Nesta postagem buscarei responder duas perguntas feitas acerca da relação entre Plotino e o pensamento hindu. Um amigo me perguntou de forma mais geral, e fez um comentário de ordem histórica: “o que você acha da relação entre o Plotino e o pensamento hindu? alguns autores defendem que o professor dele, Amônio Sacas, era de origem indiana.” Outro acrescentou à pergunta anterior um detalhamento maior na questão: “como esse vínculo (entre Plotino e o pensamento hindu) pode se remontar a como o ‘Ekam’ do Ṛgveda (X, 129) se transforma em Brahman?”.
A primeira pergunta é bastante geral, se dirige à relação entre Plotino e o pensamento hindu de uma forma não especificada, de modo que a ela cabe resposta tanto do ponto de vista da relação histórica entre os dois pensamentos ou também do ponto de vista do conteúdo propriamente dito desses pensamentos. Mas como em seguida ele especifica um problema de ordem histórica (a suposta origem indiana do mestre de Plotino), eu iniciarei minha resposta dando uma abordagem histórica, e abrangendo de forma mais geral as relações históricas entre os gregos e os indianos. Já a segunda pergunta, que especifica um ponto de contato possível entre Plotino e Hinduísmo, me abre uma boa via para comparar a ambos quanto ao conteúdo do pensamento propriamente dito. Para este fim, dividirei essa resposta em duas partes ou postagens.
Busquemos nos inserir no contexto mais amplo dos estudos comparativos entre o mundo helênico e indiano. Há muita literatura desta natureza, que busca estudar similaridades entre facetas e movimentos distintos dentro de cada um de seus respectivos mundos. Em primeiro lugar, Grécia e Índia são talvez as únicas duas civilizações em que a filosofia se desenvolveu de forma nativa, incluindo o desenvolvimento nativo de uma ciência da lógica (a China talvez entre aí como uma terceira, mas em menor nível que as outras duas, até por não ter chegado a desenvolver uma lógica propriamente dita). As duas também estão entre as civilizações que mais produziram avanços na matemática em todo o mundo pré-moderno – ainda que em direções distintas, uma vez que na Grécia a matemática foi mais fortemente geométrica e na Índia mais algébrica. Ambas civilizações têm heranças indo-europeias, e ambas forneceram paradigmas civilizacionais em várias esferas da cultura aos seus respectivos hemisférios – muito das conquistas indianas tendo se difundido por toda a Ásia graças a seus impérios (que se extenderam do Afeganistão à Tailândia), e graças principalmente à capilaridade do Budismo.
Há muitas proximidades entre o pensamento pré-socrático e o hinduísmo védico. No contexto sacerdotal védico, os sacerdotes se engajavam em “simpósios” chamados brahmodyam, em que disputas e debates sobre a natureza das coisas inspiravam as práticas ritualistas, e que eventualmente deram origem a uma vasta prática civilizacional de debate de teses. Vemos nos Vedas desenvolvimentos paralelos às doutrinas de Tales de Mileto sobre a água enquanto princípio (reconhecidas pelo grego Megasthenes em suas viagens à Índia, da qual falaremos mais adiante), às doutrinas de Anaximandro sobre o infinito, as reflexões heracliteanas sobre o Logos ígneo, a concepção da mente divina em Xenófones, as reflexões pitagóricas sobre o uno e o múltiplo, as meditações parmenídicas sobre o Ser e o Não-Ser. As crenças órfico-pitagóricas sobre transmigração da alma e o modo de vida vegetariano também têm seus paralelos nos ascetas indianos. Outra vez, as características fundamentais do socratismo têm seu paralelo indiano no desenvolvimento da ciência do Ānvīkṣikī, a partir do século VI a.C. – que se tratava da ciência de argumentar segundo razões (hetu) e por um método de definições (lakṣaṇa), a fim de alcançar (principalmente) um conhecimento sobre a alma que conduzisse à realização do bem da vida. De modo semelhante a Platão e Aristóteles, na Índia emergem também Nyāya e Vaiśeṣika, escolas de pensamento (darśana-s) que através da aplicação do ānvīkṣikī chegam à formulação de uma epistemologia e ontologia que tratam de problemas semelhantes àqueles