do poder da Palavra em homologar e conectar planos distintos de realidade ao aplicá-los um termo comum, que, como vimos, constitui um enigma conectivo: um brāhmaṇa ou upaniṣad.

O comentador ao Brahma-Sūtras supracitado, Ānandatīrtha, é a grande autoridade da escola “dualista” de Vedānta (embora essa escola prefira chamar-se de realista). O princípio fundamental de sua ontologia dita dualista é a distinção ontológica entre o ser independente (svatantra) e o ser dependente (paratantra): Brahman apenas é independente, em si e por si, enquanto a totalidade dos entes senscientes e insenscientes são dependentes de Brahman para terem seu ser e seu devir. Essa dependência é expressa, seguindo a metáfora da reflexão no espelho, como aquela entre bimba (o protótipo do reflexo) e pratibimba (a imagem refletida). Segundo a ontologia realista desta escola, a condição ontológica da imagem é irredutível àquela do protótipo, de modo que pode-se dizer que o ente dependente existe ‘em si mesmo’, dotado de uma realidade relativa própria, mas não ‘por si mesmo’, na medida em que tem em Brahman (o ser independente) sua condição de possibilidade ontológica. Mesmo sendo dependentes, os seres senscientes (em sua individualidade espiritual) e o mundo (em sua forma imanifesta, seminal) são ambos eternos e incriados em Brahman; só suas formas adventícias, pelas que adentram o espaço-tempo, é que são criadas.

Em seu comentário aos mantras do R̥gveda, Ānandatīrtha aponta que qualquer hino védico tem uma camada de sentido que se refere às divindades (devatās) individuais, e outra que se refere ao seu controlador interno (antaryamin), Brahman, que habitando-as internamente como seu protótipo (bimba) as confere existência e potência. O sentido primário, em que os mantras se referem a entidades divinas particulares, é chamado mukhya-vṛtti: estabelecendo a adoração às devatās particulares, feita em prol de favores ou bênçãos específicas, é uma abordagem dominada por karma (ação ritualística), e propícia à noção teológica da multiplicidade de deidades (com Viṣṇu no topo da hierarquia). Esse nível de sentido requere estudo escritural, a realização das ações prescritas e alguma devoção, e é adequado aos aspirantes iniciantes, que só percebem a verdade pela luz externa (bahiḥ-prakāśāḥ), e baseados nesta se devotam ao divino em suas formas e ações prescritas. O sentido superior, em que os mantras se referem à divindade suprema que habita internamente as divindades particulares e lhes irradia ser, poder e qualidades divinas, é chamado parama-mukhya-vṛtti: estabelecendo a subordinação da multiplicidade de divindades à unidade de Brahman, o controlador interno de todas as divindades, é uma abordagem que requer insight sobre a natureza da Divindade suprema e do sentido simbólico dos rituais. Assim demandando o desenvolvimento de uma intuição espiritual superior pela vida disciplinada e a purificação da constituição interna, este nível de sentido é adequado a aspirantes maduros, que possuem uma luz acesa em seu coração (antaḥ-prākāśaḥ) que tudo ilumina, beaseados na qual estes aspirantes possuem uma percepção intuitiva de Brahman como o Si-mesmo de todas as devatās, e de que todas elas são diferentes expressões de Brahman.

A articulação desses dois níveis de sentido, operada através da doutrina que compreende que todo som e palavra têm o Espírito Supremo como sua designação última e sugerem sua presença, implica que em sentido inferior os nomes das divindades sejam nomes próprios, mas no sentido superior sejam adjetivos de Brahman – uma transição que é facilitada devido ao fato de que no sânscrito não há letras maiúsculas e minúsculas, tornando nome e adjetivo facilmente intercambiáveis. No entanto, a manutenção do sentido plural das várias devatās não é dispensável,  ainda que essa pluralidade seja reconhecida como dependente e subordinada: porque sendo através da pluralidade de nomes e formas divinas que a adoração é levada a cabo, as múltiplas devatās são vistas como o ponto de apoio (adhiṣṭhāna) pelo qual o Espírito Supremo é invocado, servindo para facilitar sua manifestação (abhivyajyamānatva), de modo que é através delas que a Divindade suprema é revelada e realizada (prāpyatva). Brahman é o verdadeiro sentido de toda o discurso védico, e a adoração do Uno como o fator essencial no múltiplo, através do suporte do múltiplo e do reconhecimento da sua dependência ontológica ao Uno: essas são as regras da adoração nesta escola de interpretação da Vedānta.