tratados pelos peripatéticos (principalmente). As disciplinas do Sāṁkhya e do Yoga têm seus paralelos nas filosofias práticas helenísticas, voltadas principalmente a um tipo de cuidado de si a fim de alcançar um estado virtuoso de sabedoria e superação do sofrimento. Em especial, os cínicos e os pirrônicos foram de fato historicamente inspirados pelos ascetas indianos (Pyrrho esteve na Índia com Alexandre o Grande), os primeiros em geral se inspirando na antinomia de certos ascetas śramanicos, enquanto os segundos parecem ter partilhado preceitos com os ascetas ājīvikas e também possivelmente com uma forma pré-Mahāyāna de Budismo. O teísmo cristão nascente também possui muitos paralelos com o teísmo dos Bhagavatas (uma forma ancestral de Vaiṣṇavismo), e a ascese dos padres do deserto possivelmente teve (segundo alguns autores) influências da representação helênica dos ascetas indianos (os “gymnosophistas”). O Neoplatonismo plotiniano, por sua vez, é frequentemente comparado à Vedānta, enquanto o Neoplatonismo teúrgico tardio é comparado ao Tantrismo. Assim como no Cristianismo, a tradição hindu também possui uma tradição hermenêutica de exegese escritural, que conta inclusive com uma distinção como aquela da escolástica cristã entre teologia racional e teologia revelada, dentre outras coisas.
Aqui estão traçados resumidamente vários paralelos entre as duas tradições, que já inclusive foram objeto de investigações acadêmicas por muitos (compartilharei algumas ao final desse ensaio). Então todas essas similaridades (nunca identidades) de fato existem e já intrigaram e interessaram muitos estudiosos. No entanto, é preciso sempre tomar muito cuidado com comparativismos – é muito difícil que alguém seja especialista igualmente em duas tradições de pensamento distintas a ponto de promover comparações que sejam fidedignas. Frequentemente similaridades são apontadas a partir de uma representação inadequada de uma posição ou a outra; ou duas teses aparentemente semelhantes, mas realmente bem díspares, são equacionadas de modo precipitado. Minha opinião é que o que realmente se alcança através de estudos comparativos deste tipo é uma espécie de espaço de intersecção para tradução de conceitos. Isso ajuda a tarefa dos tradutores, além de ajudar que uma pessoa familiarizada com uma tradição seja introduzida a conceitos da outra a partir daquilo que é próximo entre ambas.
Havendo reconhecido as similaridades e linhas de paralelos entre os dois mundos, e feito uma advertência quanto aos problemas do comparativismo, acrescento que outra pergunta frequentemente feita pelos estudiosos que promovem essas comparações: em que medida essas similaridades se baseiam em influências mútuas, em que medida se baseiam em desenvolvimentos independentes? Para isso existem distintas opiniões. Vou trazer alguns pontos aqui daquela que considero a posição mais razoável.
Apesar dos contatos civilizacionais entre os povos, o real intercâmbio de ideias parece ter sido muitíssimo prejudicado devido à barreira linguística. Segundo o testemunho do doxógrafo Strabo, o cínico Onesicritus (que teria ido até à Índia) narrou acerca da grande dificuldade de comunicação entre os gregos e os ‘gymnosophistas’. Segundo este testemunho histórico, num evento em que houve uma tentativa de conversa entre ambas as partes foram necessários três intérpretes distintos, passando através de vários idiomas, para que um diálogo fosse estabelecido, mas de modo que ideias precisas não fossem de fato comunicadas. Além disso, tanto os helenos quanto os indianos eram povos etnocêntricos, que tinham pouco interesse (se não recusa) em aprender idiomas estrangeiros e, de fato, tratavam todos estrangeiros como ‘bárbaros’ (ou mlecchas). Alguns estudiosos apontam com espanto o quão pouco os gregos sabiam sobre os persas, por exemplo, que lhes eram muito mais próximos geograficamente! É curioso também que parece ser o caso que alguns escritos de padres da igreja fizessem referência a uma região da Etiópia como ‘Índia próxima’, um testemunho da vagueza da compreensão que tinham sobre o ‘oriental’.