Ainda segundo Ānandatīrtha, o terceiro e supremo (uttama) nível de sentido dos mantras védicos seria o adhyātma, em que todas as palavras farão referência à constituição subjetiva da alma: palavras que ordinariamente designam objetos físicos e rituais serão entendidas como referindo-se às funções sensoriais e mentais; as referências às divindades serão concebidas no sentido dos detalhes constitutivos da subjetividade que são presididos por aquelas divindades (tattva-devatā). E tudo isso, assim como no sentido anterior, tal qual presidido e habitado internamente pelo Espírito Supremo, que é o “arquétipo” (bimba) da alma e seu governante interno (antaryamin). Essa abordagem interpretativa informa um jñāna-yajña (sacrifício pelo conhecimento), que é considerado superior ao bāhya-yajña (sacrifício externo). Este nível de sentido e prática é para aspirantes plenos de desapego e devoção, que percebem a presença divina dentro, fora e em toda parte (sarva-prakāśāḥ); mas especialmente, contemplam Brahman como presente em si-mesmos: o Divino como o “arquétipo” (bimba) e a alma individual como seu reflexo (pratibimba). A contemplação final é esta, daquele aspirante que desta forma incessantemente medita em Brahman em si, em seu próprio coração.

Passando de um extremo (vertente dualista/realista) para outro (vertente não-dualista/“idealista”) das muitas interpretações tradicionais da Vedānta, temos a escola de Śaṅkarācārya. Assim como Ānandatīrtha, Śaṅkara compreende a distinção entre ser independente e ser dependente; mas ao contrário daquele, em sua ontologia idealista compreende que o ser dependente não tem uma realidade em si nem por si: ele é apenas a aparência do seu protótipo, o seu ser sendo o mesmo que aquele do “paradigma”, tal como o ser do reflexo do rosto no espelho não é outro que o ser do próprio rosto refletido. Mesmo nossa alma, ainda que possa ser dita um reflexo do protótipo divino, não pode ser nada senão seu aparecer. Assim, o ser dependente tem sua realidade relativa no domínio “fenomênico”, enquanto aparência, mas não em si, no domínio “noumênico”. A “árvore da vida” (aśvattha) dos vários níveis metafísicos da existência, tanto em seus aspectos universais quanto particulares, nada mais são que as condições adventícias (upādhis) formadas pela māyā caleidoscópica de Brahman, tal qual o mesmo fogo arde em formatos e cores distintos dependendo do seu combustível. Diz Śaṅkara (Aitareya Upaniṣad Bhāṣya, 3.1.3):

Prajñā, Consciência, é o suporte de todo o universo. Portanto prajñānam brahma, a consciência é Brahman. Esta Entidade, assim tratada, quando livre de todas as distinções criadas pelos upādhis(condições adventícias), é sem mácula, sem manchas, sem ação, quiescente, uma sem um segundo, conhecida por ‘não isso, não isso’ (o procedimento “apofático), para a eliminação de todos atributos, e está além (do alcance) da palavra e da mente. Essa mesma entidade, que é o Deus onisciente por causa da associação com o upādhi da inteligência muito pura e é o ordenador da semente comum do universo imanifesto, assume o nome de antaryāmī (o Governante Interno) em virtude de ser o guia. Essa mesma entidade assume o nome de Hiraṇyagarbha, que é identificado com o intelecto (universal) que é a semente do mundo manifesto. Essa mesma entidade recebe o nome de Virāṭ, Prajāpati, que tem como Seu upādhi o corpo (grosseiro) nascido primeiro no ovo cósmico; e essa passa a ser conhecida como divindades, Agni, etc., assumindo seus (respectivos) upādhis que nascem desse ovo. Do mesmo modo, Brahman recebe os respectivos nomes e formas, conforme condicionado pelos vários corpos, desde o de Brahmā até o da grama. É a mesma entidade que se tornou diversificada de acordo com a variedade dos upādhis e é conhecida em todos os modos e é pensada de várias maneiras por todas as criaturas, bem como pelos lógicos.”

Mesmo com uma ontologia bastante distinta, também Śaṅkara compreende que o princípio da adoração é a contemplação da divindade suprema una através do suporte dos entes divinos particulares, os quais formam uma hierarquia de níveis distintos de expressão da luz da divindade una, como suas “condições adventícias”. A divindade una só pode ser adorada diretamente de modo “apofático”, desprovida da individuação de nome-e-forma, no sacrifício do conhecimento (jñāna-yajña). Ele diz (Brahma-Sūtra-Bhāṣya, 1.1.11):

“Brahman é conhecido em dois aspectos – um como possuído do upādhi constituído pelas diversidades manifestas, que são modificações do nome- e-forma, e outro desprovido de todo upādhi. […] Apesar de que a meditação seja sobre o Deus único, o Si-mesmo Supremo, como em posse dessas qualidades, ainda assim os resultados diferem de acordo com as qualidades sobre as quais se medita, pois é dito nos textos védicos: ‘Alguém se torna justamente aquilo que medita que Ele seja’, ‘depois da partida deste mundo, um homem se torna aquilo sobre o que havia meditado’ (Sāmaveda, Chāndogya Upaniṣad, 3.14.1). […] Ainda que seja o mesmo Si-mesmo que permanece oculto em todos os seres – móveis ou estacionários – ainda assim o texto, ‘Aquele que medita no Si-mesmo, manifesto num modo mais pronunciado, o alcança’ (R̥gveda, Aitareya Āraṇyaka, 2.3.2.1), se escuta sobre o Si-mesmo – imutável e sempre homogêneo como é – que há uma diferença nos níveis de manifestação da Sua glória e poder, causada pela gradação das mentes pelas quais é condicionado. No Smṛti também ocorre o texto, ‘Qualquer ser que seja grande, esplendoroso e poderoso, saiba que aquilo é um produto de uma parte do Meu Esplendor’(Bhagavad Gītā, 10.41), onde é prescrito que onde quer que haja um excesso de grandeza etc., aquilo deve ser adorado como Deus. […] O restante deste livro procede a fim de mostrar que apesar de que Brahman seja um, Ele é dito na Upaniṣad ou para ser contemplado ou para ser conhecido (respectivamente) com ou sem a ajuda de sua relação com um upādhi.

Onde quer que os atributos e alguma parcela do divino sejam encontrados, aquilo que os porta pode ser venerado como o próprio Deus. Assim, uma determinada deidade, ainda que um ente ontologicamente dependente, pode ser vista como uma mente que condiciona o Deus único num estado específico de esplendor que, por ser superior ao nosso, torna justificável que a adoremos como sendo o próprio Deus supremo. Ou até mesmo, no caso dos atributos divinos se mostrarem em nossa mãe terrena ou em nosso preceptor espiritual (guru), também nos cabe ajoelhar e tocar seus pés, venerando-os como a própria Divindade suprema em suas faces maternal e sapiencial, respectivamente. Não é necessário, aqui, que minha mãe seja literalmente uma “avatāra” da Mãe Divina, ou que meu instrutor seja literalmente a divindade em pessoa: venerando-os como tal, meu relacionamento com eles passa a ser um veículo da minha relação com a divindade suprema. O 10º capítulo da Bhagavad Gītā, do qual advém uma das citações feita por Śaṅkara acima, é como uma vasta lista de vibhūtis ou esplendores manifestos do divino, os quais eu posso venerar como sendo o próprio Deus. A cultura religiosa hindu é perpassada por esses princípios. Há reverência religiosa a tudo, sem, no entanto, que o Divino seja reduzido a esse tudo. Este último ponto é explicado por Śaṅkara (Brahma-Sūtra-Bhāṣya, 4.1.4-5):

“[Nas contemplações do tipo: “o Sol é Brahman”, etc, em que “sol” etc são upādhis] deveriam as ideias do sol etc serem superimpostas (contemplativamente) sobre Brahman, ou deveria a ideia de Brahman ser superimposta sobre o sol etc? […] Oponente: … as ideias do sol etc. devem ser superimpostas a Brahman; pois assim Brahman é adorado ao olhar o sol e o resto; e a conclusão da escritura é que a adoração de Brahman é produtiva de frutos. Logo, o sol e o resto não devem ser vistos como Brahman, mas Brahman deve ser visto como estes. Vedantino: esta sendo a conclusão (do oponente), respondemos: A ideia de Brahman deve ser superimposta ao sol e o resto. Por quê? Devido (ao princípio da) exaltação; pois assim o sol e os demais serão vistos como elevados em status, devido à superimposição neles de uma ideia exaltada. […] (assim) como o cocheiro do rei é honrado como o próprio rei. Pois não conduziria a nenhum bom resultado se o rei fosse rebaixado em estima por ser visto como o cocheiro. Este deve ser o método de abordagem aqui também, pois a abordagem contrária levará ao mal. […] O próprio fato de que a ideia de Brahman é superimposta aos símbolos (pratīka-s) constitui uma adoração de Brahman, assim como a imaginação contemplativa das imagens como sendo Viṣṇu e outros é uma adoração daquelas deidades.”

CONSIDERAÇÕES

Fica estabelecido aqui, então, como alguma forma de adoração do Uno através do suporte do Múltiplo é estabelecida na tradição vedantina. Tomei por exemplo duas escolas de posições opostas, a de Ānandatīrtha e Śaṅkarācārya; mas muitas são as escolas que adotam posições intermediárias a esses dois, e que também expressam o mesmo princípio de um modo ou outro.

Originalmente minha intenção era concluir esta série no terceiro texto, mas devido à grande extensão que este atingiu e o fato de que ainda me faltou falar de dois tópicos, me será necessário encerrar a série no quarto texto. No quarto texto tratarei de dois problemas que decorrem da abordagem hermenêutica da teologia védica estabelecida pelas escolas de Vedānta tal qual apresentei neste texto atual: o problema de qual ou quais divindades podem ser identificadas com Brahman (portanto, dotadas de brahmatva) e quais são identificadas como entes particulares dependentes (portanto, dotadas de jīvatva). Para isso, distintas linhagens darão respostas das mais diversas, que tonarão possíveis distintas posições teológicas (pluralistas, trinitárias e unitárias) a partir de um paradigma upaniṣadico. Para explorar esses desdobramentos, é preciso introduzir a transição do hinduísmo védico para o hinduísmo clássico. Outra questão é a teologia dos nomes divinos, cujas sementes já foram apresentadas neste texto atual, e que será formalizada no próximo a partir de Bhāskararāya Makhin e do Brahma-Sūtras e seus comentadores.