Do lado indiano dessas linhas de influência, é notável que os gregos tiveram um impacto muito pequeno na sua literatura. Não há nenhum relato indiano sobre Alexandre o Grande, por exemplo. Os textos em que menções aos gregos ocorrem geralmente os conhecem apenas por soldados e artesãos, não filósofos. Uma influência concreta dos gregos na Índia ocorreu na região noroeste do subcontinente, ao redor o Punjab (entre onde hoje são Paquistão e Afeganistão), onde se formou um reinado de gregos que se converteram ao Budismo. Dali surgiu a arte Gandhāra, que teve grande influência nas esculturas budistas. Essa escola artística desapareceu em poucos séculos, mas deixou seu legado. Houveram alguns gregos convertidos ao vaiṣṇavismo também (ver “pilar de Heliodorus”), mas que legado isso deixou é difícil determinar. Outra linha de influência parece ser o fato de que os gregos de algum modo serviram de veículo para transmissão da astrologia babilônica à Índia.
Do lado grego, há muitos mais relatos, mas em geral parecem vagos e bastante filtrados pelo imaginário orientalista. Antes de passar aos casos concretos gostaria de comentar esse último ponto. Há uma dinâmica curiosa ao longo de toda a história dos povos helênicos acerca do imaginário da origem de suas tradições de sabedoria e/ou filosofia. Em linhas gerais, havia aqueles que sustentavam que os gregos eram jovens e bobos e que derivavam sua sabedoria e conhecimento de outros povos ‘orientais’, mais antigos e sábios. Por outro lado, havia aqueles que sustentavam que os gregos eram superiores aos povos ‘orientais’, e que quando os gregos herdavam algo desses povos, tornavam esse algo melhor. Em geral o que se nota aqui é uma imaginação orientalista que projeta sabedoria ao “Oriente” e razão como produto grego, cada uma das vertentes preferindo uma via ou outra como a superior. Enquanto a primeira linha, mais “romântica”, geralmente exaltava o “oriental” devido à sua sabedoria divina superior, a segunda linha, mais “clássica”, exaltava o grego devia ao caráter racional do seu pensamento (que estaria faltando nos “orientais”).
Num período mais antigo, os “românticos” tinham os egípcios como modelo de superioridade e sabedoria; no período helenístico, essa posição dos egípcios foi gradualmente substituída pelos indianos. Relatos de que Pitágoras e outros filósofos teriam adquirido sua sabedoria em viagens à Índia começaram a surgir na literatura; nas narrativas das viagens de Apolônio de Tiana ao Oriente, há inclusive uma declaração de que era a opinião daquele sábio que os egípcios eles mesmos derivaram sua sabedoria dos indianos, esses últimos sendo em muito superiores aos primeiros. Os gregos estariam em último nessa fila de recepção da “sabedoria do Oriente”!
Na Antiguidade Tardia, essa abordagem “romântica” parece ter ganhado grande difusão. Na medida em que os povos ‘orientais próximos’ eram helenizados, um grande movimento de sincretismos passou a ocorrer. Tradições egípcias, siríacas, persas, caldeias, hebraicas e outras passaram a formularem-se a si mesmas em termos derivados da filosofia grega. (Note que os indianos não fazem parte desse sincretismo, senão em imaginação por parte dos gregos.) Estava presente um entendimento de que todas essas tradições e os gregos formavam uma vasta sabedoria comum, e várias narrativas distintas acerca da origem desta sabedoria se evidenciavam. Essa busca por uma “tradição primordial” foi ressuscitada na Renascença pelos tradutores dos textos herméticos e neoplatônicos, dando origem à noção de “philosophia perennis”. Entre os renascentistas vemos aquela mesma pluralidade de narrativas antigo tardias sobre a fonte da ‘tradição primordial’: Zoroastro, Hermes, Orfeu e Moisés eram os favoritos. Essa mesma ‘philosophia perennis” reaparece no fim do século XIX e começo do XX sob as formas da teosofia de Blavatsky e do perenialismo de Guénon, que tinham em comum a atribuição da origem da ‘tradição primordial’ à Índia e ao Hinduísmo.
Aquela mesma imaginação orientalista dos gregos, em suas vertentes que chamei de “romântica” e “clássica”, até hoje influenciam muito a recepção ocidental do pensamento indiano. Partindo do pressuposto que o Ocidente é marcado exclusivamente por pensamento racional (o que não é verdade) e que a Índia é marcada exclusivamente por sabedoria não-discursiva (o que não é verdade), é que os ocidentais ou exaltam ou rechaçam o pensamento indiano. É a partir dos mesmos pressupostos orientalistas vagos que os primeiros se referem a tudo o que é indiano como “filosofia oriental” ou que os segundos rejeitam que sequer haja “filosofia oriental”. Como o bem colocou o Prof. Dilip Loundo da UFJF no seu artigo “What is Philosophy after all?” (aqui em ordem inversa):
“Para os primeiros, a racionalidade indiana é má filosofia, para os segundos, é boa religião. Como que para acentuar a aura mística da auto-confiança nas disciplinas humanas efetivas ao invés da graça de Deus, esses últimos também recorrem a usos metafóricos e românticos do termo ‘filosofia’ (e.g., ‘filosofias orientais’).”
O professor ainda comenta como essas duas atitudes polares partilham um mesmo conjunto de falsos pressupostos sobre a natureza da racionalidade indiana e acerca da própria filosofia ocidental. Contra essas duas posturas, é preciso reconhecer que há sim aquilo que é legitimamente filosófico na tradição do pensamento indiano, inclusive com altíssimo nível de profundidade e rigor racional e dialético, às vezes se aproximando em espírito até mesmo da filosofia analítica contemporânea (como é o caso da escola do Navya-Nyāya); mas o universo do pensamento indiano não se reduz a isso, e há muitas esferas que são melhores caracterizáveis como teologia, religião, mística, etc – para as quais a atribuição romântica de ‘filosofia oriental’ é descabida.
De qualquer modo, é notável que no debate acadêmico ocidental sobre a possibilidade de influências indianas sobre Plotino as posturas adotadas também seguem essa mesma atitude orientalista. Vemos, por exemplo Émile Bréhier defender a tese de que há incursões e influências diretas das Upaniṣads na obra de Plotino – o que para ele tem uma conotação pejorativa, indicadora da contaminação do irracionalismo oriental; ao passo que um Giovanni Reale defende com unhas e dentes que Plotino não possui nenhuma influência oriental, o que para ele é a mesma coisa que defender que Plotino seja racional. Pessoalmente, eu tendo mais à posição de que não há influência clara do pensamento hindu em Plotino (sobre isso mais ao final do ensaio), mas em todo caso creio que é preciso purgar esse debate dos pressupostos orientalistas.
Retornando à questão da influência histórica da Índia na Grécia, minha intenção é traçar aqui um resumo dos vários personagens históricos no mundo helênico que adquiriram algum conhecimento sobre a Índia, seguida de uma breve avaliação do quê eles de fato parecem ter conhecido.
Começarei, no entanto, tratando diretamente da questão proposta pelo amigo acerca da relação entre o mestre de Plotino, Amônio Sacas, e a Índia. A tese a que o colega fez referência é na verdade uma hipótese proposta por Erich Seeberg há mais de 75 anos. Ela se baseia no argumento de que o seu sobrenome “Sacas” seja uma referência a algum tipo de filiação ao Budismo, devido ao fato do Buda ser um membro do clã Sakya (de onde seu epíteto ‘Sakyamuni’). Este argumento é bastante vago e improvável, ainda mais quando se considera o testemunho de Porfírio, discípulo direto de Plotino, de que Amônio Sacas era na verdade filho de pais cristãos e que teria se convertido ao paganismo em algum momento de sua vida. A tese demandaria sustentar que a família de Amônio veio da Índia à Alexandria, converteu-se do Budismo ao Cristianismo numa geração anterior, para então ele se converter finalmente do Cristianismo ao Paganismo! É uma proposição muito ampla e improvável, baseada em evidências muito escassas. Além disso, não existe nenhuma semelhança considerável entre o pensamento de Plotino e o Budismo daquela época (ou de qualquer época) que nos permitiria sustentar alguma plausibilidade a tais especulações. Os poucos testemunhos legados pela doxografia acerca do pensamento de Amônio tampouco nos permite qualquer conclusão deste tipo.
Outro argumento seria que “Sacas” faz referência a uma região do norte da Índia, de modo que ele seria chamado de “Amônio o saciano”. No entanto, o conhecimento que os povos helenizados do Mediterrâneo tinham acerca da Índia era muito escasso, de modo que não faz sentido que eles se refiram a um imigrante oriental a partir de uma denominação regional assim. É como imaginar um índio brasileiro indo a uma Corte portuguesa no século XVII, e sendo referido como um índio do “planalto central”. O mais provável é que sua origem fosse declarada como sendo ‘as Américas’ – que já eram suficientemente remotas e desconhecidas pela maioria do povo português. Quanto ao epíteto de Amônio, “Sacas” muito provavelmente tem um sentido bastante menos interessante, como ‘o carregador de sacos’, fazendo referência a origens humildes.
A única evidência concreta que uma hipótese como essa tenta tomar por base é o testemunho de Porfírio, segundo o qual Plotino teria se inspirado por seu mestre Amônio a ir até à Pérsia e à Índia em busca da sabedoria. Sabemos que a viagem de Plotino foi mal-sucedida; mas neste ponto já é bom enfatizar que o testemunho de Porfírio fala na Pérsia também, o que a meu ver indica se tratar de uma inspiração vaga a buscar algo “oriental”. Não parece haver neste testemunho nada de um vínculo concreto qualquer com a Índia. O caráter vago dessa única evidência histórica que ligaria Plotino ao Oriente só fortalece a impressão de que o que quer que Amônio informou a Plotino a respeito era igualmente vago. Esta inspiração por uma viagem em busca da sabedoria parece se enquadrar num contexto mais amplo do discurso e das relações distantes que os povos helenizados tinham para com os indianos. Em geral, todo o conhecimento dos povos helenizados sobre a Índia era vago, em sua maior parte concernente apenas ao modo de vida dos ascetas indianos, que eles muito admiravam, mas com quase nenhuma demonstração concreta de qualquer conhecimento mais aprofundado da religião ou do pensamento indiano.
Com Amônio Sacas excluído, vejamos figuras históricas relevantes para a questão da recepção grega da Índia. No período anterior às incursões de Alexandre pela Ásia, as únicas fontes de informações que os gregos tinham eram por parte de gregos que foram empregados pelos persas, em especial Scylax de Karyanda e Ctesias de Knidos. As narrativas deles eram bastante fantasiosas e já questionadas mesmo por seus contemporâneos – mas algo de verossimilidade havia aqui ou acolá. O historiador Heródoto, por exemplo, em V a.C. já sabia que havia entre os indianos hábitos vegetarianos. A historiografia acerca das incursões militares de Alexandre à Índia são a primeira instância de contato direto: esses textos contavam com supostos diálogos entre Alexandre e ascetas indianos, narrativas que exaltavam a renúncia e desapego destes últimos, e sua equanimidade diante da morte. Relevante também é a atitude que esses textos revelam: eles não hesitam em atribuir o epíteto de filósofo àqueles que ali encontraram. Acompanharam a expedição de Alexandre Onesicritus o cínico, Pyrrho o cético e mais um filósofo democriteano – que também tiveram contato direto com os ascetas. Fílon de Alexandria e outros autores helenísticos louvam os ascetas indianos a partir daquelas narrativas.
A segunda grande figura desse intercâmbio foi Megasthenes: ele foi à Índia como embaixador na corte de Chandragupta Maurya, e aí habitou por quase dois anos. De retorno à Grécia escreveu um livro chamado Indika, com relatos do que viu. Embora muito do que sobreviveu desses relatos é considerado de grande valor histórico para os estudiosos contemporâneos, é notável que ele não aprendeu nenhum conceito nativo, e explicou tudo o que viu a partir de termos exclusivamente gregos – inclusive descrevia a religião dos hindus a partir dos nomes dos deuses gregos, atribuindo-os a adoração de Herakles e Dionísio, entre outros. É notável também que seu interesse parecia restrito ao modo de vida dos ascetas indianos, mas acompanhado de pouco conhecimento de suas doutrinas. Mas ele parece já estar bastante consciente da distinção entre dois tipos de ascetas/“filósofos”: os brâhmanes e os śramaṇas. Outro personagem importante é Apolônio de Tiana, cuja legendária viagem à Índia foi narrada por Philostratus. Essas narrativas apresentam muitos elementos de verossimilhança, mas muita ficção também – sendo, como era, uma obra mais literária que histórica. De qualquer modo, tampouco transparece muita coisa aqui sobre o pensamento indiano, o foco sendo outra vez nos seus modos de vida. O tom geral é de exaltação da Índia como terra da sabedoria ideal a que aspirava os neopitagóricos. Outra figura histórica relevante é a de Mani: o gnóstico zoroastra fundador do Maniqueísmo. Ele teria vivido um tempo na Índia, e menciona Buda e alguns preceitos budistas em seus escritos. Por intermédio do Maniqueísmo chegou aos cristãos algo da narrativa da vida do Buda, que eles passaram a atribuir a dois supostos santos mártires cristãos, Barlaam e Josaphat.
Uma das vias mais interessantes de investigação acerca da incursão do pensamento indiano no mundo helenístico, no entanto, parece ser a figura de Bardesanes de Edessa. Ele teria sido um gnóstico cristão que esteve na Índia ou que se comunicou com embaixadores indianos, e os seus relatos que sobreviveram de fato demonstram algum conhecimento de doutrinas brahmânicas. O discípulo de Plotino, Porfírio, cita várias coisas relatadas por Bardesanes, como o fazem também diversos Pais da Igreja. Entre esses últimos, Eusebius narra uma lenda de que um sábio indiano teria conhecido Sócrates e rido de sua atitude de buscar uma sabedoria apenas humana, ressaltando a centralidade da busca da sabedoria divina – uma posição que Eusebius diz ser comum entre os indianos e Platão. Pantaenus, o preceptor de Clemente de Alexandria, também teria ido até à Índia – embora pareça que na verdade ele tenha ido apenas até à “Índia próxima”, próximo à Etiópia. No entanto, o próprio Clemente é o único autor da Antiguidade escrevendo em grego que cita o Buda, e aparentemente sabe distinguir três grupos distintos de ascetas indianos. O mais interessante de todos os Pais da Igreja, neste contexto, é Hippolytus de Roma, cujos escritos parecem ter derivado algum conhecimento concreto do pensamento indiano através de gnósticos cristãos como Bardesanes. Por fim, Agostinho menciona algo da natureza das crenças religiosas indianas em seu A Cidade de Deus, a partir de informações que ele provavelmente recebeu de Porfírio.
Trago aqui alguns relatos de Megasthenes e Bardesanes que informam Porfírio e Agostinho, tal qual aparecem no texto “Indian Wisdom and Porphyry’s Search for a Universal Way” de John H. O’Meara. Segundo o testemunho de Strabo, Megasthenes teria dito:
“… em muitos pontas as opiniões deles [dos indianos] coincide com aquelas dos gregos, pois eles também dizem que o mundo tem um início, é passível de destruição, é esférico em formato, e que a Deidade que o fez, e que o governa, se difunde por todas suas partes. Eles sustentam que vários princípios operam no universo, e que a água foi o primeiro princípio empregado na criação do mundo. Em adição aos quatro elementos há uma quinta agência, da qual os céus e as estrelas são produzidos. (…) A respeito da geração, da natureza da alma, e muitos outros assuntos, eles expressam visões como aquelas mantidas pelos gregos. Eles envolvem suas doutrinas a respeito da imortalidade e o juízo, e assuntos similares, em alegorias, no mesmo modo que Platão. […] Megasthenes também reportou que entre os Brâhmanes havia aqueles que mantém que ‘Deus é luz, mas não luz tal como vemos com os olhos, nem como o sol ou o fogo, mas Deus é entre eles a Palavra – pelo que eles querem dizer … o discurso da razão, pelo qual os mistérios ocultos do conhecimento são discernidos pelo sábio.”
As apresentações feitas aqui por Megasthenes parecem um tanto idiossincráticas, uma leitura a partir do seu background grego que distorce a informação a que teve acesso, mas de fato parece corresponder a um encontro real com doutrinas hindus.
O’Meara comenta como na Cidade de Deus Agostinho lista os indianos ao lado dos Pitagóricos e Platonistas entre aqueles que sustentam as doutrinas filosóficas de que: “há um Deus que é autor das coisas criadas, a luz pela qual as coisas são conhecidas, e o bem pelo qual as coisas são feitas; o princípio de existência para nós, a verdade da doutrina, e a felicidade da vida.” Trata-se de uma formulação bastante platônica, e é difícil determinar a fonte da sua informação que o permitisse incluir os indianos entre aqueles que sustentavam essas posições, no entanto ele realmente está correto aqui em fazê-lo.
Em seu De Abstentia, Porfírio relata o que sabia acerca dos indianos a partir do testemunho de Bardesanes. Ele diz que os “Gymnosophistas”, os sábios ascetas indianos, se dividem em duas categorias – os brâhmanes e os “samanaeans” (śramaṇas?). Ambos seriam pessoas devotadas à sabedoria divina, vegetarianos, engajados em muita oração e adoração ao divino, ambos almejando libertar a alma do corpo e aspirando à imortalidade. Entre os brâhmanes alguns viveriam nas montanhas e outros às margens do rio Ganges, e há uma descrição dos seus hábitos alimentares e de vestimentas, seguida de observações acerca de seu modo de vida – como viviam em solitude e jejum, dedicando-se todo o tempo à oração. É dito ainda que os brâhmanes ascendem à sua posição sacerdotal por direito de nascença e por divina sabedoria. Já os “samanaeans” seriam pessoas advindas de qualquer classe da sociedade, e que renunciavam ao mundo, raspavam seus cabelos, e iam viver foram das cidades. É dito ainda que esses dois grupos de sábios eram tão respeitados que até os reis vinham até eles pedir bênçãos e conselhos em tempos de crise, e que eles de fato não estavam sujeitos à autoridade dos reis e não pagavam impostos. Todo este modo de vida seria inspirado, segundo Porfírio, por doutrinas filosóficas: a existência dos deuses, o dever de adorar o divino, a imortalidade da alma, e a possibilidade de escapar do ciclo de existências. Todas essas posições que Porfírio também partilhava, e um modo de vida que ele também valorizava. De fato, todo este testemunho parece bastante verossímil, e as descrições dos modos de vida dos brâhmanes e śramaṇas aqui são muito precisas.
Uma passagem dos relatos de Bardesanes preservada por Stobaeus, no entanto, é a que mais me impressionou. Ela diz:
“[Havia lá] uma grande caverna natural numa montanha alta, quase no meio do país. Ali havia uma estátua de dez ou doze cúbitos, mantendo-se estreita, com suas mãos cruzadas. E a metade direita de sua face era de um homem, e a metade esquerda de uma mulher. De modo semelhante, a mão direita e o pé direito, – numa palavra, todo o lado direito, – eram masculinos, e o lado esquerdo feminino, e o espectador era maravilhado pela combinação, quando ele via como indissoluvelmente os dois lados dissimilares coalesciam num só corpo. No lado direito do peito havia um sol esculpido e no esquerdo uma lua, e nos braços hostes de anjos (devas), o céu, as montanhas, rios, e mares, plantas e animais, e tudo o que o mundo contém.”
Evidentemente se trata aqui de um interessantíssimo relato sobre a forma Ardhanārīśvara, em que Śiva e Śakti compõem um só corpo.
Então baseado nas fontes que a nós chegaram esses relatos parecem ser o pináculo do conhecimento grego acerca dos indianos. Embora não seja possível eliminar a possibilidade de que algum conhecimento mais preciso existisse. Sabe-se que haviam indianos vivendo em Alexandria; e que muitos embaixadores de partes distintas da Índia vieram a Roma durante o governo do imperador Juliano (“o Grande” para os pagãos, “o Apóstata” para os cristãos).
E quanto a Plotino?
É muitíssimo difícil determinar com certeza que tipo de exposição Plotino teve ou não teve a ideias indianas. Mas há uma razão pela qual estudiosos como Émile Bréhier sustentam que ele foi diretamente influenciado pelo pensamento hindu. Basicamente, embora seja possível derivar de precedentes puramente helênicos a maior parte dos elementos do seu pensamento, o esquema geral de sua metafísica parece ter análogos muito próximos nas Upaniṣads (textos sapienciais do Veda); e, principalmente, há algo no modo como ele trata essas coisas que parece ser sem precedentes na tradição helênica, embora seja elementos plenamente comuns no pensamento hindu. Por exemplo, o modo como Plotino ordena sua metafísica verticalmente de modo que ela sirva como cosmogonia de cima para baixo e soteriologia de baixo para cima – algo que desde então se tornou comum entre helenos e abraâmicos, mas que não tinha precedentes antes. Ou então, o modo como Plotino se engaja em contemplações das suas hipóstases, o que também parece sem precedentes helênicos, embora seja algo muitíssimo comum entre hindus. Um texto como o seu 9º tratado [VI.9], em que a ascensão contemplativa ao Uno é narrada e explicada, tem paralelos quase idênticos na tradição contemplativa hindu. Por essas razões teses de influências upaniṣadicas ou vedantinas no pensamento de Plotino foram defendidas por estudiosos reputados.
No entanto, as semelhanças não são suficientes para provar que necessariamente houve tal influência. É muito possível também que sejam coisas desenvolvidas independentemente, o que na verdade faz a questão da semelhança regredir até os primórdios do pensamento grego: por exemplo, semelhanças que Parmênides e Pitágoras já demonstravam para com o pensamento hindu. Outro problema muito difícil é a questão de alguma fonte concreta que poderia ter chegado até Plotino direta ou indiretamente. É muitíssimo improvável que as Upaniṣads tenham chegado até ele, pois eram textos sagrados restritos a iniciados na tradição brahmanica, e mesmo na Índia é notável que os interlocutores budistas conheciam pouco a seu respeito. É muito improvável também que os textos da escola Vedānta tenham chegado até lá, por se tratarem de textos muito técnicos e de difícil transporte e tradução. [Naquele momento histórico vedantinos como Śaṅkarācārya ainda não haviam nascido, mas já haviam outros grandes ācāryas do Vedānta cujos nomes conhecemos mas cujos textos não chegaram até nós.]
Recentemente, no entanto, um scholar chamado Vishva Adluri – que apesar de indiano é na verdade especialista em filosofia grega – propôs aquele que seria, na sua estimativa, o melhor e mais plausível candidato de texto-fonte plotiniano. Em seu artigo “Plotinus and the Orient: aoristus dyad”, ele propõe que o Nārāyaṇīya seja tal fonte. Trata-se de um texto de 18 capítulos que está contido na seção Mokṣadharmapārvan do Mahābhārata, o grande épico indiano. Ao contrário dos textos vedantinos, não se trata de um texto tão técnico; ao contrário das Upaniṣads, não se trata de um texto esotérico. Ainda, sendo uma produção literária do gênero épico, é um texto mais simples e de mais ampla divulgação.
Alguns elementos doutrinais encontrados nesse texto e que Adluri identifica como sendo próximos ao pensamento plotiniano são os seguintes: o Uno como o princípio último; a soteriologia orientada ao Uno; a dificuldade em ver e descrever esse Uno; os níveis do Ser; o intenso amor erótico e sua relação com o Uno; uma hierarquia ontológica que serve de baixo para cima server como soteriologia e de cima para baixo como cosmologia; o problema da unidade do Uno em face às emanações do Uno; a mediação entre o Uno e o Muitos por uma Díada, entendida como o ‘primeiro tremor’ no Uno; discussões pautadas nas propriedades dos números; a multiplicidade concebida como capacidade de divisão, e secundariamente como progressão numérica; o gênero como categoria ontológica utilizada para conceptualizar o Uno e o múltiplo em sua unidade e diferença.
De fato, é um artigo e uma tese interessante. Ainda que não seja suficiente para determinar influências no pensamento de Plotino, certamente oferece uma possibilidade de estudo comparativo muito importante. Recomendo a leitura para quem se interessar.
Outras recomendações:
“The Shape of Ancient Thought” : um estudo que levou três décadas, somando mais de 1300 páginas, de estudos comparativos entre as tradições grega e indiana. É um comparativismo um tanto selvagem mas uma obra importante.
“Advaita and Neoplatonism – a critical study on comparative philosophy“
“Neoplatonism and Indian Thought“
“Neoplatonism and Indian Philosophy“
“India and Europe: an Essay in Philosophical Understanding“.
“Universal and Inner Self in Early Indian and Early Greek Thought“
“Neoplatonism and Paramadvaita“: artigo comparando Neoplatonismo e Śaivismo da Caxemira.
“Feminine Power in Proclus’ Commentary on the Timaeus of Plato“: não é um artigo comparativo, mas um estudo sobre o modo como Proclo concebe a Díada Ilimitada enquanto Poder feminino. A quase identidade dessa concepção aqui com aquela da teologia Śākta é muitíssimo forte e facilmente reconhecível por qualquer um minimamente familiarizado com esta última.
